Pico da gripe ainda vai demorar a atingir. Depois do influenza B, influenza A pode intensificar pressão sobre SNS

14 jan 2025, 07:00
Usar máscara nos transportes públicos (Getty Images)

A responsável pelo Laboratório Nacional de Referência da Gripe e de outros Vírus Respiratórios do Instituto Nacional de Saúde Ricardo Jorge, Raquel Guiomar, revela em declarações ao Diário de Notícias (DN) que a época gripal que se vive é a “esperada” para altura do ano, mas que “é de esperar que durante o mês de janeiro ou até fevereiro possa haver um aumento da intensidade da atividade gripal”, sendo, por isso, também “de esperar que neste período, de quatro a oito semanas, ocorra o pico da gripe”.

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Nem todos os hospitais ativaram planos de contingência, mas é esperado que sejam adotadas medidas nas próximas semanas, quando é esperado o pico de novos casos de infeção Influenza

Aumento do número de camas de internamento, contratação de camas nos setores privado e social, adiamento de cirurgias programadas, tempos de espera nas urgências muito para lá do recomendado. Os hospitais portugueses estão a braços com um aumento do número de casos de gripe, uma atividade epidémica com tendência crescente e cujo pico poderá ainda demorar algumas semanas a chegar.

Bernardo Gomes, presidente da Associação Nacional de Médicos de Saúde Pública, assume que era “expectável que a presença mais intensa de um vírus que não circulou de forma tão evidente desde 2019 fizesse pressão nos serviços de urgência” e admite que é possível que essa mesma pressão se intensifique nas próximas semanas. “Nestas épocas em que há uma grande circulação do influenza B, não é de descartar que mais tarde possa haver uma circulação de influenza A”, adverte o médico. “Podemos estar a passar por uma colina, não quer dizer que mais para a frente não exista outra”, adianta à CNN Portugal.

O boletim do INSA sobre a vigilância epidemiológica dos vírus respiratórios, relativo ao período entre 30 de dezembro e 5 de janeiro, indica que, nas últimas semanas, “tem sido observada uma tendência crescente dos casos de gripe” no país, que apresenta uma “atividade gripal epidémica com tendência crescente”. Tal como aconteceu no ano passado, tem-se verificado uma gravidade dos casos e um impacto da mortalidade acima do esperado, sobretudo nos idosos com mais de 85 anos e nas mulheres.

Bernardo Gomes vê com “tranquilidade” o atual cenário, não muito diferente de outros anos, sublinhando que “a composição da vacina é acertada e podemos esperar bons resultados da efetividade vacinal este ano”. Os mais recentes dados da Direção Geral da Saúde dizem que a cobertura vacinal contra a gripe em pessoas com mais de 85 anos está nos 83,89%, enquanto a cobertura vacinal nas faixas etárias 80-84 anos e 70-79 está nos 73,08% e nos 71,74%, respetivamente. Já a cobertura vacinal contra a gripe em pessoas entre os 60 e os 69 anos está nos 47,25%. Ao todo, desde setembro e até 5 de janeiro, já foram vacinadas mais de dois milhões de pessoas contra a gripe.

Sobre este ponto, e apesar de o vírus da gripe que circula ser já um velho conhecido, o médico de Saúde Pública Gustavo Tato Borges alerta que há grupos mais vulneráveis e cuja infeção pode mesmo ser fatal, apelando, por isso, a medidas de mitigação do contágio.

Planos de contingência ativados de norte a sul do país

Os hospitais de norte a sul do país já começaram a adotar medidas para fazer frente à maior afluência de utentes aos serviços de urgência, mas também ao aumento do número de internamentos à boleia das doenças respiratórias.

Bernardo Gomes destaca que, este ano, “houve atenção aos planos de contingência por parte das USL”, com a “ativação e adaptação dos serviços a esta pressão”, o que, no seu entender, “do ponto de vista hospitalar, está a ser feito o necessário”. No entanto, apesar de reconhecer que “houve preparação” por parte dos hospitais, o médico admite que o que tem acontecido é um espelho das assimetrias regionais que existem, sobretudo nas regiões onde o número de médicos de medicina geral e familiar é claramente inferior ao necessário, como acontece em Lisboa e Vale do Tejo.

A norte, tanto a ULS São João como a ULS Santo António já reforçaram a capacidade de internamento, mas sem ativar ainda qualquer plano de contingência, embora ambas as unidades locais de saúde o tenham previsto caso o cenário se agrave nas próximas semanas. A Unidade Local de Saúde São João já abriu mais 50 camas de internamento para fazer frente à maior afluência de doentes e a ULS Santo António reforçou a capacidade de internamento com 27 camas. 

Um cenário diferente está a acontecer no Hospital de Penafiel - da Unidade Local de Saúde do Tâmega e Sousa -, cuja grande afluência ao serviço de urgência e necessidade de internamento já fez esta unidade ativar várias medidas de contingência, previstas no nível 3 do plano, incluindo a transformação do antigo arquivo clínico numa área de internamento para 28 doentes. 

Em Coimbra foram abertas logo a 3 de janeiro dez camas de internamento para doentes respiratórios, mas três dias depois foi anunciado um novo conjunto de medidas, incluindo “a contratação de profissionais para o plano de contingência (60 profissionais), alargamento do programa de cuidados continuados integrados no domicílio (20 vagas adicionais) e contratação de camas de retaguarda (85 camas até 120 camas)”. Os hospitais desta ULS entraram no nível 1 do plano de contingência ainda em dezembro.

Na área metropolitana de Lisboa, a que tem apresentado mais constrangimentos, o Hospital Santa Maria abriu há uma semana mais dez camas para casos de doenças respiratórias e mais 25 camas de proximidade. O anúncio foi feito pelo presidente do Conselho de Administração da Unidade Local de Saúde de Santa Maria num dia em que o tempo de espera nas urgências para doentes com pulseira amarela, para casos urgentes, chegou às 17 horas.

A ULS Loures-Odivelas tem o plano de contingência nível 2 ativo desde o início de janeiro, como anunciou num comunicado enviado às redações, nível que implica a alocação de mais médicos para o serviço de urgência geral e o aumento da capacidade para o internamento através da “contratualização de soluções externas”. 

O plano de contingência do Hospital Fernando Fonseca, da Unidade Local de Saúde Amadora/Sintra, também já foi ativado com a conversão de 30 camas para acolher doentes a precisar de internamento. Houve ainda aumento de camas nos cuidados intensivos. Em declarações aos jornalistas no início da semana, Bárbara Flor Lima, diretora clínica do Hospital Fernando Fonseca, revelou que esta unidade mantém a resposta para doentes oncológicos, mas que já adiou cirurgias programadas, de modo a garantir camas internas para os casos mais graves de infeção respiratória.

Segundo o jornal Público, na ULS São José foram reconvertidas 20 camas para doentes respiratórios e foram ainda sub-contratadas outras tantas para os casos sociais e de cuidados continuados. Na ULS Almada-Seixal houve já um aumento do número de camas - duas por serviço hospitalar. Até ao momento foram reconvertidas 20 camas, além das sub-contratadas para os casos sociais e de cuidados continuados.

A Unidade Local de Saúde do Alentejo Central (ULSAC) ativou na quarta-feira passada o nível 1 do plano de contingência, de modo a garantir o internamento do “elevado número de doentes” que se encontram na urgência do hospital de Évora.

Embora defenda que “temos uma afluência de doentes expectável para a época”, Júlio Nóbrega, diretor clínico do Serviço de Saúde da Região Autónoma da Madeira (SESARAM), revela que os hospitais públicos da região já esgotaram a sua capacidade de internamento, como noticia o Diário de Notícias da Madeira.

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