CNN INTERNATIONAL SUMMIT | Paulo Rangel, ministro dos Negócios Estrangeiros, foi confrontado com as sete escutas a António Costa que, por "razões técnicas diversas", não foram comunicadas ao Supremo Tribunal de Justiça - é a própria PGR que o admite. Já sobre a greve geral, Paulo Rangel, que abriu a CNN International Summit, entende o comportamento da CGTP mas nem tanto o da UGT. Sobre a imigração: "Não é uma bandeira do Chega, é um problema de Portugal". Quanto à Europa: "A Europa não é um anão, é como eu, tem para aí 1 metro e 66". Já a Ucrânia tem pela frente um problema gigante e com contornos "inadmissíveis"
O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, tem estado em comunicação com os seus homólogos europeus e juntos têm debatido a proposta de acordo de paz para a Ucrânia. “Existem alguns princípios que são positivos e que a Ucrânia está disposta a explorar e outros que são inadmissíveis", revela. "Existe margem para trabalhar. Agora é a vez da Ucrânia se pronunciar sobre isso." E recorda que a posição de Portugal e da União Europeia é que, para qualquer proposta resultar, a Ucrânia terá de ser ouvida.
"Nós, na Europa, estamos totalmente solidários com a Ucrânia e os Estados Unidos sabem isso. Vemos a guerra não como um problema da Ucrânia mas da Europa, da União Europeia, da Nato", afirmou Paulo Rangel na abertura da CNN Portugal International Summit, esta sexta-feira em Alcobaça.
Entrevistado pelo diretor-executivo da CNN Portugal Pedro Santos Guerreiro, o governante defendeu a União Europeia, cujo papel no processo de paz na Ucrânia tem sido alvo de muitas críticas. "A União Europeia é um feito notável. Mas a construção a 27 é complexa", afirma o ministro dos Negócios Estrangeiros. "Neste momento, estamos a discutir verdadeiramente a questão da defesa na Europa. É um passo gigante", aponta.
"Há várias coisas que estão mal Europa. Mas não podemos esperar que 27 estados independentes que têm um passado de guerras civis, desde o tempo dos romanos, tenham o grau de coesão que tem uma confederação como os Estados Unidos. O que se conseguiu já é um milagre", diz Rangel.
“A Europa não é um anão, deve estar como eu, com 1,66 metros. Não é assim tão mau", conclui, em tom humorístico.
Paulo Rangel elogia também a diplomacia portuguesa. “O lugar de Portugal no mundo é muito superior àquela que é a sua dimensão económica. Temos um sobre-peso e ainda bem. É um país altamente cotado junto de toda a comunidade internacional”, diz o ministro, lembrando os inúmeros cargos europeus ocupados portugueses – na Comissão Europeia e no Conselho Europeu, por exemplo.
Compreende a CGTP, a UGT nem tanto
Um português de 30 anos o que pode esperar quando tiver 40? Foi com esta pergunta que Pedro Santos Guerreiro, diretor-executivo da CNN Portugal, iniciou a conversa com Paulo Rangel. O governante responde que para garantir o futuro é preciso resolver os problemas do presente. “Se não se resolver alguns problemas emergentes – sistema de saúde, professores, política de atratividade da administração pública, etc. – não preparamos o futuro”, diz Paulo Rangel. “Aquilo que os mais jovens podem esperar é um país que possa crescer mais. Isto é que nós pretendemos”, afirma o governante.
Estamos a trabalhar para reformar Portugal”, diz Rangel. E enuncia as quatro reformas que são essenciais neste momento: reforma fiscal, laboral do Estado e da justiça.
“A reforma laboral está a dar tanto barulho, não sei porquê. Sem esta reforma não podemos oferecer um futuro aos jovens”, afirma, sublinhando que é preciso antecipar os problemas relacionados com a digitalização e a Inteligência Artificial, por exemplo, que não são futuro porque já são presente.
Questionado sobre a greve geral, marcada para 11 de dezembro, o governante mostra a sua insatisfação. “É extraordinário que se marque uma greve geral nestas circunstâncias”, diz Paulo Rangel, sublinhando que o pacote laboral ainda está a ser discutido. “Parece-me algo gravíssimo e não beneficia nada a imagem das centrais sindicais”, refere. “Fazer uma greve geral no meio das negociações está completamente fora da ideia de moderação e responsabilidade e da UGT", critica - e por isso diz que compreende o posicionamento da CGTP "mas não o da UGT". De qualquer maneira: "Não temos medo da greve geral. Respeitamos as greves, é um direito dos trabalhadores. Mas achamos que estão a fazer mal".
A reforma laboral, diz Rangel, é absolutamente necessária: “Ou fazemos a reforma ou estamos presos a um país do século XX e o país não cresce e os trabalhadores, por mais que tenham direitos na lei, não vão ter mais condições”.
Paulo Rangel afirma que o governo tem como um dos seus objetivos principais reformar a administração pública, tornando-a mais eficiente – ou seja, gastando menos e produzindo mais.
"Este governo quer reformar o país e o horizonte que quer dar às novas gerações e a todas as outras é o de um país que possa crescer e que cresça mais do que os 2%, que no contexto europeu já é um efeito, mas para nós não é suficiente. Nós almejamos mais", diz o ministro.
"Escutas de primeiros-ministro sem autorização judicial não pode haver"
A propósito da reforma da justiça, Rangel foi questionado sobre o processo que levou à queda do governo de António Costa. A Procuradoria-Geral da República (PGR) reconheceu esta sexta-feira que foram identificadas sete escutas em que o ex-primeiro-ministro era interveniente e que não foram comunicadas ao Supremo Tribunal de Justiça "por razões técnicas diversas".
Em comunicado publicado esta sexta-feira, a PGR explica que, recentemente, “no decurso de nova análise a todas as escutas realizadas” no âmbito da Operação Influencer, foram identificadas sete escutas, “em que também era interveniente o primeiro-ministro António Costa, facto que, por razões técnicas diversas, não havia sido detetado inicialmente”.
Sobre isto, Rangel reage assim: “Autorizar a escuta de um primeiro-ministro [António Costa] é sempre de uma delicadeza constitucional delicadíssima. Escutas de primeiros-ministro sem autorização judicial não pode haver", diz. "Se este caso é uma prova da degradação da justiça? Não vou comentar. Mas a reforma da justiça tem de mexer, juntamente com a reforma laboral, com a reforma do Estado", refere o ministro de Estado e dos Negócios Estrangeiros.
“A imigração não é uma bandeira do Chega, é um problema de Portugal”
Paulo Rangel refere a imigração “desregulada” como um dos principais problemas que é preciso resolver. “A imigração não é uma bandeira do Chega, não é de esquerda nem de direita, é um problema de Portugal e tem de ser resolvido."
“Nós precisamos de mão de obra, precisamos de trabalhadores que venham do estrangeiro, mas adequados ao mercado de trabalho.”
Se não houver nenhuma catástrofe de grandes proporções, não se prevê um surto migratório em breve, antevê Paulo Rangel, sublinhando que a nível europeu os países estão cada vez mais alinhados quanto às políticas migratórias. Além disso, afirma, há cada vez mais acordos com países terceiros e na área do regresso também está a ver uma evolução legislativa muito importante.

