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À primeira vista, Gouveia e Melo parece "um homem como nós". À segunda vista, é um homem "rodeado de gente profissional"

30 mai 2025, 18:00

Gouveia e Melo "apresenta-se como um homem sóbrio e austero que se emociona e que às vezes nos emociona". Gouveia e Melo apresenta-se como um homem "sem a prática que os outros têm" a ler um teleponto. Gouveia e Melo apresenta-se como "um homem comum". Gouveia e Melo apresenta-se de várias maneiras menos de uma: não se apresenta como um político. Porque dizer "a política não é para mim" tornou-se agora a maneira mais "eficaz" de vencer na política. E essa "era uma ideia forte dos tempos do Estado Novo"

"Gouveia e Melo apresenta-se como um não político, alguém que está fora da política, mas o seu discurso foi profundamente político e carregado de referencias ideológicas", afirma Luís António Santos. Este especialista em comunicação política sublinha que não tem dúvidas de que o anúncio da candidatura de Henrique Gouveia e Melo à presidência da República foi muito bem preparado. "A ideia de que ele é um homem comum, um homem como nós" e que não tem uma máquina partidária a trabalhar consigo não é totalmente verdadeira: "Aquilo também é uma construção".

Luís António Santos assistiu com muita atenção à sessão de apresentação que se realizou na quinta-feira à tarde na Gare Marítima de Alcântara, em Lisboa: "Para a audiência a quem poderá apelar aquela candidatura, é uma mensagem que é muito eficaz, toca todos os botões que os potenciais eleitores querem ver tocados. Desse ponto de vista é um anúncio bem-sucedido", diz à CNN Portugal.

A começar, desde logo, com a ideia de que Gouveia e Melo não é um homem da política. "É uma ideia que foi muito usada por Cavaco Silva, que esteve 21 anos no poder mas sempre disse que não era político. Mas essa ideia de que 'a política não é para nós, é uma coisa lá deles' é uma ideia que tem origens muito anteriores ao 25 de Abril, era uma ideia forte dos tempos do Estado Novo. Nos últimos anos essa ideia foi recuperada e construímos em cima dela, fomos mais longe, dizemos 'a política não é um lugar recomendável, é um lugar sujo'", diz Luís António Santos. No momento em que vivemos, essa é uma ideia muito apelativa para uma parte do eleitorado - que considera que os políticos estão, na sua maioria, ligados a corrupção e a esquemas pouco lícitos.

Miguel Santos Carrapatoso, jornalista do Observador, também considera que "esse é um dos trunfos de Gouveia e Melo": "Ele faz questão de brandir que está acima dos partidos. Isso é o ar dos tempos. Apesar de ter uma agenda muito diferente da de André Ventura, também bebe desse caldo de cultura onde ser parte do sistema é negativo. E, portanto, apresenta-se como candidato acima dos partidos - porque de facto não pertence a e nenhum partido e também porque sabe que isso joga a seu favor", afirmou Miguel Santos Carrapatoso esta sexta-feira de manhã, na CNN Portugal.

"Associada a isto vem a ideia de que é possível viver, e viver melhor, sem a política", destaca Luís António Santos. "É uma ideia reforçada nos últimos 20 anos por discursos políticos, por agendamentos mediáticos, por estratégias de agendas de comunicação. A política é dispensável e podemos governar melhor sem essas coisas da política. Ter debates sobre 'se somos de esquerda ou de direita não nos leva a lado nenhum, isso não resolve os verdadeiros problemas das pessoas', é uma expressão que é muito usada." É por isso que Gouveia e Melo se define como sendo apolítico e, no limite, a ter de se colocar em algum lugar diz-se do centro, um centro que tudo abarca e que não (se) compromete. "Este discurso tem uma força enorme", admite o especialista em comunicação.

Por outro lado: "Luís Marques Mendes é exatamente o oposto", diz a comentadora da CNN Portugal Mafalda Anjos. "É um político experiente, já foi líder de um partido partidário, e sublinha que a política e os políticos têm um papel importante na sociedade e que o cargo de Presidente da República deve ser exercido por alguém com essa experiência", afirmou Mafalda Anjos esta sexta-feira, na CNN Portugal.

A narrativa messiânica: o discurso unificador em torno da pátria

Se na apresentação tudo foi pensado ao pormenor, desde o lugar escolhido ao cenário azul celestial que remete para o mar e inspira tranquilidade, o discurso de Gouveia e Melo também "toca deliberadamente os botões todos": disse que "sentiu o apelo" para ser Presidente e que "o Ocidente perdeu o rumo", referiu que "quando não há liderança não há confiança" e mostrou-se disponível para "servir" e até para dar a vida pela pátria. Luís António Santos sublinha a inspiração sebastianista (a necessidade de um salvador) e o facto de, nos últimos tempos, a palavra pátria ter voltado a entrar no discurso político e de Gouveia e Melo a usar, "já sem vergonha". O almirante fez também uma referência ao país que "parte destas costas para o Atlântico" - este tipo de referências "está presente nos discursos que pretendem ser unificadores", explicita Luís António Santos, que também é professor universitário.

"Alguns críticos dizem que lhe falta densidade política - e talvez falte no registo do debate que estamos habituados a ter, porque não há propostas concretas. Mas, para a maioria dos eleitores, o que ele é disse de conteúdo político é mais do que suficiente", aponta Luís António Santos. "Gouveia e Melo quer ter um apelo o mais transversal possível e consegue dizer coisas relevantes para vários tipos de eleitores."

Para a comentadora da CNN Mafalda Anjos, Gouveia e Melo tem "um discurso catch all, que quer apanhar todos, não faz mossa nesse sentido". "Fiz ao exercício de ir ao ChatGPT e pedir para fazer um discurso de apresentação de um candidato a Presidente da República em portugal e posso dizer que o resultado não foi muito diferente deste [do discurso de Gouveia e Melo], foi muito semelhante, focando nos mesmos temas, com o mesmo tom. É um discurso mainstream. Mas é um discurso eficaz neste tempo, as pessoas estão desiludidas com os partidos."

Um "homem como nós" mas "muito bem assessorado"

Até mesmo o facto de Gouveia e Melo ter usado teleponto e de não parecer tão à-vontade a discursar pode ser lido pelos eleitores como um fator positivo: "Ele não tem a experiência e a prática que os outros têm, mas isso conta a favor dele, ajuda a construir a ideia de 'eu não sou aqui'. Poderia ser um handicap mas não é porque mostra um homem assoberbado pela sua responsabilidade, ele é como nós, está emocionado." Gouveia e Melo "apresenta-se como um homem sóbrio e austero que se emociona e que às vezes nos emociona".

Mafalda Anjos concorda: "A comunicação simples e direta é um trunfo para Gouveia e Melo, ele não usa um discurso muito elaborado, com muitas nuances. Vamos ver que tom é que vai usar daqui para a frente. Se começar a meter uma cassete mais política, isso será claramente uma desvantagem para ele". Para Mafalda Anjos, Gouveia e Melo "tem estado muito fora do plano mediático - mas a partir do momento em que é candidato e começar a aparecer, vai ter de explanar o seu pensamento político, as suas ideias para o país", e isso pode ser um desafio.

"Por outro lado, diz Miguel Santos Carrapatoso, "Marques Mendes tentará vender a sua narrativa - dirá que o país o conhece, que é o candidato da previsibilidade, enquanto Goveia e Melo é uma surpresa e as surpresas podem ser negativas ou positivas. Gouveia e Melo é um melão ainda por abrir". No entanto, o jornalista deixa um aviso: "De dada vez que for confrontado pode de facto escorregar, mas ele rodeou-se de gente muito profissional e tem uma rede de apoio muito relevante, não só gente que dá a cara mas também assessores muito competentes, com muita experiência política", diz, referindo-se a Luís Bernardo, que também foi responsável de comunicação de José Sócrates. "Luís Marques Mendes tentará certamente tirár Gouveia e Melo da zona de conforto, mas Gouveia e Melo está muito bem assessorado e muito bem preparado para a campanha eleitoral."

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