A noite em que André Ventura passou a ser a esperança da esquerda

12 dez 2025, 07:00

CRÓNICA || A greve geral - “inexpressiva” para o governo, "histórica" para os sindicatos – acabara o dia sem abalar a confiança de Montenegro, resoluto em avançar com o pacote laboral. Até que veio a noite e Ventura inaugurou críticas, apontou uma burrice e alumiou as expectativas de opositores, grevistas e manifestantes, que até acabaram a dançar o “Last Christmas” dos Wham! aos berros, como se à lareira dos caixotes incendiados nas faldas do Parlamento

“No último Natal, eu dei-te o meu coração / Mas logo no dia seguinte, tu deitaste-o fora”. Não é José Mário Branco nem música de intervenção, é mesmo George Michael e música de elevador, “Last Christmas, I gave you my heart / But the very next day, you gave it away”, e é esta a banda sonora esquisita que ecoa com o volume no máximo na Rua de São Bento sobre a metralha de garrafas voadoras que se despedaçam nos degraus do Parlamento.

É quinta à noite, são 20h05, as televisões mostram em direto a formação em quadrado da polícia a descer, uma centopeia escudada em fibra de vidro que descarrega extintores para apagar tiras de papelão incendiadas por pequenos Neros encapuzados, órfãos de revoluções tomba-impérios. José Carlos Araújo, em direto, é um dos atónitos com a escolha musical, "nunca vi disto", diz o repórter. Nem ele, nem nós.

Visto na TV, parece Antonioni, uma transcriação soixante huitard entre a realidade e a ilusão, dois leões de lioz em Lisboa olham através da nuvem de fosfato monoamónico anti-incêndio como se fosse fuminho na pista de dança quase vazia, onde rufias fins-de-festa com ar glam punk afinal dançam uma canção synth pop sobre um desgosto de amor que toca em dezembro em todos os centros comerciais do mundo.

Está feito, a greve geral chega assim mediaticamente ao fim, “Ooh, ooh, now I've found a real love / You'll never fool me again”, agora encontrei o amor verdadeiro, nunca mais me enganarás, estas são as babas do código do trabalho que nem uma hora depois começará a desfigurar-se em câmara rápida num debate eleitoral: André Ventura, ele mesmo, deitará a proposta abaixo e ainda criticará a cena “lamentável” dos apedrejadores dançarinos, “pessoas nuas a ofender o Parlamento”.

Um dos pequenos incêndios nas escadas da Assembleia da República, de que os sindicatos se distanciaram (fotograma)

Passa já das 21h00 quando o líder do Chega aviva as cenas finais da manifestação e mata o sonho de Luís Montenegro de aprovar o código laboral na versão atual, onde propõe mais direitos às empresas porque a lei como está “tem desequilíbrio a favor dos trabalhadores”, segundo a ministra autora do pacote. Só que o governo contava com o Chega para aprovar a lei. E o Chega, pela voz do líder, desempatou o debate sobre o sucesso-ou-fracasso da greve inaugurando outra música pop, com um novo refrão contra as leis do trabalho.

No debate com Jorge Pinto, André Ventura disse isto - e vale a pena ler tudo:

 

Eu alertei o governo desde o início de que nós devíamos evitar uma greve geral. E devíamos evitar uma greve geral procurando garantir que quem trabalha se sente valorizado – porque, hoje em dia, na verdade as pessoas que trabalham sentem que não são valorizadas e que estão a sustentar os que não querem trabalhar – que se se sentir quem trabalha por turnos, quem tem trabalho extraordinário, as mães que querem amamentar os filhos enquanto trabalham, tudo isto, em junho, eu avisei o governo de que estávamos no mau caminho, estávamos a criar um bar aberto para despedimentos, para precariedade, estávamos a criar uma lei que nem para as empresas interessava – mesmo que o intuito fosse ajudar as PME, era um caminho errado –, que havia questões que eram absolutamente escandalosas – um exemplo, a possibilidade de fazer despedimentos coletivos e depois recorrer ao outsourcing, hoje é proibido por lei, o governo quer acabar com isto, qualquer pessoa percebe que é uma burrice, desculpem a palavra, é uma burrice, mete nas pessoas o medo de serem despedidas a qualquer custo e de qualquer maneira, isto é um erro." André Ventura

 

A coisa foi de tal forma surpreendente que Jorge Pinto ironizará:

 

Talvez no fim deste debate [Ventura] se queira juntar a um sindicato, até se candidatar a líder da CGTP, bem-vindo camarada Ventura a esta luta.” Jorge Pinto

Mas Ventura disse ainda mais:

 

É um erro ter chegado aqui. É um erro por parte do governo, que deixou chegar aqui, e sobretudo porque o Chega, desde o início, que era quem queria criar maiorias no Parlamento, era o Chega ou o PS, e disse: ‘meus senhores, estamos disponíveis para uma lei laboral que seja moderna, que vá de encontro [sic] àquilo que queremos, mas não estamos disponíveis para uma lei que seja um bar aberto de despedimentos, que seja um ataque às mães e aos pais, que seja um ataque aos direitos dos trabalhadores em matéria de horários, de quem trabalha por turnos, portanto eu acho que se devia ter evitado chegar aqui." André Ventura

 

Sentar-se com a UGT, levantar-se com o Chega 

Estas declarações de André Ventura - que também foi acusado de mudar de opinião de um dia para o outro sobre as leis do trabalho - sugerem que o Chega não votará favoravelmente ao pacote laboral tal como ele está agora. E isso é um revés para o governo de Montenegro, que contava com o partido à sua direita para aprovar a proposta do Parlamento. “Demos quatro meses ao governo para recuar e o governo não quis recuar", afirmou Ventura. Ao fim da noite, o governo ainda não reagira.

Nas suas declarações, Ventura parece ter listado pelo menos quatro mudanças que exige que sejam alteradas ou retiradas da proposta do governo:

 

A esperança da esquerda

A ironia deste desenlace é que, antes de se saber se as formas de protesto poderão crescer nas próximas semanas ou se governo e UGT terão caminho para se aproximarem, a maior forma de pressão imediata que os sindicatos e partidos de esquerda porfiavam veio do Chega e do seu líder, André Ventura.

Quem diria?...

Depois das 22h00, o líder da CIP já admitirá começar de novo, reiniciar todo o pacote laboral, desde que a CGTP alinhe também numa solução construtiva. A hipótese será remota.

A greve geral que o governo quis desvalorizar como uma greve da função pública, sugerindo um país "privado" cheio de luíses a trabalhar, produziu afinal um efeito: não dobrou o governo nem a UGT, não desmotivou a CGTP, e não sabemos se mudou a opinião pública - mas alterou a posição do líder da oposição. 

Talvez o traído da noite seja assim o governo, que entregara o coração da viabilização da lei ao Chega. Aparentemente, neste Natal já não vai dar. Noutro ano, para se poupar a lágrimas, talvez o governo prefira dar-se a alguém especial e seja outra a dança no Parlamento, sem garrafas de cerveja partidas nem polícias a arrostar, e Montenegro cantarole "This year, to save me from tears / I'll give it to someone special".

 

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