"Montenegro está a rentabilizar muito bem o pouco tempo que tem". Governo "está em campanha" e quer mostrar que a "oposição não tem pedalada para o acompanhar"

3 jun, 21:58

Em menos de 60 dias de Governo, Luís Montenegro já anunciou alterações no IRS, um plano de emergência para a saúde e medidas para a habitação e para os jovens. Pelo meio, decidiu finalmente a localização do novo aeroporto e anunciou avanços no TGV, enquanto os ministérios prosseguem as negociações com os vários setores, da educação às forças de segurança. Os especialistas não têm dúvidas: o Governo "está em campanha" - mas não é o único

Alterações no IRS, um plano de emergência para a saúdecorreções no Mais Habitação, medidas destinadas aos jovens, a decisão sobre a localização do novo aeroporto e avanços no TGV e agora um plano para assegurar uma imigração regulada. Em cerca de 60 dias, o Governo de Luís Montenegro tem feito anúncios de políticas praticamente todas as semanas, num ritmo que leva a que os especialistas o designem como “um Governo em campanha”.

“Com o ritmo a que temos vindo a assistir [ao anúncio de medidas], é de facto um Governo em campanha. Não tanto por estarmos num período eleitoral para as europeias, mas sobretudo porque o Governo está em alerta permanente, politicamente falando, sob o plano das legislativas”, observa à CNN Portugal o politólogo João Pacheco, referindo-se à possibilidade de novas eleições para o Parlamento caso o Orçamento do Estado venha a ser chumbado.

Mas não é só o Governo que está em campanha, teoriza o politólogo: “Todos estão em campanha. A oposição está à espera de uma crise política. Mas é a velha máxima: todos desejam a crise, mas ninguém quer assumir a responsabilidade por essa crise, [porque] quem tiver essa responsabilidade, perde eleitoralmente.”

Enquanto a oposição “espera que o Governo falhe” na governação, apontando-lhe críticas em todas as medidas anunciadas, com o PSD a denunciar mesmo “coligações negativas” no parlamento para bloquear iniciativas do executivo, Luís Montenegro está a “mostrar trabalho”, ainda que com “uma carta de intenções” eleitoralistas, argumenta João Pacheco.

Uma teoria partilhada pelo politólogo José Filipe Pinto, que considera que o primeiro-ministro “passou, de facto, das ideias à prática” em várias medidas que tinha anunciado na campanha eleitoral. “Isto permite a Luís Montenegro ironizar, dizendo que a oposição não tem pedalada para acompanhar o ritmo do Governo”, afirma o especialista, descrevendo esta jogada como “um trunfo eleitoral” por parte do primeiro-ministro.

Apesar das eventuais intenções eleitoralistas por detrás das medidas apresentadas pelo Governo, os dois especialistas entendem que algumas das políticas anunciadas por Luís Montenegro são, de facto, medidas concretas, quer para o imediato, quer numa lógica de médio e longo prazo. No imediato, os politólogos apontam as alterações ao IRS, que têm uma implicação “mais imediata” na vida das pessoas. José Filipe Pinto diz mesmo que “o órgão mais sensível no ato eleitoral é o bolso”, daí que as medidas que mexam no IRS tenham um grande impacto na população, mesmo que em muitos casos o dinheiro ao fim do mês não suba mais que um par de euros. Já a reestruturação da Agência para a Integração Migrações e Asilo (AIMA), anunciada pelo Governo, é considerada pelos especialistas como “uma questão mais de médio e longo prazo”, ainda que o Executivo tenha insistido que as alterações na AIMA sejam para “o imediato”.

Ainda em relação ao plano para as migrações, José Filipe Pinto destaca a “visão realista” do Governo numa questão tão divisória, demarcando-se da “visão otimista veiculada por partidos como o Bloco de Esquerda e o PCP”, bem como da “visão pessimista do Chega” nesta matéria. “Esta visão realista cai bem junto do eleitorado”, argumenta o politólogo.

Além disso, José Filipe Pinto salienta o facto de Luís Montenegro ter repetido por diversas vezes na conferência de imprensa desta segunda-feira que não há uma ligação direta entre o acolhimento de imigrantes e o aumento da criminalidade, afastando-se da retórica do Chega, que fica, assim, “desapossado de uma das suas bandeiras” - o controlo apertado da imigração.

Para o professor José Filipe Pinto, “Luís Montenegro está a rentabilizar muito bem o pouco tempo que tem de Governo”, evitando “vitimizar-se” pela circunstância de ter uma maioria relativa tão próxima da oposição, tendo em conta os resultados das legislativas de 10 de março.

“Se [Luís Montenegro] assumisse uma atitude de vitimização de que não o deixam fazer e por isso é que não o faz, poderia criar algum descrédito junto do eleitorado. E o eleitorado, neste momento, percebe que ele tem um plano de ação e que as contas estão feitas. Ora, isto transmite, junto do eleitorado, uma imagem de confiança. E a confiança, evidentemente, traduz-se sempre em bons resultados eleitorais”, teoriza o politólogo.

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