Gouveia e Melo usa um mito da Natureza para avaliar a política de imigração e adverte o Governo (e não só) na saúde: "Os privados não podem destruir o SNS"

30 jul 2025, 15:02
Henrique Gouveia e Melo (Fernando Veludo/Lusa)

Candidato presidencial diz que não dá para fingir que o SNS não está mal - apesar de Montenegro dizer que está melhor. Por outro lado: numa espécie de manifesto que escreveu no "Público", Henrique Gouveia e Melo elogia medidas do atual Governo para a imigração mas considera-as incompletas, “falta olhar para a integração”. Ainda sobre este tema dos imigrantes: critica a herança que este Governo encontrou e usa um mito de há dois mil anos para o justificar. Quanto à habitação, é mais simpático para os privados neste capítulo do que no da saúde - mas é sobretudo atencioso para os jovens

Gouveia e Melo não clarifica o que é um jovem, não esclarece se ser jovem é ter 20 ou 30 ou mais ou menos anos que esses - é que pode ser-se jovem por comparação com alguém menos jovem, por outro lado ter 35 era ser profundamente adulto noutras eras enquanto na era em curso ter 35 é ser-se jovem de bastantes maneiras, por vezes até ser um jovem que tem ajuda do Governo para comprar casa. Portanto: pode ser-se jovem durante mais tempo e consoante o contexto e são precisamente os jovens, diz Gouveia e Melo, são “sobretudo” os “mais jovens” os mais afetados por aquele que o candidato presidencial considera ser o maior problema do país, a habitação.

Num artigo no jornal “Público”, Gouveia e Melo promete que vai apresentar o seu manifesto depois das autárquicas, em outubro, mas manifesta já neste artigo de julho orientações políticas e prioridades etárias: quando olha para “as classes mais desfavorecidas”, para “os imigrantes”, para “a classe média” e para os “mais jovens”, quando olha para essa diversidade toda - identificada pelo próprio - Gouveia e Melo tem a certeza de que são os jovens que sofrem mais em encontrar-arrendar-comprar-ter casa. No caso de Montenegro, que criou um programa para os jovens terem ajuda no combate ao problema, ficámos a saber que as pessoas de 35 anos são merecedoras desse apoio mas as de 36 não, no caso de Gouveia e Melo as fronteiras da juventude ficam ao critério de cada um.

Posto isto, o candidato presidencial deposita esperança em dois verbos infinitivos para combater a crise habitacional, “procurarei mobilizar e convocar vontades na urgência de incentivar a construção de habitação nova e de reduzir a burocracia quanto aos tempos de resposta para licenciamento”. Escreve ainda que vai aplicar os mesmos dois verbos, mobilizar e convocar, para que se disponibilize “terrenos a baixo custo para habitação social e do Estado, não para fundos imobiliários especulativos”, e tem igualmente vontade em “reduzir os impostos e criar incentivos para que os proprietários disponibilizem no mercado fogos existentes”. Mas: “Sou contra todo o tipo de restrições à propriedade privada e ao uso desta para colmatar as deficiências sociais do Estado”.

“Os privados não podem destruir o SNS” e duas ou três reprimendas ao Estado + Governo

Segundo maior problema do país segundo Gouveia e Melo: saúde, nomeadamente o SNS, serviço esse a que Montenegro se referiu assim em agosto de 2024: o SNS está “muito melhor este” ano do que no ano passado. Já no julho deste 2025, Montenegro plagiou-se, “hoje temos menos problemas no SNS do que tínhamos há um ano”, de ano para ano o SNS está melhor nos pensamentos de Montenegro mas está pior na avaliação de Gouveia e Melo, “não há mais como perder tempo com discussões estéreis, existe um problema nítido na capacidade de resposta na saúde e na perceção que os portugueses têm do SNS”. 

Tal como na habitação, o candidato presidencial salvaguarda na saúde a intervenção privada, “os privados podem e devem existir num modelo complementar ao público”, mas depois socorre-se novamente de dois verbos - mas estes violentos: os privados “não podem é destruir o SNS e sugar os recursos humanos mais qualificados, pois no fim não serão capazes de responder a todas as necessidades do cidadãos, principalmente dos mais desfavorecidos”.

Mas Gouveia e Melo também não vê no Estado uma entidade capaz e por isso socorre-se não de dois verbos mas de dois substantivos violentos para repreender a maneira como o Estado atua, “o que se passa na saúde é a inação e incapacidade do Estado para resolver um problema que não é de recursos financeiros, pois praticamente duplicámos o orçamento da saúde nos últimos dez anos”. “Estamos perante uma organização deficiente, sem um modelo de liderança hierarquizado e responsabilizado, sem um sistema efetivo de controlo, com reflexos graves na gestão, na eficácia da resposta e na eficiência económica.” E Gouveia e Melo identifica quem beneficia disto à custa dos cidadão: “Esta organização deficiente [do sistema] parece ter vindo a privilegiar dois tipos de interesses indesejáveis: corporativos e privados”.

Enquanto o primeiro-ministro anuncia que o SNS estava “muito melhor” em agosto de 2024 que em agosto de 2023 e que está melhor em julho de 2025 que em julho de 2024, Gouveia e Melo entra em agosto de 2025 a explicar que 484 dias depois de Luís Montenegro se ter tornado primeiro-ministro é “inadmissível ter grávidas a circular entre hospitais para poderem ter os seus filhos, é inadmissível falhas persistentes do INEM, é inadmissível listas de espera para tratamentos urgentes, é inadmissível que alguém não seja tratado em tempo e com qualidade por falta de recursos financeiros próprios”. Se Gouveia e Melo vencer as eleições, esta reflexão sobre o SNS é um ponto de partida curioso para vermos se Montenegro dirá em 2026 que as relações com o Presidente da República são muito melhores que em 2025 com Marcelo (que já amuou com Montenegro ao ponto de não lhe atender o telefone).

A avestruz não enterra a cabeça na areia quando tem medo

Sobre aquele que considera ser o terceiro grande problema do país, Gouveia e Melo abre com a habitual consideração genérico-académica, “a imigração pode ser crucial para mitigar a diminuição da população em Portugal, povoar e desenvolver o interior, equilibrar a pirâmide etária, bem como desenvolver a economia nacional”, ainda que esta habitual consideração tenha uma nuance inicial interessante, “a imigração pode ser crucial para” quando muitas vezes esta habitual consideração começa por “a imigração é crucial para” - seja uma subtileza deliberada ou uma nuance acidental, é bem interessante do ponto de vista da psicanálise de um texto.

Mas retomando: após o introito vem a crítica, aí à governação socialista, “não foram avaliadas com rigor as implicações deste surto imigratório excecional, nem acautelados os respetivos impactos na habitação, na saúde, no ensino, nos serviços públicos e administrativos, na segregação em guetos, na exclusão social, na exploração humana e do trabalho”, segue-se nova repreensão ao PS mas esta é uma repreensão mais animalesca, “o atual estado da imigração no país resultou de uma longa política de avestruz e de termos ignorado a situação”. A expressão “política de avestruz” tem lastro, é uma espécie de fugir aos problemas ignorando que eles existem mas assenta num mito, as avestruzes não enterram a cabeça na areia para fingir que não existe o perigo que pressentem: quando se sentem ameaçadas atacam com as patas (têm garras maliciosas) ou fogem depressa, são velozes nisso (o que quer dizer que não ignoram o perigo nem fingem que o fazem, antes pelo contrário).

O mito de enterrar a cabeça na areia é uma história que a National Geographic diz que foi inventada há dois mil anos mas o que não é mito é que Portugal foi presidido um dia por Jorge Sampaio, citado aqui por Gouveia e Melo: “Importa recordar as palavras do antigo Presidente Jorge Sampaio, no Dia de Portugal em 2002: ‘Devemos exigir uma demonstração real da vontade de integração desses imigrantes na nossa comunidade nacional. A contrapartida da nossa abertura é a rejeição firme de isolacionismos religiosos e culturais’”. Ou seja, podia ter citado Pedro Nuno Santos na famosa entrevista ao Expresso: “Quem procura Portugal para viver e trabalhar, obviamente percebe, ou tem de perceber, que há uma partilha de um modo de vida, uma cultura que deve ser respeitada”, e depois de Pedro Nuno Santos ter dito isto o jornalista intervém, “parece que estou a ouvir alguém de direita…”, o ex-líder do PS reage às reticências, “é errada essa ideia de que nós à esquerda não podemos falar sobre a necessidade de se respeitar a forma como vivemos”.

Gouveia e Melo elogia medidas que o atual Governo tomou, “tenho constatado, de forma positiva, uma preocupação acrescida na regulação do fluxo de imigração”, mas: “falta olhar para a integração”, algo que não é apenas “uma prioridade social e humanitária” mas “também económica”. Sobre este último ponto, o económico, “sublinha que Portugal precisa de crescer 3% ao ano nos próximos dez anos se quiser passar para o pelotão da frente das economias europeias e isso só será possível com um forte contributo da imigração”, quanto à questão da humanidade e dignidade: “Sem uma política coerente e abandonados a uma burocracia lenta e incapaz de responder, deixámos os imigrantes à mercê de uma exploração desumana”.

Para que isso não aconteça propõe assim: “A autorização para permanência no nosso país deve ser obtida no país de origem, junto aos nossos consulados. Também fundamental é garantir que um imigrante, depois de entrar, não perde a sua identidade e origem, e assegurar um programa de regresso destinado a quem não cumpra os requisitos necessários para ficar em território nacional”. Gouveia e Melo quer ainda que os imigrantes aprendam Português, que sejam incentivados a repovoar o interior, pede fiscalização “capaz de pôr fim a entradas desreguladas e a diversos tipos de exploração” e define a regra que Portugal tem de seguir imediatamente: “Temos de começar já a regular os ingressos com base nos nossos interesses e capacidades”. Conclusão: Gouveia e Melo prometeu neste mesmo texto apresentar um manifesto mas só após as autárquicas - hoje foi 13 de outubro?

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