Como parte do pacote de investimento, a Dinamarca financiará três novos navios de guerra no Ártico, dois drones de longo alcance com capacidade para efetuar vigilância em grandes áreas e uma maior admissão ao treino militar básico no Ártico
A Dinamarca anunciou na segunda-feira que vai gastar 14,6 mil milhões de coroas dinamarquesas, cerca de dois mil milhões de euros, para reforçar as suas capacidades militares no Ártico - uma decisão que surge na sequência do furor gerado após o interesse renovado do presidente dos EUA, Donald Trump, em controlar a Gronelândia, um território dinamarquês semiautónomo.
O acordo tem como objetivo “melhorar as capacidades de vigilância e manter a soberania na região”, de acordo com um comunicado do Ministério da Defesa da Dinamarca.
“Ao mesmo tempo, o apoio aos esforços dos Aliados e da NATO no Ártico e no Atlântico Norte é essencial para reforçar a segurança e a defesa globais”, acrescenta o comunicado.
Como parte do pacote de investimento, a Dinamarca financiará três novos navios de guerra no Ártico, dois drones de longo alcance com capacidade para efetuar vigilância em grandes áreas e uma maior admissão ao treino militar básico no Ártico.
“Temos de enfrentar o facto de existirem sérios desafios em matéria de segurança e defesa no Ártico e no Atlântico Norte”, afirmou Troels Lund Poulsen, ministro da Defesa da Dinamarca. “Por esta razão, temos de reforçar a nossa presença na região. É esse o objetivo deste acordo, que abre caminho a novas iniciativas já este ano.”
Vivian Motzfeldt, ministra gronelandesa do Estado e dos Negócios Estrangeiros, acrescentou que “a Gronelândia enfrenta um cenário de segurança em mutação”.
O anúncio surge depois de a União Europeia ter afirmado que “não está a negociar” a soberania da Gronelândia
“Não, não estamos a negociar a questão da Gronelândia. Claro que apoiamos o nosso Estado-membro, a Dinamarca, e a sua região autónoma, a Gronelândia”, afirmou a chefe da política externa da UE, Kaja Kallas.
EUA mudam para abordagem mais transacional
Trump, que tomou posse a 20 de janeiro, já descreveu anteriormente o controlo da Gronelândia pelos EUA como uma “necessidade absoluta”. Tanto a Gronelândia como a Dinamarca afirmaram anteriormente que a ilha não está à venda.
A pergunta a Kallas foi feita na segunda-feira, depois de esta ter dito numa conferência de imprensa que a Europa precisava de “cerrar fileiras” à medida que os “Estados Unidos mudam para uma abordagem mais transacional” nas suas relações externas.
A chefe da diplomacia europeia sublinha que apesar de os EUA serem um “aliado importante” e a América e a Europa estarem “muito interligadas”, “não é como se alguém nos estivesse a dizer o que fazer e nós estivéssemos a seguir”.
“Não devemos entrar em especulações sobre os 'e se', porque não é essa a situação atual”, pediu.
Há muito que a Gronelândia é vista como fundamental para os interesses de segurança nacional dos EUA, nomeadamente para repelir um possível ataque russo. Mas durante o primeiro mandato de Trump, as autoridades de segurança nacional estavam particularmente preocupadas com as atividades da China no Ártico, que nessa altura eram uma ameaça relativamente nova, disse um antigo conselheiro sénior de Trump à CNN.
Ainda assim, as autoridades americanas e dinamarquesas disseram que não entendem a obsessão do novo presidente em adquirir a Gronelândia, que Trump chamou de “uma necessidade absoluta”, particularmente porque os EUA já têm um acordo de defesa de décadas com o território que permitiu aos EUA construir uma presença militar significativa - incluindo tropas e sistemas de radar - na maior ilha do mundo.
As autoridades da Gronelândia e da Dinamarca têm-se manifestado fortemente contra o desejo de Trump de obter a ilha - embora vários responsáveis dinamarqueses tenham dito à CNN que receiam que o presidente esteja agora a levar a ideia mais a sério do que quando a apresentou no seu primeiro mandato.
Apesar destas refutações, o debate sobre o futuro da Gronelândia tem sido agitado pela crescente especulação sobre o seu movimento de independência.
No seu discurso de Ano Novo, o primeiro-ministro da Gronelândia afirmou que a ilha deveria libertar-se “dos grilhões do colonialismo” - embora o discurso não tenha mencionado os Estados Unidos.
*Natasha Bertrand, Katie Bo Lillis e Laura Paddison contribuíram para este artigo
