Iasonas Apostolopoulos, um "orgulhoso" traidor da Grécia

1 set, 19:45
Iasonas Apostolopoulos (Mediterranea)

Outrora elogiado por salvar refugiados, é agora acusado de “insultar a Grécia” e recebe ameaças de morte

“Se amar o país significa aceitar a morte de refugiados nas nossas fronteiras, então estou orgulhoso de ser um traidor.” Foi esta a reação de Iasonas Apostolopoulos às palavras do porta-voz do primeiro-ministro grego, que o acusou de insultar a Grécia.

Outrora visto como herói pelos seus esforços no salvamento de migrantes no Mar Mediterrâneo, a mudança de políticas do governo grego fê-lo cair em desgraça para a opinião pública. Apostolopoulos, engenheiro civil de formação, é um dos ativistas mais vocais contra os “pushbacks”, ou devolução ilegal de migrantes”, que consiste em reencaminhar refugiados para alto mar ou para as águas territoriais de outro Estado. A Grécia, bem como a Frontex agência para o controlo das fronteiras externas da União Europeia, têm sido acusadas desta prática.

"Se nos pronunciarmos contra os ‘pushbacks’, somos 'inimigos da Grécia' - esta é a narrativa", conta o ativista. Em 2021, Apostolopoulos deveria ter recebido uma medalha da presidente grega, Katerina Sakellaropoulou, pelo seu trabalho no salvamento de migrantes. Contudo, pouco antes da cerimónia, recebeu uma chamada do Ministério dos Negócios Estrangeiros da Grécia a avisá-lo de que a entrega da condecoração tinha sido cancelada, sem que tenham sido divulgados os motivos.

A sua participação em numerosas missões de busca e salvamento e a oposição às políticas governamentais para os refugiados valem-lhe também muitas críticas, inclusive ameaças de morte, nas redes sociais. Apesar disso, diz que não vai parar. “Os ‘pushbacks’ são concebidos para se manterem invisíveis. Penso que a única forma de parar este crime é dar-lhe visibilidade", afirma Apostolopoulos.

O ativista lamenta que os esforços da população, que culminaram com a nomeação dos ilhéus gregos para o Nobel da Paz em 2016, pareçam agora inúteis. “Era um orgulho nacional da Grécia, a ideia de 'philoxenia' - a palavra grega que significa 'amor ao estranho'”.

Apostolopoulos alerta que o fenómeno do ódio racial se pode alastrar para outros grupos da sociedade. “O racismo e a violência contra os fracos estão a envenenar todos os aspetos da nossa sociedade. Por enquanto, os refugiados são os que estão a ser mais visados na Europa, mas, mais cedo ou mais tarde, todo este ódio será alimentado contra outros que são menos privilegiados", vaticina.

Esta quinta-feira foi noticiado que um refugiado sírio vai processar a Frontex após ter sido abandonado em alto-mar pelas autoridades gregas, juntamente com outros 21 refugiados, num bote insuflável. “Deixaram-nos neste bote no meio do mar. O meu cérebro parou de funcionar. Não sabíamos o que fazer. Estávamos no meio do oceano, com água a rodear-nos. E as pessoas do grupo começaram a chorar.”

Os 22 refugiados passaram 17 horas no mar, sem comida e sem água. Com a corrente a empurrá-los de volta para a costa grega, as autoridades de Atenas enviaram motas de água para perto do bote, que procederam a fazer ziguezagues de modo a provocar ondulação para afastar o insuflável, que ficou inundado. O grupo acabou por ser resgatado pelas autoridades turcas.

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