Gouveia e Melo acredita que, em termos estratégicos, é Teerão quem está a "ganhar verdadeiramente a guerra", mas alerta: "O mundo não pode permitir que o Estreito de Ormuz seja propriedade de um país"
Terminou esta quarta-feira mais uma ronda de conversações indiretas entre os EUA e o Irão, mediadas pelo Qatar e pelo Paquistão, em Doha, Catar. Teerão voltou a insistir e a mostrar-se irredutível quanto à intenção de taxar todas a embarcações que cruzem o Estreito de Ormuz. O almirante Gouveia e Melo tem pelo menos uma certeza quanto ao tema: "O mundo ocidental não pode ficar refém de uma medida destas".
No comentário semanal na CNN Portugal, antigo chefe de Estado-Maior da Armada (CEMA) defende que o Irão "colocou em cima da mesa, pela primeira vez, algo que compromete a ordem mundial". "No dia em que pagarmos pela passagem no Estreito de Ormuz, temos um problema internacional grave", acrescenta Gouveia e Melo.
"Se o Irão não for demovido dessa ideia peregrina, o que se compromete é a ordem internacional e a liberdade de circulação nos mares. Essa liberdade faz parte da ordem ocidental, foi criada pelo Ocidente e tem muitos séculos. Mudar isso, podendo um país apropriar-se de um estreito que é um canal de navegação internacional e uma artéria fundamental para a economia é totalmente desastroso", refere o almirante.
Face ao exposto, o almirante acredita que o regresso de uma "projeção de força não estará distante". Gouveia e Melo considera que "há uma necessidade imperiosa de não deixar que o Irão tome de facto propriedade de algo que é internacional" e, como tal, isso vai "implicar a NATO, os países ocidentais em termos alargados e até talvez a China".
"Até que ponto também está a China interessada ou não na liberdade de navegação através dos estreitos? A China também pode ser constrangida se esta regra internacional for alterada", teoriza.
Apesar da complexa situação geopolítica, Gouveia e Mela confia que a "comunidade internacional vai encontrar uma solução", mas destaca que este conflito no Médio Oriente está a demonstrar algo novo: é possível um país "perder em termos táticos e vencer estrategicamente", porque o "Irão fez com que os EUA estejam a negociar em permanência e em esforço". "Portanto, no fim deste conflito todo, quem ganhou verdadeiramente a guerra? É quem, em termos estratégicos, está a conduzir os destinos da região e, neste caso, parece-me ser o Irão", resume o almirante.
O almirante Gouveia e Melo repete Ormuz representa mais do que uma portagem e que o que está aqui realmente em "causa é uma nova ordem mundial", sendo que Portugal poderá ser peça-chave neste novo mundo do amanhã.
Gouveia e Melo refere que, apesar de ser um país pequeno, Portugal tem "uma posição estratégica muito relevante". "Num conflito para uma nova ordem mundial, a sua posição estratégica pode ser uma ameaça ou pode ser uma oportunidade", defende.
"Somos periféricos à Europa, mas estamos no centro do Atlântico. Portanto, somos funcionalmente centrais à Europa, enquanto utilizador de rotas marítimas", explica o antigo CEMA, aconselhando o Governo a centrar nos "cinco pilares da política externa portuguesa":
- Segurança atlântica
- Pilar europeu da NATO
- Investimento em defesa
- Proteção de infraestruturas
- Autonomia estratégica
Em tom de fecho, Gouveia e Melo volta a enaltecer que há "uma nova ordem mundial que está a ser definida neste momento" e, dito isso, repete: "O mundo não pode permitir que o Estreito de Ormuz seja propriedade de um país".
