Tirem as mãos dos nossos minerais, diz Gronelândia após encontro de Trump com Rutte

CNN Portugal , JAV
24 jan, 12:27
Naaja Nathanielsen, ministra dos Recursos Minerais da Gronelândia, discursa durante uma conferência de imprensa no Parlamento, em Londres, Inglaterra, na terça-feira, 13 de janeiro de 2026. (Alastair Grant/AP)

A Gronelândia "não aceitará que o futuro desenvolvimento do setor mineral seja decidido fora" da ilha, diz ministra da região autónoma dinamarquesa em entrevista ao Politico. "Isso equivaleria a abrir mão da soberania, os minerais são a nossa jurisdição"

A ministra gronelandesa das Minas rejeita as tentativas da administração norte-americana de Donald Trump de dividir os recursos minerais da ilha, e defende que nenhuma potência externa deve decidir o destino da vasta riqueza natural do território do Ártico.

“Tudo está em cima da mesa, exceto a nossa soberania”, disse a ministra de Recursos Minerais, Naaja Nathanielsen, ao Politico na sexta-feira à noite. A entrevista teve lugar dois dias depois de o presidente dos EUA ter estado reunido à porta fechada com o secretário-geral da NATO, Mark Rutte.

No final desse encontro, Trump disse que as conversas com Rutte passaram por um alegado acordo sobre os recursos da ilha. Ao Politico, Nathanielsen questiona o direito de Trump e de Rutte debaterem questões internas da ilha, afirmando que o governo regional “não aceitará que o futuro desenvolvimento do nosso setor mineral seja decidido fora da Gronelândia”.

Um dia depois da reunião com Trump, o secretário-geral da NATO deixou claro que "a soberania da Gronelândia não foi tema de conversa" no encontro à margem do Fórum Económico de Davos, na Suíça, após o qual o líder norte-americano anunciou que tinha chegado a um "enquadramento para um futuro acordo".

Segundo vários media e analistas, com base nas poucas informações avançadas, o futuro acordo não se distingue da parceria de defesa em vigor desde 1951 entre EUA e Dinamarca, que permite aos norte-americanos terem bases militares e tropas estacionadas naquela que é a maior ilha do mundo.

Citado pelo mesmo site de notícias, um funcionário europeu confirmou na quinta-feira que o "quadro para um futuro acordo" poderia incluir um conselho de supervisão para fiscalizar os minerais da ilha, uma possibilidade que Nathanielsen rejeita liminarmente.

"Isso equivaleria a abrir mão da soberania, essa é a nossa jurisdição, o que acontece com os nossos minerais", sublinha, sugerindo a possibilidade de resolver a questão dos recursos da Gronelândia por meio de negociações multilaterais. "Não estou a dizer que não há acordo possível. [O governo] não tem objeções a fortalecer a capacidade [da NATO] na Groenlândia ou a realizar qualquer tipo de monitorização", adiantou, como também está "aberto" a desenvolver um acordo de cooperação em mineração com os EUA, como sugerido já em 2019.

"Mas não podemos começar a trocar minerais por soberania", adianta a ministra gronelandesa.

Após semanas a ameaçar usar a força militar para anexar a Gronelândia à força, Trump começou a última semana com uma ameaça de tarifas altas aos países europeus caso não lhe entregassem o território semiautónomo dinamarquês, que diz que "tem de estar" sob controlo dos EUA por "questões de segurança nacional".

Na quarta-feira, contudo, o presidente norte-americano recuou perante rumores de negociações entre os 27 Estados-membros da UE para avançar com tarifas retaliatórias e, possivelmente, ativar a chamada "bazuca comercial" contra os norte-americanos, o Instrumento Anti-Coerção criado em 2023 mas que até hoje nunca foi usado.

Se o "futuro acordo" referido por Trump permitir que qualquer país que não a Gronelândia controle os seus minerais, a resposta de Nuuk é "não", diz a ministra na mesma entrevista publicada ontem.

Segundo os especialistas, a ilha ártica possui reservas suficientes de alguns tipos de elementos de terras raras para suprir um quarto da procura mundial, além de vastas quantidades de petróleo, gás, ouro e metais para energia limpa — mas praticamente não extraiu nenhum deles. Com o degelo decorrente das alterações climáticas, estes recursos estão a ficar mais fáceis de explorar.

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