A Gronelândia foi um "teste" e a Europa "aprendeu a lição". Agora segue a independência

23 jan, 09:51
António Costa, Ursula von der Leyen, Bruxelas (Getty)

O aparente recuo de Donald Trump em relação à maior ilha do mundo não sossegou ninguém

A reunião tinha caráter de emergência e assim continuou, mesmo depois de o presidente dos Estados Unidos ter deixado palavras aparentemente apaziguadoras em relação às suas pretensões na Gronelândia.

Ainda antes de Donald Trump garantir em Davos, no coração da Europa, que não estava em cima da mesa uma ação militar para se apoderar da maior ilha do mundo, os líderes europeus decidiram convocar uma reunião extraordinária para discutirem os próximos passos de uma relação conturbada com o seu maior e mais velho aliado.

E nem mesmo o alívio provocado pelas palavras de Donald Trump fez a Europa recuar nessa reunião, que foi para a frente esta quinta-feira, em Bruxelas.

“Sabemos que temos de trabalhar como uma Europa independente”, afirmou a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, à saída de uma reunião de cinco horas.

Lá dentro, e segundo o POLITICO, o presidente de França e o chanceler da Alemanha foram os líderes de uma visão que alerta para uma crise transatlântica, o que significa que os países do Velho Continente devem mesmo começar a fazer pela sua vida sem contar excessivamente com o aliado do outro lado do oceano.

Embora não tenham sido tomadas decisões concretas, houve uma espécie de consenso de que o mundo está mesmo mudado, de que havia uma ordem mundial e de que nos preparamos todos para ver isso mudar, o que pode mexer com os alinhamentos saídos da Segunda Guerra Mundial.

De acordo com quatro diplomatas que falaram ao POLITICO, foram as declarações sobre a Gronelândia a fazer soar os alarmes. A proclamada independência europeia estava em cima da mesa desde 2017, quando Donald Trump tomou posse pela primeira vez, mas desta vez é para levar mesmo a sério, já que em cima da mesa estão cenários que há meses eram impensáveis.

“Este é o momento Rubicão”, refere uma das fontes, comparando Donald Trump a Júlio César, que decidiu atravessar o rio para ir atrás de Pompeu, violando a lei e tornando o conflito militar inevitável.

“É uma terapia de choque. A Europa não pode voltar a ser o que era. [Os seus líderes] estão a dizê-lo há dias”, acrescenta o mesmo diplomata, sem dar uma luz concreta sobre o que pode isso significar.

Em todo o caso, a ação já pode ser vista em três ações diferentes. A suspensão do acordo comercial entre União Europeia e Estados Unidos, o envio de tropas para a Gronelândia e a ameaça de começar a vender dívida norte-americana - vista como uma “opção nuclear” - são posições claras de força do lado de cá.

“Não pode ser a segurança energética ou a defesa, não pode ser a força económica ou a dependência comercial, tem de ser tudo, ao mesmo tempo”, aponta um dos diplomatas, pedindo uma resposta forte e unida do bloco.

E perante a real ameaça de uma anexação da Gronelândia - que a Europa sabe que não desapareceu só porque Donald Trump decidiu dizer o contrário - coloca os aliados num outro ponto: o que fazer em matéria de Defesa?

Se França sempre defendeu a “autonomia estratégica” da Europa, agora até os aliados mais a leste, aqueles que estão mais suscetíveis a um eventual ataque russo, estão conformados com a ideia da tal independência.

Não são só as ameaças à Gronelândia, mas também todas as críticas à NATO, algumas das quais fazem pairar a ideia de que os Estados Unidos podem não estar lá se for mesmo preciso defender um ataque russo.

É o caso da Estónia, por exemplo, uma antiga república soviética que não teve dúvidas em destacar tropas para a Gronelândia quando a ideia surgiu na Europa. O país até acabou por não enviar soldados, mas mostrou-se disponível para o fazer assim que fosse pedido.

“Quando a Europa não está dividida, quando nos mantemos juntos e quando somos claros e fortes, incluindo na nossa vontade de nos levantarmos por nós mesmos, os resultados aparecem”, afirmou a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, que tem sido a líder natural desta espécie de revolta, já que a Gronelândia faz parte do país e está sob a sua tutela.

Novamente mais a leste, a Polónia também mostrou estar disponível para ir contra os Estados Unidos, incluindo com a aplicação do Instrumento Anti-Coerção, uma medida retaliatória que iria mexer com todos os investimentos transatlânticos.

“Sempre respeitámos e aceitámos a liderança norte-americana. Mas hoje, o que precisamos nas nossas políticas é de confiança e respeito entre parceiros, não domínio e coerção. Isso não funciona”, atirou o primeiro-ministro polaco, Donald Tusk.

“Esta é uma nova era em que não vamos confiar mais [nos Estados Unidos]”, conclui um outro diplomata que falou com o POLITICO, sugerindo que essa é a realidade “pleo menos nos próximos três anos”, traçando o horizonte para o fim do mandato de Donald Trumo.

“[A crise da Gronelândia] foi um teste. Aprendemos a lição”, termina.

Retomando a ideia do Rubicão, o ponto é agir antes que, como aconteceu nessa altura, um homem viole todas as leis e avance sem parar. Naquela altura Júlio César acabou por ir contra tudo e contra todos para se tornar um ditador e mandar em Roma.

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