Com Passos Coelho, o PSD "negligenciou a dimensão performativa". Com Montenegro, o PSD percebeu "que vale mais a aparência do que o conteúdo"

8 mar 2025, 08:00
Luís Montenegro
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“O país não precisava de eleições; precisa de terapia.” Mas está mais próximo de ir a votos do que de ir ao psicólogo (até porque ir psicólogo é bem mais caro em Portugal). Enquanto isso: estamos em crise política. Mas como é que se gere uma crise política - nos bastidores e nos holofotes? Gere-se da maneira que vai ler aqui - que começa com um “erro evitável, caricato e caricatural” de um ministro fotografado com um segredo na mão

Foi um lapso. No parlamento, enquanto se discutia a moção de censura do PCP, o ministro da Presidência, Leitão Amaro, fez-nos saber qual seria - numa da fotografia da Lusa que abre este artigo - o plano anticrise (ou “planos da pólvora”) do Governo. O Executivo confirmou que era mesmo um plano, “verídico”, mas nada do que escreveu o ministro “vai ter seguimento”. Veremos. 

Daquelas anotações retirava-se que o Governo responderá prontamente às perguntas dos partidos - contrariando os silêncios e omissões tão criticados e a declaração de “tenho mais que fazer” do primeiro-ministro - e fica-se a saber que o Executivo vai reunir-se não uma mas duas vezes em Conselho de Ministros para se alinharem as medidas, o trabalho a apresentar ao país. 

Mas retira-se também isto: os ministros nas televisões vão falar às TV (como já fizeram aquando da comunicação de Montenegro sem perguntas de jornalistas) e o próprio primeiro-ministro vai às “televisões”, plural. “Não há nada de surpreendente no facto de existir um plano de gestão de crise - qualquer Governo ou organização com uma comunicação profissionalizada prepara roteiros para lidar com momentos difíceis”, diz José Pedro Mozos, especialista em comunicação política e que trabalhou no Governo de António Costa. 

“E o roteiro que está ali definido é comum neste tipo de situações: combina momentos de comunicação com momentos de atividade política - como os Conselhos de Ministros. Não há uma boa estratégia de comunicação política sem ação política que a sustente”, sublinha José Pedro Mozos, que vê algo de “surpreendente” no draft de Leitão Amaro: “É o próprio erro de exposição do documento, que acaba por ser um erro evitável, caricato e caricatural”. 

A exposição revela “a perceção de que o Governo estava em modo reativo”, a estruturar uma defesa sem antecipação. “Até porque está escrito à mão, o que reforça a ideia de que foi fechado momentos antes, provavelmente numa reunião do núcleo duro do Governo tida na manhã do debate.”

Entretanto, Leitão Amaro fez humor consigo próprio e publicou esta imagem no X, esta sexta-feira: "O meu Plano de comunicação para hoje (conferência imprensa do Conselho de Ministros). Versão oficial 😅"

No documento que Leitão Amaro revelou inadvertidamente no Parlamento, José Pedro Mozos encontra as pistas do que o Executivo “considera essencial”. “Coordenar ministros na televisão, gerir os ataques da oposição e criar uma narrativa com medidas do Conselho de Ministros. E isto, apesar de ser normal, pode ser estranho para o público geral. Mas do ponto de vista da comunicação é um esqueleto típico de uma estratégia de damage control”. Nenhuma novidade, portanto. 

Mas mesmo sem novidades há problemas. “O problema de o guião ser público, além da exposição em si, é o facto de se poder avaliar o seu cumprimento ou as suas falhas. E o episódio ajuda a reforçar a ideia de um Governo pressionado, com pouca margem de manobra e a tentar controlar danos e impactos reputacionais numa crise que lhe escapou das mãos”, considera José Pedro Mozos. 

Octávio Lousada Oliveira, também especialista em comunicação e que passou pela comunicação da Iniciativa Liberal, recusa-se a acreditar “que aquele esquisso, aquele rascunho, seja mesmo o plano propriamente dito”. “Acho que são os tópicos retirados de alguma reunião, ou até de alguma conversa, em que o ministro Leitão Amaro ou alguém esteve momentos antes do debate da moção. Mas, seja como for, aquilo não revela propriamente grande substância ou grande imaginação. Não inaugura uma forma de fazer política ou capaz de controlar danos políticos.”

Mas há ali relevância - e prende-se com o domínio da narrativa na opinião pública. Como? “Inundando os espaços todos possíveis e imaginários de ministros, com dirigentes PSD - e até com o próprio primeiro-ministro. Mas isso é o clássico dos clássicos, nada de novo, é política sobretudo baseada em performance, em mediatismo - que teve em José Sócrates um grande intérprete e que, por influência das agências de comunicação do regime, foi decalcada, em diferentes matizes, por outros protagonistas que conhecemos”, refere Octávio Lousada Oliveira. 

No passado, “sobretudo com Passos Coelho”, o PSD pode ter “negligenciado a dimensão performativa”, considera Octávio Lousada Oliveira. Mas isso foi no passado. “E agora, com Montenegro, percebeu que não podia não jogar à luz de regras que existem, da política-espetáculo, em que vale mais a aparência do que o conteúdo, vale mais a percepção - utilizando uma palavra em voga - e vale mais inculcar nas pessoas uma determinada ideia.”

Umas das principais falhas apontadas à comunicação do primeiro-ministro na polémica da Spinumviva foi responder tardiamente, ou não responder de todo, às questões dos partidos e da comunicação social. Houve uma gestão de omissões e de silêncios. E isso é da comunicação política. É cartilha de comunicação, a fim de ganhar tempo ou adormecer assuntos. 

Mas resultou, resultou agora? “O silêncio pode ser uma ferramenta estratégica na comunicação política, sim. Mas neste caso não serviu para ganhar tempo, perceber o estado de espírito da opinião pública ou deixar que os tema se esgotasse sozinho. Não foi o caso aqui. Aqui, a falta de resposta criou um vácuo que foi preenchido por especulação e por uma escalada da crise - e por dúvidas que, até hoje, não estão esclarecidas”, interpreta José Pedro Mozos. 

Montenegro falaria tardiamente. E, ao falar ao país, “escolheu o formato errado”: uma declaração sem direito a perguntas dos jornalistas. “Em crises de perceção pública, a transparência e o confronto direto são fundamentais. O não permitir perguntas deu a ideia de que o primeiro-ministro estava a fugir ao escrutínio. As crises resolvem-se com comunicação, não com omissão”, defende José Pedro Mozos. 

O primeiro-ministro, a fazer fé no draft de Leitão Amaro, vai agora ser entrevistado nas televisões, responder a perguntas. “A ida às televisões é um passo necessário mas surge tarde. Nessa altura a narrativa já está consolidada e é difícil de desmontar. A entrevista pode ajudar a reforçar a base de apoio e a clarificar pontos, mas dificilmente muda a perceção global sobre o caso”, afirma José Pedro Mozos. 

Para Octávio Lousada Oliveira, “o primeiro-ministro não explicou mais porque não podia explicar mais”. A oposição pretendia, e ainda pretende hoje, que Montenegro clarifique as polémicas da Spinumviva, “mas ele não pode clarificar”. Porquê? “Porque, não entrando no domínio da legalidade, houve pelo menos um descuido, um descuido grave. E o primeiro-ministro não o vai querer assumir. E é por isso que se remeteu ao silêncio.” O silêncio é somente “uma consequência dessa impossibilidade objetiva do primeiro-ministro de assumir logo culpas”.

Se o tivesse feito logo, se tivesse assumido as culpas, Montenegro não estaria em risco de queda. “Se pensarmos bem, há duas semanas Montenegro podia ter esclarecido as notícias, as primeiras, que até seriam mais ‘laterais’, com base em suposições de aproveitamento numa lei dos solos - e arrumava o assunto. Quando não existia um problema, o primeiro-ministro não foi capaz de falar. Agora estamos noutra fase, a crise está aí, instalada”, diz Octávio Lousada Oliveira. 

Montenegro fala e vai falar mais agora, até porque está a tentar “convencer o maior número de pessoas com aquela que é a sua verdade - para citarmos clássicos”. Como se faz isso exatamente? “A dramatizar ao máximo o discurso, dizendo-nos que foi impedido de governar e que, por essa razão, o país - não ele ou a sua equipa - precisa de ‘clarificação’. Sejamos claros: o país não está a precisar de clarificação nenhuma. A clarificação é necessária por parte de quem está agora sob escrutínio, que é ele, o primeiro-ministro. Não basta só imputar à oposição a responsabilidade e, ao fim de um ano, forçar uma eventual queda do Governo e ir a eleições antecipadas”, critica Octávio Lousada Oliveira. 

Quando a crise atingiu o pico, o primeiro-ministro falou ao país num sábado à hora do jantar: desculpabilizou-se e culpabilizou a oposição, anunciou que ia passar a empresa aos filhos e fez isto com ministros a ladeá-lo. Ministros que pouco depois já estavam nas televisões a repetir o discurso e a defender Luís Montenegro. “A aparição coordenada de ministros nos vários canais de televisão pode, na teoria, ser uma estratégia clássica de gestão de crise: criar um bloco de defesa forte, repetir mensagens-chave e tentar mostrar coesão interna, utilizando mais de um porta-voz. Mas a eficácia desse alinhamento depende sempre do contexto.” E o contexto, no entender de José Pedro Mozos, não pedia uma defesa ministerial. 

Até porque o problema é pessoal. “Aqui, o que se passou foi que os ministros apareceram a defender um caso que era pessoal do primeiro-ministro e não uma questão governamental propriamente dita, que dizia respeito ao Governo. Isso passa a imagem de um Governo dependente do seu líder e, mais do que reforçar a coesão, acaba por alargar a crise a todo o Executivo.” Além disso, “a tentativa de vitimização” - ao culpar a oposição pela crise - tem um risco evidente: “Pode mobilizar a base mais fiel mas aliena o eleitorado indeciso, que espera respostas concretas e não apenas contra-ataques políticos”. 

Para Octávio Lousada Oliveira, o que se passou na comunicação ao país e na ida de ministros às televisão é somente um “jogo de sombras”. “É a política marcada pelas agências, ditada pelas agências, pelos focus group, a política das encenações, das narrativas. Francamente, política manifestamente pouco interessante. Mas também é sintomático dos tempos.” Para este especialista em comunicação política, os “truques” usados são cada vez mais ineficazes. 

“São truques tão perceptíveis, tão coreografados, tão guionados - em que ninguém se pode afastar do que está escrito - que se vão tornando ineficazes. Mas conseguem uma coisa: relegar para segundo plano o problema que há de base. E o problema é a incapacidade de os políticos de reconhecerem erros - neste caso, graves -, de assumirem responsabilidades.”

Octávio Lousada Oliveira estabelece um paralelismo entre Montenegro e o antecessor, António Costa: "Não estamos no plano da legalidade, estamos no plano da moralidade. Até aqui, a AD tinha muita dificuldade em diferenciar-se das políticas de António Costa. Agora ficou sem discurso, sem autoridade em relação ao código moral de António Costa. Também aí não foi capaz de se distinguir".

Mas voltemos ao sábado dos ministros na TV e a tudo o que se seguiu a seguir. “É evidente que existe, não sejamos ingénuos, concertação na comunicação - e há nos diferentes níveis, do topo ao Parlamento, das direções distritais às regionais. Mal seria que todos não estivessem alinhados com a sua direção”, afirma Octávio Lousada Oliveira. “Mas é preocupante que estejamos a chegar a tempos em que se eliminou por completo o grau de liberdade, entregámos a política a políticos que não sabem viver fora do guião. Falta pensamento crítico, ou pelo menos a capacidade de se expressar. Isso empobrece a discussão. Há excessiva estratégia - ou tática.”

As estratégias de infantilização dos eleitores já viveram dias melhores”

O Governo desafiou a oposição a apresentar uma moção de censura. E o PCP apresentou-a rapidamente - dizendo os críticos que só “mordeu o isco". Até porque logo depois o Governo assumiu que havendo uma moção de censura (mesmo que com chumbo mais do que garantido) não apresentaria moção de confiança nenhuma. Mas apresentou uma - sobretudo em reação à comissão parlamentar de inquérito logo anunciada pelo PS. 

Falávamos da estratégica de comunicação do Executivo, mas também na oposição houve estratégia - tem de haver, mal seria dela. Quem venceu afinal? “A nível de comunicação política, a oposição venceu esta batalha porque acabou por levar o Governo a recuar. Foi a oposição quem marcou o ritmo da crise e o Governo foi reagindo. Quando isso acontece, já não é o Governo que lidera o debate mas sim a oposição. Estes ziguezagues todos só enfraqueceram a narrativa governamental”, considera José Pedro Mozos. 

Octávio Lousada Oliveira não quer para já “fazer futurologia”. "Em maio é que saberemos quem vence este combate das narrativas.” No entanto, “filtrando esta parta toda ‘cénica’”, o que viu “de todas as partes” foi apenas um “espetáculo muito pouco edificante”. “Nada justificava aquela fúria juvenil do Chega na primeira moção de censura. Nada justificava as reações descabeladas do primeiro-ministro quando se viu encurralado pelas notícias da comunicação social. Nada justificava a moção do PCP também, que continua na rampa deslizante para a irrelevância - e que deve ter julgado que com eleições as pessoas se esqueciam do putunismo empedernido dos comunistas. E o PS, ao estilo de Pedro Nuno Santos, só andou em solavancos, até que apresentou uma comissão [de inquérito] que, sendo apenas tática, é reflexo de desnorte.” 

Mas Octávio Lousada Oliveira vê igualmente na comissão de inquérito uma futurologia. De Pedro Nuno Santos. “De que vale ao parlamento uma comissão de inquérito se o Governo cair mesmo e o PS até vencer as eleições? O primeiro-ministro não será já Montenegro. Não tem qualquer sentido. A menos que Pedro Nuno acredite que Montenegro vence - e a narrativa continua. Portanto, não sei qual será a narrativa mais eficaz mas sei que teremos novamente legislativas, as terceiras no espaço de quatro anos, e continuamos entregues a esta forma de fazer política.”

José Pedro Mozos e Octávio Lousada Oliveira acreditam que este Executivo vai cair, até pelo que será a votação do PS e do Chega na moção de confiança - rejeição - e também até pelo que Marcelo Rebelo de Sousa já antecipou de possíveis datas para novas eleições - 11 ou  18 de maio. Portanto, entraremos rapidamente em campanha pré-eleitoral. 

“A mensagem do Governo está bem definida: pedir estabilidade, mostrar obra feita e pedir um ‘voto de confiança’”, assegura José Pedro Mozos. E antecipa já problemas. Não um mas dois: “Primeiro, é cedo. Apesar de vivermos numa era de ‘campanha permanente’, as eleições ainda não foram convocadas e os eleitores não estão em modo eleitoral. Segundo, a argumentação do Governo assenta nos seus feitos mas em áreas onde a sensação de problemas não foi totalmente resolvida - apesar de haver medidas a que se pode agarrar, como a saúde, educação e segurança. O risco é que este discurso pareça ainda deslocado da realidade dos cidadãos. O Governo precisa de encontrar uma nova linha de argumentação que mobilize eleitores e não apenas a sua base tradicional”.

Octávio Lousada Oliveira diz que vir pedir maiorias absolutas, “para governar sem empecilhos e colocar em prática o programa de governo”, é mais do que expectável. “Só que as maiorias absolutas nos últimos anos ganharam uma conotação negativa, verificaram-se vícios em maiorias de Cavaco, de Sócrates, até mesmo de Costa.” Momento para interrogação: “Mas só se sabe governar em maioria?”. 

Octávio Lousada Oliveira: “Isso revela uma grande falta de maturidade democrática - dos partidos e das instituições. Vivemos dias de profunda agonia se assim é. E o eleitorado procura líderes, ou o regresso dos líderes, que têm outra forma de estar na política e de fazer política. Por isso se fala em Passos Coelho. Por isso se fala no Almirante. O eleitorado está cansado. E o PSD não deveria tratar desta maneira o eleitorado, mas compreendo porque está escaldado por ter estado quase nove remetido à oposição. No fundo, Montenegro constatou que a forma como António Costa tratava os portugueses era eleitoralmente vantajosa.”. 

Tal como José Pedro Mozos, Octávio Lousada Oliveira não tem dúvidas de que o Governo vai vangloriar-se da obra feita. Motivo: “A compra de determinadas fatias da população ou de corporações para lá do que seria financeiramente prudente e socialmente recomendável foi o canhão eleitoral de vários governos - deste e de outros”. E isso nem sempre colhe bem, considera o especialista: é que as corporações também ganharam, algumas, "anticorpos na opinião pública". "Porque quando se compram classes profissionais, quando a política se vicia nisso, o eleitorado também pode dizer que mais é demais. As estratégias de infantilização dos eleitores já viveram dias melhores”.

E os dias de março e de abril e de maio não trazem boas-novas - se Marcelo convocar mesmo eleições, Octávio Lousada Oliveira lamenta que seja isto que vá acontecer: “Montenegro surgirá inflamado, a vitimizar-se. O PSD a enumerar o que já fez, o que conseguiu resolver dos assuntos pendentes de Costa e Pedro Nuno. Pedro Nuno Santos está naquele esconso lugar em que finge que não foi um ministro sofrível de um Governo imobilista, cujo grande feito foi a assunção de que as contas públicas devem estar certas saudáveis - e caminhará sobre o gelo fino de nos tentar fazer crer que é, que ainda é, o enfant terrible da Juventude Socialista. E Ventura, Ventura gritará durante dois meses que Montenegro e Pedro Nuno são iguais. Os três vão, no fim de contas, semear a ideia de que fazem alguma ideia do que é que querem para o país. O país não precisava de eleições; precisa de terapia”.
 

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