Vários migrantes desaparecidos depois de naufrágio perto da Grécia

CNN Portugal , FMC, com Lusa
10 ago, 14:03
Migrantes avistados durante uma patrulha perto de Lesbos (AP Photo/Panagiotis Balaskas)

Médicos Sem Fronteiras relatam que os migrantes estão aterrorizados devido ao aumento de violência e a deportações forçadas pela Grécia

A Grécia lançou esta quarta-feira uma operação de busca para tentar encontrar vários migrantes cuja embarcação naufragou ao largo da ilha de Cárpatos, no sudeste do Mar Egeu, anunciou a guarda costeira grega.

“Até agora, 29 pessoas - afegãos, iraquianos e iranianos - foram resgatadas e a busca continua porque, de acordo com as suas declarações, entre 20 e 50 outras pessoas estavam no barco afundado”, declarou à agência francesa AFP um funcionário do gabinete de imprensa da guarda costeira.

As pessoas resgatadas encontravam-se a cerca de 61 quilómetros a este da ilha de Karpathos e tinham saído da cidade costeira de Antalya, tendo como destino Itália, anunciou a agência de notícias Associated Press (AP)

As autoridades gregas comunicaram que foram mobilizados dois barcos de patrulha da guarda costeira, um navio da marinha, um helicóptero da força aérea grega e pelo menos três navios que se encontravam nas proximidades para tentar localizar os desaparecidos. 

A busca estava a ser dificultada por ventos fortes na zona, de acordo com a guarda costeira grega.

Esta situação levanta uma problemática maior, denunciada pelos migrantes que chegam às ilhas gregas e relatada pela organização não-governamental Médicos Sem Fronteiras (MSF)

"Bateram-nos com um pau e com os pés"

A rota mais comum para os que chegam do Médio Oriente e procuram asilo na Europa tem sido entre a Turquia e a Grécia. Contudo, migrantes têm denunciado situações desumanas e deportações forçadas por parte das autoridades gregas, o que tem levado a que optem por um trajeto mais longo e perigoso direto a Itália, contornando as ilhas gregas.

Os MSF afirmaram esta quarta-feira ter recebido várias queixas de forte violência e de retornos forçados à Turquia por parte de migrantes que chegaram às ilhas. 

Segundo relataram, as autoridades gregas têm intensificado o policiamento no Mar Egeu e nas ilhas e, por isso, muitos requerentes de asilo, com medo de ser apanhados, escondem-se nas ilhas, ficando vários dias sem acesso a água, comida e assistência médica. 

"Algumas pessoas são tão severamente afetadas pelo medo que não conseguem falar ou andar", disse Nicholas Papachrysostomou, chefe de missão dos MSF na Grécia.

As equipas médicas da ONG já trataram, no último ano, centenas de migrantes na Grécia, incluindo grávidas e crianças. As denúncias de maus-tratos têm-se multiplicado e são vários os migrantes que descrevem que foram sujeitos ou testemunharam violência psicológica ou tratamentos desumanos e degradantes, incluindo espancamentos, exames genitais forçados e roubos e que foram ainda deixados à deriva em pequenas embarcações sem motor.  

"Quando chegamos às montanhas e nos empurram de volta, sentimo-nos como se estivéssemos a morrer", descreve Loretta (nome fictício). Segundo disse a testemunha às equipas médicas, foi intercetada pelas autoridades fronteiriças na ilha de Lesbos e forçada, já por duas vezes, a regressar à Turquia. 

"Trouxeram-nos para um grande porto. Havia muitos, muitos polícias. Tivemos de ir para dentro de um edifício. Começaram a esbofetear-me, aos homens, à senhora que estava grávida - a todos. Bateram-nos com um pau e com os pés. Desde então tenho problemas com a minha perna e com as costas também. Depois puseram-nos num grande barco", disse, citada pelos MSF. 

"Não só as interceções violentas e os regressos forçados são ilegais, como também põem em risco o direito das pessoas a requerer asilo", disse a coordenadora de campo dos MSF, Sonia Balleron.

"Estas práticas também expõem as pessoas a mais traumas e ao risco de problemas de saúde física e mental de longa duração. É de a responsabilidade das autoridades gregas e europeias assegurar que a lei é respeitada e que os procedimentos relativos ao acolhimento, identificação e proteção internacional são aplicados eficazmente", defendeu. 

A organização alerta, ainda assim, que não assistiu diretamente a estas situações, mas que os diversos relatos indicam que estas práticas são cada vez mais frequentes e mais violentas. As autoridades gregas negam estar a implementar uma política de deportação ilegal. 

Várias centenas de pessoas morrem todos os anos no Mar Egeu, no sudeste do Mediterrâneo, ao tentarem atravessar da Turquia para a Grécia, de onde pretendem seguir para o norte da Europa, de acordo com a ONU e organizações não-governamentais.

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