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Luísa não faz greve porque tem medo, Francisca está contra o timing e Sandra já desistiu de lutar. Para Anabela, Lígia e Isabel é a única solução

10 dez 2025, 07:00
Manifestações em dia de greve geral em Portugal (Lusa)

 

 

O que está em causa 

A greve desta quinta-feira é um marco histórico na luta dos trabalhadores em Portugal. Há anos que as duas principais centrais sindicais não juntavam forças. À CGTP-IN (Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses – Intersindical Nacional) e à UGT, juntaram-se dezenas de outros pequenos sindicatos que não estão filiados em nenhuma das duas, num protesto que promete paralisar o país. Esta quarta-feira o impacto já se vai fazer sentir em setores como os transportes. A CP prevê que o impacto da greve demore três dias a deixar de se fazer sentir.

Nem as declarações do primeiro-ministro demoveram os sindicatos. No encerramento do X Congresso Nacional dos Autarcas Social-Democratas (ASD), no Porto, no último sábado, Luís Montenegro elevou os objetivos salariais para o país e falou mesmo em valores que agora parecem inatingíveis - em 1.600 euros de salário mínimo e 3 mil euros de salário médio. "Nós não queremos crescer 2% ao ano. Queremos crescer 3%, 3,5%, 4%. Nós queremos que o salário mínimo não chegue aos 1.100 [euros]. Esse é o objetivo que temos para esta legislatura, mas nós queremos mais. Que chegue aos 1.500 ou aos 1.600", disse.

 

Os sindicatos apelam a uma participação massiva dos trabalhadores nesta greve, contra a reforma da Lei Laboral que o Governo propõe. O documento ainda está em negociações e a ser discutido com os parceiros sociais, mas a greve serve para mostrar ao Governo que “os trabalhadores estão atentos e não vão deixar que haja uma revogação dos seus direitos”.

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Entre os trabalhadores há quem não tenha dúvidas em aderir, quem não faça greve porque não pode e mesmo quem discorde do protesto. A CNN Portugal ouviu alguns, na véspera do protesto que promete paralisar o país

Luísa (nome fictício) diz que “gostava muito de fazer greve”. Mas, na quinta-feira, vai trabalhar como em todos os outros dias. Contra as suas convicções vai picar o ponto pontualmente às 09:00 como todos os dias, porque teme represálias da entidade patronal se fizer greve.

“Acho essencial para fazermos valer as nossas preocupações. Contudo, tenho plena consciência que, na empresa onde trabalho, seria levado como uma afronta e eu seria penalizada”, antecipa à CNN Portugal.

Luísa diz que tem razões para estar receosa. Já noutras circunstâncias se sentiu prejudicada por ter feito valer os seus direitos. “A greve é um direito, mas tenho de me salvaguardar de represálias”, remata.

Também Pedro (novamente nome fictício), que pediu anonimato porque não se quer expor, “gostava de fazer greve” e ir para a rua com os colegas, para lutar contra a proposta de revisão da lei laboral. Mas é técnico de manutenção de aeronaves no Aeroporto Humberto Delgado, em Lisboa, e foi destacado para assegurar serviços mínimos. Considera que os serviços mínimos prejudicam os objetivos da greve, mas, por lei, tem de os cumprir.

“Concordo com a greve e com os motivos da greve. Acho que as propostas do Governo vêm tirar direitos aos trabalhadores e facilitar a vida ao patrão. Se se chegasse a um consenso e se a greve pudesse ser retirada, seria fantástico. Agora, estando a revisão do Código do Trabalho ainda em negociação e não havendo consenso à vista, há todos os motivos para fazer greve”, sublinha.

Os motivos da luta vão muito além dos salários baixos. Os sindicatos alegam que a proposta de alteração ao Código do Trabalho contém “mais de 100 medidas lesivas dos direitos dos trabalhadores”.

"Tenho tantas razões para fazer greve"

A professora Anabela Fialho nunca teve dúvidas: quinta-feira não vai dar aulas e vai marcar presença na manifestação em Lisboa. “Resolvi fazer greve porque, pelo que tenho ouvido na comunicação social, me tem parecido que estas propostas de alteração ao Código do Trabalho são um retrocesso nos direitos laborais e sociais. E não podemos retroceder”, justifica.

E faz questão de exemplificar: “A questão da amamentação, por exemplo, tem implicações até no bem-estar da própria família, que é o pilar da sociedade e que se tem vindo a degradar e se vai degradar ainda mais.”

Anabela tem 65 anos. Olha para esta greve como o “único instrumento” à disposição dos trabalhadores para “fazerem ouvir a sua voz”. “Também temos as eleições. Mas, neste momento, as eleições são o que são. Não me parece que tenhamos outra alternativa se não fazer greve”, considera.

“Ninguém faz greve de ânimo leve. É uma penalização para a vida do trabalhador, porque, com os salários como estão, as pessoas não se podem dar ao luxo de perder dias de salário assim por uma razão qualquer. Se as pessoas fazem greve é porque estão mesmo insatisfeitas”, acrescenta.

A professora espera uma adesão grande dos trabalhadores. “Pelo que tenho falado com as pessoas que estão à minha volta, vai ser uma greve com grande adesão”, antevê.

Na mesma escola onde Anabela dá aulas, a Escola Secundária do Pinhal Novo, uma das maiores do país, com mais de dois mil alunos, a insatisfação não se faz ouvir só pela voz dos docentes. Também os assistentes operacionais estão profundamente descontentes. “Tenho tantas razões que podia ficar o resto da tarde a falar consigo sobre elas”, começa por dizer Lígia Sécio, 52 anos, assistente operacional naquela escola da Margem Sul do Tejo há dez.

“Na nossa escola temos 2.200 alunos. O nosso rácio era de 38 assistentes operacionais para a escola inteira e o Ministério achou que eram muitas e baixou o rácio para 32. A nossa escola tem blocos de dois pisos. Cada piso tem 22 salas. E chega a estar só uma assistente operacional por cada piso. Chega a ser uma pessoa para 800 alunos”, contabiliza.

Lígia diz que fala em nome de toda uma classe. Nem precisa de chegar à revisão do Código do Trabalho para encontrar razões para justificar o protesto. Há muitos motivos que já são uma realidade e que a levam a aderir à greve: “Temos uma unidade de Ensino Especial. Estão 13 crianças na unidade e está uma assistente operacional de manhã e outra à tarde. São jovens alguns já com 18, 19, 20 anos completamente dependentes. Usam fralda e as minhas colegas não têm qualquer formação para trabalhar com eles. As minhas colegas trabalham de coração e fazem o que podem, mas nunca ninguém lhes disse como fazer”, lamenta.

Queixa-se de uma “desvalorização crescente” da profissão e lembra que os assistentes operacionais são os primeiros rostos que os alunos encontram na escola: “Muitas vezes chegam mais depressa a nós do que aos professores. Sabemos quando as crianças são maltratadas em casa, quando passam fome… eu própria já cheguei a pagar do meu bolso refeições a alunos que passam fome. E confidenciam-nos isto antes de chegar aos professores.”

Isabel (nome fictício) também vai fazer greve, mas pede anonimato. Não porque tenha vergonha de fazer greve, mas porque é enfermeira e “há sempre alguém que aponte o dedo aos profissionais de saúde que fazem greve, porque dizem que os cuidados não foram prestados”.

Com 38 anos e a exercer a profissão na Unidade Local de Saúde Gaia-Espinho, Isabel não hesitou quando se deparou com a questão de fazer ou não greve. “Não concordo com algumas das medidas que o Governo quer implementar. Entre elas as medidas de apoio à parentalidade ou as medidas de apoio aos jovens, para começarem a trabalhar e poderem constituir a sua família, sem o medo da precariedade e da instabilidade laboral”, justifica.

No hospital, Isabel vai tomando o pulso à insatisfação dos outros profissionais que lá trabalham, sejam enfermeiros, como ela, médicos ou mesmo auxiliares de ação médica. E a observação que faz do desgaste dos colegas de trabalho levam-na a acreditar que a greve vai ter uma grande adesão no setor.

"Timing desta greve é despropositado"

Já Francisca (nome fictício), 36 anos acabados de fazer, funcionária pública e residente em Almada, decidiu não aderir à greve. “Por muito que eu saiba que a greve é um direito dos trabalhadores e que deve ser exercido, acho o timing desta greve propositado. Vão fazer uma greve quando o assunto ainda está em negociações? Há aqui um aproveitamento político. Já estão a lesar o Estado e não sabem sequer se o Governo vai ou não voltar atrás na decisão”, argumenta.

Francisca discorda de muitas das medidas propostas pelo Governo para reformar a lei laboral. “A questão da amamentação é uma delas. A licença para aleitamento deveria ser paga pela Segurança Social e ser alargada a toda a gente, mesmo que não esteja a amamentar. Porque as crianças, desde muito cedo, passam muito tempo nas creches. Mais tempo do que os pais passam no trabalho e isso é inadmissível. Nenhuma criança devia estar nove ou dez horas numa creche”, defende, mas faz questão de acrescentar que acha que muitas das medidas que têm vindo a público estão “mal explicadas”.

Francisca considera que a greve é um recurso que “lesa o Estado e lesa as empresas e deve ser usado pelos trabalhadores com moderação”. Até admite fazer greve, “se houver, quando a proposta que está agora em cima da mesa for aprovada”. “Mas, até lá, deixemos trabalhar as pessoas”, diz.

Além de discordar do timing da greve, Francisca também discorda do “modo como se faz greve em Portugal”. “As pessoas normalmente fazem greve e vão passear. Faz sentido fazer greve e ir a uma manifestação ou ir para o local de trabalho marcar presença e não trabalhar. Mas fazer greve 'para ficar em casa ou ir às compras para o centro comercial, não'.”

Sandra Silva, 52 anos, instrutora de condução numa escola do Porto, também não vai aderir à greve, embora concorde com ela. “Faria de boa vontade se sentisse que ia mudar alguma coisa no meu setor. O setor das escolas de condução está pela hora da morte. A partir do momento em que as pessoas compram um iPhone por 1.200 euros e acham muito dar 750 euros por uma carta de condução…”, lamenta.

“Sou instrutora há 30 anos e ganho tanto como um instrutor que entre agora para a carreira. Não somos respeitados pelos alunos. Mudam de instrutor por qualquer coisinha. Temos de andar sempre com pezinhos de lã. Somos a profissão mais desvalorizada neste momento, tendo em conta os riscos que corremos e a responsabilidade que temos em mãos. Somos constantemente insultados na estrada”, prossegue.

Contudo, Sandra apoia a greve, acha que vai ter grande adesão e espera mesmo “que venha mudar as coisas em alguns setores”. “Mas no meu não vai ter.”

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