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Partos de joelhos no corredor ou à porta de casa à espera de hospital: grávidas e as urgências fechadas

CNN Portugal , MJC
24 abr 2025, 19:59

Ministra da Saúde reconhece que a situação não é ideal, mas deixa um reparo: mulheres devem sempre ligar para a linha SNS24

Na segunda-feira uma mulher deu à luz no corredor para o bloco de partos do Hospital do Barreiro. A mulher chegou ao hospital sem saber que as urgências de obstetrícia estavam fechadas para o exterior e, por isso, enquanto esperava pela abertura foi mesmo ajoelhada no chão que teve o bebé, recebendo-o com as suas próprias mãos.

Sobre esta situação, a ministra da Saúde, Ana Paula Martins, comentou que a mulher deveria ter contactado previamente a linha SNS24: "Se tem vindo referenciada ou se tem vindo através do INEM teria tido a porta aberta, porque todas essas urgências têm lá equipas a receber as senhoras", garantiu. Mas ressalvou: "De qualquer maneira, aquilo que eu queria como ministra da Saúde é que aquela porta da urgência da obstetrícia etivesse aberta para essa grávida".

No entanto, a verdade é que nem sempre o facto de ligar para o INEM é garantia de que tudo vai correr bem: esta quinta-feira, um bebé nasceu numa ambulância dos Bombeiros do Seixal, à porta de casa da grávida, enquanto eram aguardadas indicações sobre para que hospital se deveriam dirigir, dado que as urgências de obstetrícia do hospital de Almada estão fechadas.

Segundo as contas feitas pelo Expresso, este terá sido o 22.º bebé a nascer numa ambulância em 2025 - ou seja, em quatro meses já nasceram em ambulâncias quase tantos bebés quantos os nascidos nestas circunstâncias durante todo o ano de 2024: dados oficiais do Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM), citados pelo Expresso, indicam que no ano passado foram 25 as crianças nascidas em ambulâncias.

Estes números corroboram uma outra contabilização, feita pela Liga dos Bombeiros, de acordo com a qual no último ano cerca de 50 partos foram realizados em ambulâncias.

“O objetivo é que nasçam cada vez menos bebés em ambulâncias, sobretudo através de gravidezes bem vigiadas. Se há uma área onde nos distinguimos nos últimos 45 anos é na área maternoinfantil e por isso o que temos é de conseguir garantir que esses indicadores se mantenham”, disse a ministra esta quinta-feira. Questionada sobre os partos em ambulâncias noticiados nos últimos dias e os números que apontam para meia centena no ano passado, a ministra referiu que sempre nasceram bebés em ambulâncias e vão continuar a nascer em alguns momentos, porque não é possível evitar em algumas circunstâncias. “Mas naturalmente que não é de forma alguma o nosso objetivo”, declarou.

No fim de semana da Páscoa estiveram nove serviços de obstetrícia encerrados no país. Num desses dias, Miguel nasceu numa ambulância na A2, no Feijó: o bloco de partos do Garcia de Orta, em Almada, estava encerrado e, por esse motivo, a mãe foi encaminhada para o São Francisco Xavier, em Lisboa, só que não chegou a tempo. 

E já na terça-feira, em Alvalade do Sado, uma mulher deu à luz numa ambulância porque não teve tempo para chegar ao Hospital de Beja, localizado a 45 minutos minutos de distância.

“A ambulância não é o local normal para se realizar partos, estamos preparados, mas para situações excecionais”, dizia à CNN Portugal António Nunes, presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, adiantando que tem vindo “a chamar a atenção do Ministério da Saúde, do INEM, do SNS, através da direção-executiva, para a necessidade de não empurrar para os bombeiros um problema que é do SNS”. 

Para o representante dos bombeiros, o aumento do número de partos em ambulâncias a caminho dos hospitais é o resultado da falta de resposta do Serviço Nacional de Saúde e dos encerramentos de maternidades e urgências de obstetrícia que, em alguns casos, implica viagens de mais de 50 quilómetros para que a grávida consiga o devido atendimento médico. “Estamos a assistir a um SNS que não consegue dar resposta."

A Liga dos Bombeiros já deixou o alerta: "Não se trata de uma casualidade, começa a ocorrer com alguma frequência. Se ocorrer alguma situação grave dentro de uma ambulância, que vai ser responsabilizado é a equipa da ambulância e, em situações limite, o Ministério Público, se houver uma situação de crime, para investigar, vai investigar os nossos bombeiros."

O caos instalado nas urgências de obstetrícia levou a Inspeção-Geral da Atividades em Saúde (IGAS) a avançar nos próximos dias para uma auditoria. A ideia é, segundo avançou à CNN Portugal o inspetor-geral Carlos Caeiro Carapeto, apurar como é feita “a organização do trabalho no serviço de urgência de ginecologia e obstetrícia”, nomeadamente verificar se o mapa de férias dos profissionais de saúde aprovado teve em conta os problemas que podem ser causados nestas semanas com feriados junto aos fim-de-semana.  

Atenção: há três urgências encerradas este fim de semana

Esta sexta-feira, feriado de 25 de Abril, vão estar encerradas as urgências de Ginecologia e Obstetrícia do Hospital Garcia de Orta, em Almada, do Hospital Amadora-Sintra e do Hospital Nossa Senhora do Rosário, no Barreiro.

No sábado, está previsto o encerramento dos serviços de urgência destas especialidades nos hospitais de Almada, do Barreiro, Vila Franca de Xira e do Hospital Distrital de Santarém (Obstetrícia).

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