"A grande mais-valia de Gouveia e Melo pode ser a sua grande lacuna"

29 mai 2025, 07:01
Henrique Gouveia e Melo (Mário Cruz/Lusa)

Especialistas ouvidos pela CNN Portugal explicam como um candidato de fora da política e praticamente desconhecido está à frente nas sondagens para as eleições presidenciais

Em todas as sondagens realizadas até agora, Gouveia e Melo supera os resultados de outros candidatos, como Marques Mendes, e eventuais adversários, como António José Seguro ou André Ventura. 

Como explicar o apoio que o almirante Gouveia e Melo parece dispor junto do eleitorado, que aparentemente está mais inclinado a votar num militar do que num político?

A vacinação da covid-19: o homem que resolveu

Antes de mais, é preciso recordar que Gouveia e Melo se tornou conhecido da maioria dos portugueses enquanto coordenador da aplicação do plano de vacinação contra a covid-19 e, nessa função, revelou "um alto sentido de responsabilidade e um pragmatismo competente", diz o especialista em ciência política e professor universitário José Filipe Pinto. 

O politólogo João Pacheco sublinha que a nomeação de Gouveia de Melo para a task force da vacinação, em fevereiro de 2021, surgiu depois do descalabro da atuação do anterior coordenador, Francisco Ramos. "Por contraste, a sua atuação foi ainda mais valorizada", observa. "Não se esquecem as lições aprendidas na dor", junta José Filipe Pinto. "As pessoas perceberam que sem a intervenção de Gouveia e Melo a situação poderia ter ficado fora de controlo."

"A pandemia joga a seu favor, porque a gestão política e gestão sanitária, apesar de não terem sido da sua responsabilidade, correram bem", argumenta João Pacheco. Vários atores políticos capitalizaram este sucesso - e Gouveia e Melo foi um deles.

Gouveia e Melo numa das primeiras apresentações como coordenador da task force da vacinação contra a covid-19, em fevereiro de 2021 (Lusa/José Sena Goulão)

O militar que impõe a ordem: a memória de Eanes

José Filipe Pinto recorda, em segundo lugar, a revisão constitucional de 1982, "que extinguiu o Conselho da Revolução e devolveu os militares aos quartéis", "restituindo o poder ao mundo civil". Desde o 25 de Abril, "Portugal só teve um presidente militar, que foi o general Ramalho Eanes [que terminou o seu mandato precisamente nesse ano] e a avaliação que os portugueses fazem desses mandatos fazem dele a maior referência presidencial no pós-25 de Abril. Foi, segundo uma maioria dos portugueses, o melhor presidente do período democrático e era militar" - essa é uma memória que abona a favor de Gouveia e Melo.

João Pacheco não tem dúvidas de que o uso da farda, com tudo o que tem associado, é um fator determinante: "A figura militar é uma figura da ordem, da disciplina, da autoridade". Não sabemos se corresponde à verdade, mas essa é a imagem que é transmitida.

"Isto é importante porque na conjunta atual, de grave crise internacional e de indefinição política a nível interno, Portugal volta a ver-se com uma conjuntura ainda mais preocupante e os portugueses parecem voltar a precisar de uma voz firme e que impõe respeito", diz José Filipe Pinto. 

O salvador que precisamos?

João Pacheco acredita que os portugueses têm ainda "a tendência para esperar um D. Sebastião", ou seja alguém que resolva os seus problemas.

Na opinião do professor José Filipe Pinto, "apesar de todo o progresso humano, o nosso cérebro continua a ser muito semelhante ao cérebro do homem da savana, continuamos a seguir o grande homem, sobretudo em momentos de crise. Não é por acaso que Trump foi eleito, ou que Putin conseguiu o apoio da população. Há um elemento psicológico que condiciona muito o voto e este fator tem de ser percebido", defende José Filipe Pinto. "Gouveia e Melo não se insere na linha política nem na linha do messianismo, ele faz questão de recusar esses dois papéis, e isso pode fazer com que passe a ser visto como o grande homem que o país precisa."

O facto de o seu currículo militar ser elogiado e de o seu currículo político ser ainda inexistente permite alimentar uma imagem de salvador. "A única coisa que sabemos é que ele coordenou a vacinação contra a covid-19 e nisso foi bem sucedido", aponta João Pacheco. Até agora, é um vencedor.

Um último elemento deve ser tido em conta: "A reduzida recetividade dos candiatos e protocandidatos apoiados ou a apoiar pelos dois grandes partidos - inclusivamente dentro dos seus partidos." Se entre os políticos não se encontra uma figura à altura da missão, abre-se espaço a que surja "uma figura de fora dos partidos, com provas dadas, ainda que noutra área", considera José Filipe Pinto. 

Num momento em que a classe política tem enfrentado tantos escândalos, nomeadamente ligados à corrupção, estar fora do sistema político pode, de facto, ser visto como um fator positivo.

Não há candidatos perfeitos: o que pode correr mal a Gouveia e Melo

Isto significa que a vitória é garantida? Nem por isso, afirmam os analistas. "A figura de Gouveia e Melo já não é propriamente desconhecida, mas desconhecemos o seu pensamento político e o seu posicionamento ideológico", alerta João Pacheco. Ainda que o almirante já se tenha definido como estando politicamente ao centro e tenha recusado os extremismos, o politólogo sublinha que "apenas temos um conhecimento teórico, através do que ele verbalizou; não temos qualquer conhecimento empírico, não sabemos como age".

Na política existe uma grande diferença entre o que é dito e a ação, e Gouveia e Melo ainda não teve oportunidade de mostrar como reage numa situação concreta. "Foi a pandemia que o tornou um ator mediático e foi através dessa mediatização que ele entrou no plano político", explica João Pacheco. "No entanto, a sua atuação foi apenas na ordem da logística, ele não foi um decisor político, não foi ele que tomou as decisões. Mas o facto de a sua atuação ter sido bem sucedida deu-lhe palco, deu-lhe notoriedade, e essa mediatização acabou por fazer com que ele fosse confundido com um decisor. Tem essa aparência, mas não tem essa experiência."

Para Gouveia e Melo, a viagem está apenas a começar. 

"Ainda estamos muito longe da eleição presidencial", prossegue João Pacheco. "Sabemos, e estas últimas legislativas mostraram-nos isso, que uma boa parte dos eleitores só no momento de voto é que decide. Além disso, não sabemos quem serão os outros candidatos. Ainda há muita indefinição. Desde que as sondagens foram feitas, tivemos eleições legislativas e ainda vamos ter eleições autárquicas. Só depois a comunicação política e a atenção mediática se vão virar para as presidenciais, há uma longa distância a percorrer e o eleitorado ainda está longe de decidir."

"Uma coisa é ter uma boa impressão de uma pessoa, outra coisa é votar nela", avisa o politólogo.

"Enquanto não teve palco mediático, o seu discurso não foi escrutinado", lembra também José Filipe Pinto. "Prevalece a imagem do almirante das vacinas, da voz forte que impõe respeito mas que ao mesmo tempo apresenta resultados." Mas nada disso tem a ver com a experiência que se exige a um Presidente da República. "A função do Presidente da República é sobretudo moderadora", observa o professor. "Vamos ver se as intervenções políticas de Gouveia e Melo não vão levantar anticorpos", diz, alertando para o risco de haver um "desencantamento": "A sua grande mais-valia pode ser a sua grande lacuna - a falta de preparação no âmbito político", conclui.

"A partir do momento em que for candidato e tiver de agir enquanto homem político é que vai ser posto à prova", antecipa João Pacheco, recordando algumas falhas e incoerências de Gouveia e Melo que "decorrem precisamente dessa inabilidade e falta de experiência política", como o facto de ter dito que se fosse candidato deveriam por-lhe uma corda ao pescoço, ou de ter garantido que não falava das presidenciais antes das legislativas e afinal ter anunciado a candidatura antes. Agora, é essencial que consiga "recuperar uma certa imagem de homem coerente e cauteloso".

"Gouveia e Melo é uma espécie de virgem político, tem muito menos experiência do que os seus antecessores", resume João Pacheco. E isso pode ser bom ou mau.

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