Grávidas que tomam antidepressivos já não precisam de se preocupar. Estudo diz que medicação não prejudica desenvolvimento neurológico do filho

CNN , Sandee LaMotte
6 out, 09:00
Ecografia

As mães grávidas que tomam antidepressivos comuns já não precisam de se preocupar, uma vez que a medicação não prejudica o futuro desenvolvimento comportamental ou cognitivo do seu filho, de acordo com um novo estudo feito a mais de 145.000 mulheres e aos seus filhos, nos Estados Unidos, que foram acompanhados até aos 14 anos.

“Os resultados de estudos anteriores sobre este tópico têm sido contraditórios. Devido à nossa grande dimensão populacional e ao estudo cuidadosamente concebido, acreditamos que este oferece clareza que pode ajudar os pacientes e os prestadores de cuidados a tomar decisões de tratamento na gravidez”, disse a autora do estudo, Elizabeth Suarez, professora do Center for Pharmacoepidemiology and Treatment Sciences, no Rutgers Institute para saúde, política de cuidados de saúde e investigação sobre o envelhecimento.

O uso de antidepressivos durante a gravidez não foi associado a autismo, Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), perturbações comportamentais, perturbações no desenvolvimento da fala, linguagem, perturbações de aprendizagem e coordenação ou deficiências intelectuais, segundo o estudo publicado segunda-feira, na revista JAMA Internal Medicine.

“Acreditamos que estes resultados são reconfortantes, quando se trata de preocupações sobre os potenciais efeitos nos resultados do desenvolvimento neurológico nas crianças, especialmente para diagnósticos que podem ser de maior preocupação para os futuros pais como as perturbações do espectro do autismo”, disse Suarez.

“Este é um resultado verdadeiramente importante. As mulheres e os profissionais de saúde estão frequentemente preocupados com os antidepressivos durante a gravidez e, por vezes, decidem interromper subitamente estes medicamentos, assim que tomam conhecimento da mesma”, disse Carmine Pariante, professora de psiquiatria biológica no Institute of Psychiatry, Psychology and Neuroscience do King's College London.

Em vez disso, as mulheres com depressão e outras condições mentais para as quais são prescritos antidepressivos deveriam ser informadas que o risco na gravidez “não é tão elevado como se pensava anteriormente”, disse Pariante, que não esteve envolvida no estudo.

“Estou grata por este estudo”, disse a médica Tiffany Moore Simas, membro do Committee on Clinical Practice Guidelines on Obstetrics do Colégio Americano de Obstetras e Ginecologistas, à CNN.

“Uma em cada cinco pessoas no período perinatal tem uma condição relacionada com a saúde mental”, disse Moore Simas, que não esteve envolvida no estudo. “Temos de parar de as envergonhar por fazerem o que é necessário para cuidarem de si próprias. Os bebés saudáveis precisam de mães saudáveis.”

Um tema controverso

Vários estudos, ao longo das décadas, encontraram associações entre o uso de antidepressivos durante a gravidez e preocupações de desenvolvimento em crianças, predominantemente, autismo e PHDA. Mas investigações mais recentes puseram em causa a qualidade das anteriores. Muitos estudos mais antigos eram de natureza observacional e, frequentemente, não conseguiam controlar fatores contributivos como a obesidade e outras condições de saúde, toxinas ambientais, inflamação e até o stresse materno.

As investigações mais antigas também não consideraram o impacto num feto em desenvolvimento na barriga de uma mãe com depressão, ansiedade ou outra perturbação psiquiátrica não controlada. O não tratamento de uma perturbação mental da mãe também tem sido ligado a “nado-morto, parto prematuro, restrição do crescimento e problemas de peso à nascença, dificuldades de ligação, resultados adversos no desenvolvimento neurológico e aumento do risco da saúde mental dos filhos”, indicou Moore Simas.

As mulheres com depressão podem também faltar às consultas pré-natais, saltar refeições, consumir álcool ou cigarros em excesso e, de um modo geral, não cuidar do feto em crescimento, uma vez que não cuidam de si próprias, afirmam os especialistas.

De acordo com os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA, um número muito reduzido de antidepressivos tem sido ligado a um risco acrescido de defeitos congénitos, pelo que as mulheres grávidas devem discutir a sua medicação com os seus médicos.

“Não considerámos no nosso estudo outros resultados potencialmente adversos. Os nossos resultados para as perturbações de desenvolvimento neurológico devem ser ponderados com o risco de outras consequências, tais como um pequeno aumento potencial do risco de nascimento prematuro e os benefícios do tratamento”, disse Suarez.

Apesar de o avanço do conhecimento mostrar pouco ou nenhum impacto por parte dos antidepressivos mais comuns, muitos médicos e futuras mães ainda receiam a sua utilização, lamentou Moore Simas.

As consultas entre as grávidas e os seus médicos, relacionadas com o uso de antidepressivos, são frequentemente “enquadradas no contexto do risco dos medicamentos, apesar de os dados gerais serem animadores”, disse. “Conversas sobre o uso de medicamentos para a saúde mental durante a gravidez ou de qualquer outra forma deverá ter em conta o risco de doenças não tratadas.”

 

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