EXCLUSIVO || O ponto de partida desta entrevista era o mundo lá fora: Rússia, "não se pode mostrar fraqueza" mas também não se pode cair "no engodo"; Gaza, o que se passa lá "aproxima-se do genocídio". Mas o mundo cá dentro fez inevitavelmente parte da geografia desta entrevista à CNN Portugal
A entrevista teve sobretudo considerações sobre o estado do mundo - sobre o estado delicado e imprevisível do mundo -, mas a passagem pela realidade política nacional ficou marcada assim: “Essa [minha] queda nas sondagens é um mito que foi propagado a partir de uma sondagem com 350 pessoas. Esse mito multiplicou-se pela televisão e pelos analistas que têm esse desejo, de que eu realmente tenha uma queda nas sondagens, mas é mais um desejo que uma realidade”, afirmou Gouveia e Melo.
Ainda sobre o "mito": “Uma sondagem logo a seguir, com 2000 respostas, não dava essa queda. Acredita-se numa sondagem de 350 respostas face a uma sondagem de 2000 respostas. Isso é uma tentativa de provocar um efeito - e conseguiu, realmente. Tenho de tirar o chapéu ao grande estrategista que concebeu esse efeito”, ironizou.
Outra ressalva sobre o contexto da eleição presidencial que aí vem: "Eu não defendi o serviço militar obrigatório", afirmou. "Eu disse que, a continuarmos a perder efetivos, nós eventualmente éramos obrigados a pensar nessa solução."
Ainda olhando para dentro: "Temos de acolher populações que sejam facilmente integráveis na sociedade portuguesa", afirmou sobre a imigração. Gouveia e Melo diz que Portugal não pode resolver "com uma política de portas abertas os problemas do mundo inteiro". "Não temos espaço, nem infraestruturas, nem capacidade para o fazer."
Sobre outros problemas do mundo inteiro, debruçou-se sobretudo sobre a Rússia e Gaza. Sobre este último conflito, usou a palavra "genocídio". Mas vamos por partes: a grande notícia desta segunda-feira sobre o conflito em Gaza foi o plano que Donald Trump apresentou para o fim da guerra e o futuro do território. Instado a comentar as ideias da administração americana para o território palestiniano, Gouveia e Melo disse que um “mau plano é melhor que um plano inexistente”. “Sempre defendi o Estado de Israel, o direito à defesa e à existência do Estado de Israel”, sublinhou - mas acrescentou que o governo de Benjamin Netanyahu “já passou o Rubicão”. “Tomou medidas de uma punição coletiva que se aproxima do genocídio e que está a isolar o próprio Estado de Israel, com prejuízo para o próprio Estado de Israel, na cena internacional”.
Depois de lhe ser pedido que clarificasse a expressão “aproxima do genocídio”, respondeu assim: “A classificação de genocídio tem característica técnicas que ainda não estão todas… está muito perto disso. No entanto, o que nós temos de pensar é que a posição portuguesa e de outros Estados é um sinal claro ao governo de Israel que vai entrar no isolamento crescente internacional se não aceitar uma solução negociada para a criação de um Estado palestiniano”, explicou, salientando que a criação desse Estado ainda vai demorar muito tempo. "Criar um Estado requer três coisas: território, população com identidade e um governo. População com identidade têm, não têm território neste momento, nem têm um governo que seja viável.".
O engodo russo
Henrique Gouveia e Melo afirma que a Rússia não constitui, neste momento, uma ameaça “verdadeira e concreta” para o continente europeu. Em entrevista no CNN Prime Time, que estreou o seu novo formato esta segunda-feira, o candidato à Presidência da República afirma que Moscovo está apenas a “testar a coesão e as respostas da NATO” e que uma resposta “exagerada” poderá “escalar o conflito”. Mas também não se pode mostrar "fraqueza".
“A Rússia joga num plano mais alargado. Eles têm um conceito de guerra híbrida, além da guerra convencional, que usa todo o tipo de mecanismos para tentar criar uma perceção nos potenciais adversários de que tem superioridade e capacidade, sem na realidade ter essa superioridade e essa capacidade. Cair no engodo de começar a responder antes do tempo pode não ser benéfico da parte do Ocidente.”
Sem detalhar, o candidato lembrou algumas experiências enquanto Chefe do Estado-Maior da Armada. “Há regras de navegação e comportamentos que devem ser cumpridos a nível internacional. Muitas vezes, os navios russos esticam essas regras até ao limite e nós temos de lhes mostrar que, nas nossas águas, essas regras têm de ser cumpridas”, diz, relevando o facto de ambos os lados terem, até agora, conseguido “desescalar” as situações.
Apesar de reconhecer que a Europa e a NATO têm de ter cuidado com uma eventual escalada, Gouveia e Melo frisa que o aumento das tensões e da conflitualidade também não é do interesse da Rússia. Quando questionado sobre se Moscovo responderia ao abate de um caça russo por parte de forças da NATO, o candidato foi perentório.
“Não responderia porque não teria capacidade para responder. Vai escalar para onde? A certa altura, qual é a capacidade de escalar? Vai escalar para uma guerra nuclear? Isso é impossível. Então vai escalar para onde? Para um lançamento de mísseis sobre território da NATO? Isso terá logo uma resposta imediata e fortíssima”, começou por afirmar. “A Rússia está num atoleiro, num verdadeiro atoleiro, dentro da Ucrânia. A Rússia está com grandes problemas internos. Julgar que a Rússia está em condições de fazer agora uma grande invasão do Leste europeu, envolvendo países da NATO, eu julgo que é um bocado forçado e é mais um pesadelo do que uma realidade.”
Como forma de dissuadir a Rússia, Gouveia e Melo concorda com o fornecimento de mísseis Tomahawk à Ucrânia. “A Europa tem um problema grave no Leste. O Leste europeu vai ser decidido na Ucrânia, quer a gente queira, quer a gente não queira. É mais fácil fornecer material e apoio à Ucrânia e fazer com que a Rússia não consiga os seus intentos aí e, dessa forma, acaba por ser derrotada nos seus intentos expansionistas, do que enfrentar isso com um país da NATO - e é isso que nós, Ocidente, estamos a fazer”.