ANÁLISE || "Os dois lados estiveram mal", agora "é fundamental que todos se sentem à mesa e que prevaleça o bom senso" - "o país precisa disso". Posto isto: o que vai acontecer à lei laboral do Governo depois desta greve? "Não pode ficar igual." Mas atenção: "A democracia, a negociação e o diálogo social não são um campeonato de vitórias e de derrotas"
A greve geral desta quinta-feira é "uma demonstração de vinculação impressionante", considera o comentador da CNN Portugal Francisco Rodrigues dos Santos. Para o também antigo líder do CDS-PP, o dia mostrou "uma união transversal da classe trabalhadora" e um descontentamento que nasce não apenas das medidas em si, mas da forma como foram comunicadas e preparadas.
Por outro lado, o comentador censura a reação do Executivo liderado por Luís Montenegro: "Um Governo que é insensível a uma manifestação desta magnitude e a um protesto tão sonoro e tão audível é um Governo que demonstra um alheamento democrático que é um péssimo sintoma para quem quer exercer um poder político que responda aos desafios e aos objetivos dos portugueses", diz Francisco Rodrigues dos Santos.
Já o comentador da CNN Portugal Adalberto Campos Fernandes afirma que o Governo "falhou no essencial". "A democracia é o espaço do diálogo" e, na opinião do ex-ministro da Saúde, não houve diálogo suficiente, nem antes nem depois do anúncio das medidas. E o resultado está à vista: uma greve nacional, prejuízos económicos significativos e "um estrondo" político que era evitável.
"Quando o Governo não é capaz de dialogar e evitar, em cima do Natal, uma situação desta natureza, há uma perda muito grande para o melhor ingrediente da democracia, que é o diálogo, e aí perdem todos. Foi um ato politicamente inútil."
O comentador da CNN Portugal Miguel Relvas expressa a mesma ideia, embora argumentando que os sindicatos precipitaram o confronto ao avançarem para a greve sem conhecerem a versão final da lei. Para o antigo secretário-geral do PSD, "os dois lados estiveram mal". Agora, "é fundamental que se sentem à mesa e que prevaleça o bom senso, o país precisa disso".
Uma reforma sem base de apoio
Entre críticas e responsabilidades distribuídas, há um ponto em que todos parecem concordar: a proposta do Governo não tem margem para avançar como está. O comentador da CNN Portugal Pedro Adão e Silva considera que, "sem votos para passar no Parlamento", o Executivo terá inevitavelmente de recuar. Não apenas por força da oposição partidária, mas por um consenso social que se tornou demasiado visível. Há matérias que, diz, são "linhas vermelhas para os sindicatos" e que geraram resistência generalizada.
Francisco Rodrigues dos Santos acrescenta que o pacote laboral "não deve e não pode ficar igual", não apenas por razões políticas mas porque seria imprudente ignorar uma mobilização desta dimensão. A greve, diz, enviou ao Governo "um claro cartão vermelho ao Governo" que o obriga a reabrir negociações.
"O sinal que advém desta paralisação é muito claro: é que o protesto é para ser levado a sério. Os trabalhadores estão unidos e o Governo tem de ter a abertura negocial para estabelecer compromisso e consenso porque foi exibido um claro cartão vermelho a este pacote laboral."
Adalberto Campos Fernandes lembra ainda que uma boa reforma laboral tem de ser "exequível”, isto é, construída com quem a vai executar, algo que, segundo o comentador da CNN Portugal, não aconteceu. "A democracia, a negociação e o diálogo social não são um campeonato de vitórias e de derrotas. Quem tem o poder de governar tem a obrigação de compreender os sinais que a sociedade emite."
Já Miguel Relvas vê nesta crise um falhanço sobretudo comunicacional. Nota que o Ministério do Trabalho "tinha medidas positivas" mas que uma “má entrevista e alguma arrogância” da ministra acabaram por destruir a confiança necessária para um entendimento inicial. A ausência de diálogo - expressão repetida pelos quatro comentadores - tornou assim qualquer avanço impossível.
Quem cede? E até onde?
Se a reforma vai mudar, importa perceber quem terá de ceder. E aqui, embora haja nuances, o consenso volta a emergir: a pressão está claramente sobre o Governo. Pedro Adão e Silva sublinha que foi o próprio Executivo que "acendeu o rastilho" ao anunciar um pacote laboral sem o devido envolvimento dos parceiros sociais. O Governo, diz, não apenas desencadeou a greve como se colocou numa posição em que terá de recuar para recuperar estabilidade: "Está na mão do Governo reverter esse rastilho".
Miguel Relvas acrescenta que o primeiro-ministro tem agora a responsabilidade de "tomar conta do processo" e conduzir tanto Governo como sindicatos a uma solução equilibrada. E Francisco Rodrigues dos Santos lembra que o país não pode continuar com "trabalhadores contra o Governo e o Governo contra quem trabalha". Mas há também quem sublinhe que os sindicatos não podem exigir todas as vitórias.
"O interesse setorial não se pode sobrepor ao interesse geral", afirma Adalberto Campos Fernandes, defendendo que as duas partes têm de se encontrar a meio caminho para chegar a um "ponto de entendimento comum".
Pergunta final: haverá mais greves? A resposta depende sobretudo da forma como o Governo atuar nas próximas semanas, dizem os comentadores. Francisco Rodrigues dos Santos admite que as centrais sindicais já deixaram aberta a possibilidade de novas paralisações caso não haja avanços concretos e espera que a greve tenha sido " o empurrão que o Governo precisa para que constitua um novo ciclo de abertura ao diálogo para se estabelecerem compromissos".
Adalberto Campos Fernandes, embora acredite que o Executivo terá aprendido com esta confrontação, admite que "é sempre possível" repetir-se um cenário semelhante se não houver diálogo. Já para Miguel Relvas, "está tudo nas duas mãos" - tanto do Governo como dos sindicatos.