O país está mesmo melhor? O Governo “anda a navegar com costa à vista” e “tem tudo para entrar numa crise política”

7 set 2025, 22:00
Luís Montenegro e Maria Lúcia Amaral (António Pedro Santos/Lusa)

Os últimos meses não têm permitido ao Governo de Luís Montenegro levar adiante muitas das promessas e vontades. Se o país está melhor, há muita gente que não o vê

Um verão com o país a arder. Um regresso às aulas com perturbações pela falta de professores. Sucessivos casos que mostram como o SNS não consegue dar resposta. Pode o Governo, afinal, gabar-se de alguma coisa nesta rentrée? Os analistas políticos parecem discordar.

“A resposta é negativa. Não vejo nada de melhor nesta rentrée. O único fator positivo será a abertura que o Governo está a ter quando decide ouvir os outros partidos em várias matérias”, reage a politóloga Sílvia Mangerona.

“O Governo entra neste novo ciclo político mais desgastado. Haverá certamente números e resultados para apresentar, mas são matérias que demoram a concretizar-se. Mesmo a questão da economia, temos o exemplo do setor têxtil, que está a começar a tremer. É um Governo que deixou de ter agenda. E tem tudo para entrar numa crise política. Só lhe falta tempo… e mais desgaste”, junta o politólogo João Pacheco.

“É um Governo que tem andando a navegar com costa à vista. Mais do que um projeto reformista, vai apresentando medidas aleatórias nos vários setores. E vai à boleia de quem se disponibiliza para lhe dar boleia”, remata o politólogo José Filipe Pinto.

Um exemplo de reformismo

Para José Filipe Pinto, há uma área que é preciso destacar pela positiva: a do Trabalho. “É a única área que apresenta um grande pendor reformista, com mais de 100 alterações ao Código do Trabalho”, diz.

Mesmo que haja “anticorpos de pendor corporativo”, como os bloqueios dos sindicatos. Mesmo que este Governo, que se apresentava como amigo das famílias, tenha deixado a ideia de que é preciso fiscalizar medidas como a amamentação, alimentando a fúria de mães e pais em todo o país.

É a prova de um problema mais profundo, transversal, no executivo de Montenegro: a comunicação.

Maria do Rosário Ramalho, ministra do Trabalho, tem sido alvo de várias críticas (Lusa)

Problema transversal: comunicação

Entre os analistas políticos consultados pela CNN Portugal, repete-se um nome para vincar estas dificuldades de comunicação do Governo: Maria Lúcia Amaral, ministra da Administração Interna – e o seu famoso “vamos embora” quando chegou a hora de os jornalistas fazerem perguntas sobre o combate aos incêndios.

“Demonstra arrogância e prepotência. Este Governo continua sem ter um ministro da Administração Interna”, resume João Pacheco.

“A ministra da Administração Interna ou primou pela ausência ou marcou um distanciamento que a fragilizou a ela e a todo o executivo”, junta José Filipe Pinto.

IRS: podia ser bom, mas não foi

Há uma área onde o Governo teria espaço para receber o aplauso dos portugueses: a descida de impostos. Contudo, a ideia de ‘presente envenenado’ no IRS, não tem corrido a favor do executivo.

“Essa área não está a correr muito bem para o Governo. Não se percebe muito bem qual é o caminho deste avançar com dinheiro em relação ao IRS. Tudo se vai pagar a médio prazo. Deixa-nos incomodados, porque não se percebe a finalidade”, diz Sílvia Mangerona.

E é fácil de resumir: os portugueses estavam habituados a reter mais IRS, recebendo um reembolso que servia muitas vezes para cobrir mais tarde despesas como o IMI ou o seguro do carro. Era uma espécie de ‘extra’, que agora deixa de existir - ou de ser tão chorudo. E mesmo sendo certo que todos os contribuintes que pagam IRS saem beneficiados pela descida do imposto, o que agora vem a mais todos os meses acaba por ser gasto rapidamente no dia a dia.

“O perigo está no facto de os portugueses terem uma costela supranumerária. Por norma, não estão virados para a poupança, mas para o gasto”, vinca José Filipe Pinto.

Presença de Montenegro na Festa do Pontal, enquanto o país ardia, alimentou críticas de ausência na gestão do combate aos incêndios (Lusa)

Dá para superar?

É possível o Governo superar um momento como este e reganhar a confiança dos portugueses? Os analistas políticos apontam caminhos para lá chegar.

“Além das conversas com os outros partidos, para transmitir com maior clareza que há uma vontade de mudança, o primeiro-ministro devia esclarecer de uma vez por todas o caso Spinumviva. A rentrée devia começar por aí. Essas incongruências têm de ser esclarecidas”, defende Sílvia Mangerona.

Isto porque, no passado sábado, o gabinete do primeiro-ministro veio fazer um esclarecimento sobre o pedido à Entidade da Transparência para não permitir o acesso público a dados sobre os imóveis detidos por Luís Montenegro – que, horas antes, confrontado pelos jornalistas sobre o tema, procurou evitar.

“O Governo não pode continuar com esta evolução na continuidade, porque não é despejando dinheiro que se resolvem os problemas. É preciso uma política reformista, negociando com todos os partidos. Mas não podem ter medo de apresentar medidas, mesmo sem a luz verde da oposição”, conclui José Filipe Pinto.

“Têm de se sentar, vestir o fato de governantes e assumir o comando do país. Mais do que estarem preocupados com a apresentação do Orçamento do Estado para 2026, deviam criar e apresentar medidas a médio prazo, pelo menos a quatro anos”, sugere João Pacheco.

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