O Executivo liderado por Luís Montenegro decidiu pedir ajuda europeia ao fim de 23 dias de intensos incêndios no país, algo que gerou bastante contestação - mas também gera concordância
“A ajuda chegou tarde e em más horas”, começa por dizer à CNN Portugal o comandante Jorge Mendes. “A partir do momento em que vimos meios pesados a ficarem inoperacionais e frentes com potencial para originar um megaincêndio, como acabou por acontecer no Piódão, devíamos ter pedido ajuda.”
Após 23 dias de consecutivos incêndios, sobretudo na zona norte e centro do país, o Executivo de Montenegro optou por acionar o Mecanismo de Proteção Civil da União Europeia. Segundo uma nota do Governo, a medida foi justificada “devido às condições meteorológicas de grande adversidade, com incêndios ativos de extrema complexidade, a que se acrescem os ventos fortes registados durante a noite e que impediram o rescaldo que se esperava”.
Uma decisão que, para Paulo Santos, comandante dos bombeiros, surgiu “tecnicamente no momento mais certo”, pois “para se pedir ajuda é necessário que se esteja numa situação de catástrofe, algo que não se verificava”. “Não podemos pedir ajuda sem estarem reunidas determinadas condições como a falta de meios, condições meteorológicas desfavoráveis ou um determinado número de área ardida”, explica. “A ajuda foi pedida no momento tecnicamente mais certo, mas politicamente não”, afirma numa clara alusão à discórdia que gerou o adiamento do pedido.
O mesmo comandante acredita que a dimensão da catástrofe e a disponibilidade internacional tiveram um peso importante no timing do pedido de ajuda à Europa. “Quando se começou a equacionar, os parceiros europeus estavam a contas com incêndios ainda piores. Só a Suécia e, mais tarde, França tinham meios disponíveis.”
Além disso, mesmo quando os meios chegaram, houve limitações, afirma Paulo Santos. "Portugal pediu Canadair, mas recebeu Fire Boss de Estocolmo, que só conseguiram operar durante uma ou duas horas por dia. Este envio pode ter sido uma resposta ao nosso país, que no passado enviou para a Suécia o mesmo tipo de meios."
Para Jorge Mendes, “foi preciso haver uma grande pressão de determinados organismos públicos, como a Liga dos Bombeiros ou dos próprios autarcas, para se pedir ajuda internacional”. E acrescenta: “Foi Marcelo Rebelo de Sousa que deu um empurrão final ao Governo quando avisou que a sexta-feira 15 de agosto ia ser um dia difícil”. Mas sublinha: “Conseguimos com nove dias de antecedência perceber quais são os pontos complicados e suscetíveis para possíveis incêndios. Dava muito tempo para o Governo agir de forma antecipada”.
Questionado sobre se reconhecia que o mecanismo europeu foi acionado tardiamente, o primeiro-ministro rejeitou a 18 de agosto que o tivesse feito e argumentou que há regras a cumprir. “A ativação tem regras de funcionamento, é um mecanismo de solidariedade. Fomos acompanhando, do ponto de vista operacional, as indicações que foram dadas de conciliação entre dispositivo de meios aéreos que temos e necessidade de poder reforçar. Faremos depois, no final, a avaliação sobre se o timing foi o correto ou não. O critério [para acionar a ajuda] não pode ser o critério do primeiro-ministro, nem o palpite de nenhum político, com todo o respeito.”
O primeiro-ministro sublinhou que foram seguidos “os critérios técnicos e operacionais”. “Verificaremos no final se isso teve o enquadramento devido. A minha expectativa é que sim, mas nós seremos escrutinados, como é normal numa democracia”, afirmou Montenegro. “Responderei perante o país, responderei perante a Assembleia da República, e podem ter a certeza: fá-lo-ei com honestidade e com sentido de responsabilidade.”
Até ao momento, a Suécia enviou dois aviões Fire Boss para reforçar o dispositivo de combate aos incêndios em Portugal, enquanto Marrocos prolongou a cedência de duas aeronaves Canadair. Também a Grécia enviou dois aviões Canadair, no âmbito do Mecanismo Europeu de Proteção Civil.
As chamas em Portugal já provocaram três vítimas mortais, incluindo um antigo autarca, que perdeu a vida ao tentar travar em Penamacor.
Espanha 25-0 Portugal em Canadairs
O debate em torno da alegada demora do Governo em pedir ajuda cruza-se com a falta de meios aéreos de Portugal: 0. Os dados tornam-se ainda mais alarmantes tendo em conta que Portugal é o país com mais área ardida nos últimos 30 anos, ao mesmo tempo que continua a ser o único país do Mediterrâneo sem uma frota de aviões Canadair.
Só em julho de 2024 foi assinado, pelo ministro da defesa Nuno Melo e pela então ministra da Administração Interna Margarida Blasco, um contrato para a aquisição de dois bombardeiros pesados “DHC-515 Canadair”, num investimento de cerca de 100 milhões de euros financiado pelo Programa RescEU. A entrega à Força Aérea Portuguesa, no entanto, só deve acontecer a partir de 2029.
A comparação com os restantes países mediterrânicos não deixa margem para dúvidas: Espanha dispõe de 25 Canadair, Itália de 18, Grécia de 17 (com mais sete encomendados), França de 12, Croácia e Marrocos de seis cada. Portugal, por enquanto, continua a contar apenas com aviões cedidos por parceiros internacionais.