“Grande afluência de grávidas” e “pico de internamentos” num “momento de fragilidade” que é o verão. Santa Maria garante que a rede funciona, mas admite que os profissionais estão “em esforço”

30 ago, 11:00
Hospital de Santa Maria. Foto: Patrícia de Melo Moreira/AFP via Getty Images

Serviço de neonatologia do maior hospital do país não tinha vaga para o bebé da grávida de 34 anos que acabou por morrer durante a transferência. Médicos garantem que é uma situação que ocorre “com frequência”

Três médicos, uma enfermeira. Quatro responsáveis do Hospital de Santa Maria sentaram-se à frente dos jornalistas para relatar, em conferência de imprensa, o que aconteceu no caso da mulher grávida que acabou por morrer durante a transferência para o Hospital S. Francisco Xavier, que foi avançado pela TVI/CNN Portugal. Todos admitem que Santa Maria está com um número de grávidas acima do normal, ainda por cima num “momento de fragilidade” que é o verão. Mas também todos garantem que a obstetrícia e a neonatologia sempre se organizaram em rede, e que o sistema está a funcionar.

Num momento em que vários serviços de obstetrícia do país se encontram em dificuldades, a diretora do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, Luísa Pinto, admitiu que tem havido uma “grande afluência de grávidas de outros hospitais”.

Também o diretor clínico Luís Pinheiro acrescentou que este hospital está, neste momento, com “mais 40% de partos do que no período homólogo”, destacando a resposta que está a ser dada à custa da “particular dedicação e esforço” dos profissionais de Santa Maria nesta área.

Com este aumento da procura, o responsável admitiu uma “maior probabilidade de ocupação das vagas”: “Tudo está mais elevado do que em períodos homólogos. Mas isso não significa que não haja uma resposta integrada”.

"Pico de internamentos" deixou a neonatologia de Santa Maria sem vagas

André Graça, diretor do serviço de neonatologia do Hospital de Santa Maria, justificou que há "picos de internamentos semanais, ou de 15 em 15 dias" que "nos impedem de dar respostas em permanência a todas as situações".

"Quase diariamente, temos de fazer esta gestão, perceber onde há vaga para a mãe e bebé", explicou o médico, frisando que a recomendação mundial é que os bebés não nasçam num sítio e sejam transferidos para outro. "Não havendo vagas, há riscos significativos para a transferência de um bebé prematuro. Só se faz em último caso", afirmou, aos jornalistas.

Sublinhando sempre que, no caso desta grávida, não foi possível "dar resposta por falta vagas", o diretor deste serviço garante que a equipa encontrou o melhor lugar disponível para esta mulher, que no caso seria o Hospital S. Francisco Xavier. André Graça disse que estas situações ocorrem com "frequência".

"Também somos frequentemente recetores de situações de alto risco de outras instituições. Felizmente  temos capacidade de tratar todas as situações clínicas desta área, mas os recursos não são ilimitados e por vezes há picos e não há possibilidade. Não podemos tratar doentes em segurança sem vagas, seria imprudente", concluiu.

"Não podemos multiplicar as vagas"

O diretor do serviço de neonatologia explica que há "rácios de equipa de enfermagem" para garantir "o tratamento em segurança" e "é isso que define o número de vagas" neste serviço.

A neonatologia de Santa Maria "tem permanentemente uma taxa de ocupação alta", justifica.

"Não é uma questão do maior hospital nao ter meios. Em determinados momentos de pico, não podemos multiplicar as vagas", acrescenta, sublinhando o funcionamento em rede destes serviços: "E a rede tem respondido. As vagas na rede são suficientes".

"Não podemos pensar num hospital isoladamente", frisa, destacando "a capacidade de resposta regional suficiente".

Médicos admitem "momento de fragilidade" no verão

A diretora do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, Luísa Pinto, admitiu que este episódio da grávida que morreu aconteceu num "momento de fragilidade" e "difícil" para este serviço, que é "o verão". No entanto, sublinhou que a equipa de obstetrícia estava "completa" nesse dia.

"Isto nada a teve a ver com a contingência da obstetrícia, mas, de facto, isso ocorre com frequência", admitiu.

A responsável justificou a decisão de transferência da grávida de 34 anos, que viria a morrer, com a "estabilidade" da mulher e o "benefício" para o bebé.

Segundo Luísa Pinto, tratava-se de uma grávida de 34 anos, na primeira gravidez, com 31 semanas. A mulher tinha chegado do estrangeiro "uns dias antes" e a equipa que a recebeu em Santa Maria não teve acesso a informação clínica relativa à gravidez.

A grávida entrou no serviço de urgência na madrugada de 23 agosto, "com sensação de falta ar e taquicardia", além da "tensão arterial muito elevada", pelo que foi "imediatamente internada".

"Foram tomadas todas as medidas para o diagnóstico de pré-eclampsia, ela ficou estabilizada, mantivemos a vigilância e a ecografia mostrou um feto com restrição de crescimento", acrescentou Luísa Pinto.

Umas horas depois, e "dada a estabillidade clínica" da mulher e estar "cientificamente provado" que "é preferível" que o bebé nasça no local onde vai ficar do que ser transferido, o chefe de equipa tomou a decisão de transferência, tendo em conta o "benefício" do recém-nascido.

"Isto não é uma situação rara, é algo frequente, nós funcionamos em rede de cuidados neonatais para nos apoiarmos uns aos outros", acrescentou.

A grávida teve "um médico e duas enfermeiras" a acompanhá-la na transferência, mas aconteceu "algo que não era de todo expectável", que foi a paragem cardiorrespiratória. A mulher chegou ao hospital em paragem e foi feita uma cesariana urgente, estando o bebé ainda a receber cuidados.

"Estas transferências acontecem em todos os hospitais", concluiu.

"A grávida veio cá e quem vem cá é atendido"

Após a demissão da ministra da Saúde, Luís Pinheiro, diretor clínico do Hospital de Santa Maria, revoltou-se contra a "lacuna informativa no tratamento mediático" dado às questões da Saúde, recordando aos jornalistas que estes profissionais "prestam cuidados de saúde" e "não entram na discussão mediatico-política".

O responsável estava a ser questionado sobre a eventual falta de condições desta unidade hospitalar para receber a mulher de 34 anos que viria a morrer na transferência para o Hospital S. Francisco Xavier.

"A grávida veio cá, e quem vem cá é atendido. Foi aceite porque estamos abertos. E foi avaliada, estabilizada, tratada e, desde o primeiro momento, foi identificada a necessidade de transferência" para o internamento do bebé, "quando ela tivesse condições clínicas", completou.

A diretora do Serviço de Obstetrícia do Hospital de Santa Maria, Luísa Pinto, acrescentou que. se a grávida não tivesse sido transferida, "provavelmente as coisas aconteceriam da mesma forma". No entanto, a médica admite que "fazer reanimação numa ambulância é diferente de num hospital".

"Vamos agora procurar uma explicação, se é que a vamos encontrar", continuou.

"É muito importante para nós. Sempre que há uma morte, temos todo o cuidado em analisar a situação para, se houver necessidade, melhorar os nossos cuidados", afirmou, garantindo que pediu "relatórios detalhados" aos serviços envolvidos.

Segundo Luísa Pinto, a falta de historial clínico da mulher pode ter levado a que "algo nos tivesse escapado".

Luís Pinheiro, diretor clínico do Hospital de Santa Maria, tinha começado a conferência de imprensa com uma "nota de pesar" pelo que aconteceu com a grávida. O mesmo responsável destacou o "esforço imenso" por parte de todos os profissionais de saúde, que, considera, permitem ao Santa Maria dar uma "resposta diária sem encerramentos", "respondendo às necessidades imediatas" da população.

Relacionados

Saúde

Mais Saúde

Patrocinados