Exames de sangue de veterinários de animais de grande porte sugerem que a gripe aviária H5N1 se espalhou de uma forma mais ampla do que a vigilância do vírus nos EUA está a conseguir acompanhar, de acordo com um novo estudo realizado por investigadores federais e estaduais norte-americanos.
O estudo foi divulgado numa altura em que o estado de Ohio anunciou o seu primeiro caso humano de H5N1, detetado num trabalhador avícola que foi hospitalizado com sintomas respiratórios, mas que entretanto já recuperou.
Este novo estudo realizado com veterinários descobriu que três dos 150 que se inscreveram para serem testados – ou 2% – tinham anticorpos contra a gripe aviária no sangue. Os anticorpos indicam que os veterinários foram infetados com a gripe das aves, embora não apresentassem sintomas. Este é um dos três estudos sobre gripe aviária que foram adiados depois de a administração de Donald Trump ter suspendido as comunicações externas de agências federais de saúde, em janeiro.
O estudo sobre análises sanguíneas de veterinários que tratam de vacas foi divulgado recentemente no Relatório Semanal de Morbidade e Mortalidade, publicado pelo Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) dos EUA. Os outros estudos, que ainda não foram divulgados, detalham a transmissão entre gatos infetados com gripe fas aves e pessoas que habitam na mesma casa, e discutem ainda a deteção de H5N1 em águas residuais.
Exames de sangue em veterinários
Para a investigação, também denominada como estudo de soroprevalência (pois procura evidências de infeções no sangue para tentar determinar a exposição de uma população à doença), os investigadores do CDC e do Departamento de Saúde de Ohio foram à reunião anual da Associação Americana de Praticantes Bovinos, realizada em setembro, em Columbus. Antes da reunião, o CDC enviou e-mails aos membros para perguntar se gostariam de participar, tendo conseguido inscrever 150 veterinários de 46 estados norte-americanos e também do Canadá, cuja colheita de sangue foi feita durante o evento. Pouco mais da metade era de estados conhecidos por terem rebanhos leiteiros positivos à gripe das aves, e um em cada quatro disse que tinha trabalhado com gado infetado.
Os exames de sangue de três veterinários deram positivo para anticorpos para o vírus H5N1, embora nenhum deles tenha apresentado sintomas memoráveis ou trabalhado com vacas que testaram positivo para o H5N1. Um veterinário que tinha anticorpos tinha, no entanto, trabalhado com aves infetadas, de acordo com o estudo. Um outro veterinário que testou positivo disse que tratou gado na Geórgia e na Carolina do Sul, dois estados sem relatos de infeções em vacas.
Os autores do relatório escrevem que as suas descobertas sugerem que pode haver infeções por H5N1 em vacas em estados que não relataram nenhuma infeção nestes animais, e destacam ainda a necessidade de testes mais rápidos e abrangentes de animais e leite para identificar rebanhos infetados.
A médica Jennifer Nuzzo, diretora do Centro de Pandemia da Universidade Brown, considera que, apesar de tudo, o estudo traz boas e más notícias. A má notícia, começa por dizer, é que a gripe aviária está a espalhar-se onde não a podemos ver. “Acho que o ponto principal aqui é que há veterinários que podem ter sido infetados em estados que não relataram surtos, o que é mau”, lamenta Nuzzo, salientando que “isso mostra a necessidade de melhorar a nossa vigilância para que possamos detetar melhor quando é que os surtos estão a ocorrer, para que possamos proteger as pessoas”. A boa notícia é que os cientistas não encontraram evidências de um grande número de infeções pouco conhecidas. “Não estamos a deixar passar nenhum enorme iceberg submerso de infeções leves que possivelmente nos faria pensar que este vírus poderia ser muito mais brando do que tem sido historicamente”, acrescenta Nuzzo.
Outros especialistas dizem que o estudo destaca alguns dos desafios que os veterinários enfrentam para se protegerem do vírus. “Este relatório mostra-nos que este vírus pode infetar os animais e manifestar-se sem sintomas, e que é libertado em quantidade suficiente, seja diretamente do animal para o veterinário ou através do contacto com superfícies, para infetar o veterinário”, acrescenta Erin Sorrell, investigadora sénior no Centro de Segurança em Saúde da Johns Hopkins. Nuzzo e Sorrell não participaram neste novo estudo.
As infeções por gripe aviária em humanos continuam raras
Não há evidências de que o H5N1 esteja a espalhar-se de pessoa para pessoa. O CDC diz que o risco para o público continua baixo, embora as pessoas que trabalham em quintas e com animais infetados, ou que têm rebanhos de aves de quintal, apresentem um maior risco de infeção por H5N1.
Desde março de 2024, houve 68 infeções confirmadas de H5N1 em pessoas nos EUA. Todas, exceto três, tiveram exposições conhecidas a animais. Dois desses casos foram graves, incluindo o de uma pessoa idosa, no estado de Louisiana, que morreu no ano passado. A infeção séria mais recente foi de um trabalhador rural em Ohio, que teve contacto com pássaros infetados. O estado de Ohio anunciou o seu primeiro caso de gripe aviária num humano no início de fevereiro. A pessoa foi hospitalizada com sintomas respiratórios, mas já recuperou, de acordo com uma fonte de uma autoridade de saúde familiarizada com os detalhes deste caso, mas que não estava autorizada a falar com a imprensa. O subtipo do vírus não foi confirmado, mas provavelmente é a cepa mais recente, a D1.1, disse a mesma fonte.