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Gouveia e Melo em entrevista: um almirante já ensaiado mas com "demasiado taticismo"

3 jun 2025, 07:00
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O Almirante candidato a Presidente da República deu à CNN Portugal a primeira entrevista após abandonar as ponderações e entrar na corrida a Belém. Na análise de um politólogo e de um especialista em comunicação política que assistiram atentamente às respostas (e posturas) de Gouveia e Melo, é mais o que fica por dizer do que o que se disse. Duas notas dos analistas. Primeira: “Por tanto que diga que a palavra que o define é moderação, na verdade a palavra que o define é autoridade. E a um Presidente não se pede tanta autoridade". Segunda: “É bom que se comece a assumir. Ele, na verdade, sabe perfeitamente que sempre foi mais político do que o que disse ser”

Agora, enfim, candidato a Presidente, Henrique Gouveia e Melo está no espaço a que nunca se viu pertencer: a política. 

E a primeira entrevista do favorito nas sondagem a Belém, concedida à TVI e CNN Portugal, relevou um almirante ainda com demasiado de militar e pouco de estadista. É a primeira leitura de José Filipe Pinto, politólogo. “Talvez devido à formação militar que tem, para o Gouveia e Melo o melhor ataque é a defesa. Ele falou mais de passado do que de futuro - e isso é totalmente defensivo. A palavra que para mim marcou esta entrevista foi taticismo - nomeadamente nos grandes assuntos, como é o caso do aborto, como é o caso da eutanásia.”

Nesta parte, de haver na linguagem, na mensagem todo esse “taticismo” já releva, talvez, um Gouveia e Melo mais próximo dos políticos, da linguagem política? “Talvez, sim.” E José Filipe Pinto sabe que isso tem um objetivo: eleitores, ganhar eleitores. Ou não os perder. “Ele tentou não afastar eleitorado, essencialmente. Por isso se viu o cuidado com que ele separou o eleitorado do Chega do André Ventura. Além de fazer um piscar de olho ao eleitorado do PS, quando ele disse que nunca dissolveria a Assembleia quando Costa foi para presidente do Conselho Europeu. E além de fazer um piscar de olho ao eleitorado da AD, quando ele disse que a um governo que tenha de tomar medidas impopulares, medidas reformistas, o Presidente nunca lhe deverá retirar o tapete.”

Para este politólogo, Gouveia e Melo ainda não conseguiu, nesta primeira entrevista como candidato presidencial, "provar a razão de se candidatar nem a vantagem de ser independente”, mas conseguiu “defender-se bem” - precisamente por nunca se “comprometer demasiado”. 

José Pedro Mozos, especialista em comunicação política, não viu algo de bom nesta “defesa” e é crítico da prestação de Gouveia e Melo na entrevista. Da ausência de prestação. “A minha primeira opinião sobre a entrevista é que, a partir do momento em que se decide dar essa mesma entrevista, convém ter algo para nos dizer, algo de novo, algo para acrescentar. Mas a verdade é que Gouveia e Melo, como candidato, falou aqui com as mesmas reservas com que falava quando era só protocandidato. Não há muita diferença de conteúdo face àquilo que já lhe conhecíamos de pensamento político.” 

José Pedro Mozos atira dois exemplos mais imediatos que para ele se evidenciaram de falta de pensamento, ou de compromisso: “Em muito temas continua a ser muito vago, como quando fala da situação internacional, como quando fala da Palestina - não basta dizer que é ‘muito grave’ e que ‘não concorda com aquilo’. Não é por aí que vamos entender o que é que Gouveia e Melo pensa sobre política externa. E depois, quando lhe perguntam qual seria a primeira medida que tomaria enquanto Presidente da República, ele diz que vai ‘falar menos’. Ou seja, ele não chega a concretizar nada, nem densificar nada”.

Voltamos ao politólogo José Filipe Pinto. Que encontrou momentos maus e bons na entrevista. Algo de bom, do ponto de vista da comunicação, foi para si “perceber que há frases que já foram ensaiadas pela entourage, aprendidas pelo almirante, frases fortes  - e a melhor para mim foi ‘não podemos distribuir pobreza’”. Bom foi também Gouveia e Melo encontrar virtudes na fraqueza política. “Por exemplo, e sobre a nova ordem mundial, ele não conseguindo expor propriamente ideias, tentou explicar que não tem conhecimento político, ou conhecimento de políticos, mas conhece o aparelho, que é quem se dedica a executar as tarefas. E isso prepara-o para tomar bem as decisões políticas. Aqui foi onde a entrevista lhe correu melhor, francamente. Aqui e quando no fim disse que recusava qualquer messianismo.”

Mas nem tudo correu na ótica do politólogo bem. Correu mal, “bastante mal”. quando deixou “farpas” ao Presidente em funções, “apesar de dizer que não se ia pronunciar sobre Marcelo Rebelo de Sousa”. “Mas pronunciou-se e diz que irá ser diferente, porque falará menos, porque irá usar mais os gabinetes - e que só falará publicamente quando for mesmo necessário. Isto é, evidentemente, uma crítica sem necessidade.” Gouveia e Melo está na sua crítica a apontar para o que se entende como magistratura de influência, “com uma interferência que não chega ao olhar do público”, entende o politólogo. 

Mas Gouveia e Melo parece só querer influenciar temas “confortáveis”. José Filipe Pinto não gostou de ouvir aqui o candidato: “O que me incomodou mais em toda a entrevista foi ele dizer, sempre que o assunto era um tema sensível, ou melindroso, que era responsabilidade do governo, do executivo.” Por outro lado, no discurso de Gouveia e Melo, também se entende uma “tentação” de influenciar as políticas do governo. Segundo o politólogo, há aqui uma “confusão de conceitos”. 

“É que não há na Constituição Portuguesa - já houve na Carta Constitucional, mas não há em nenhuma Constituição Portuguesa - o chamado poder moderador. Mas há a função moderadora, que é uma coisa completamente diferente. Ele tem de perceber isso melhor, preparar isso melhor. A função moderadora decorre de a ‘abelha-mestra’ conseguir gerir a colmeia, conseguir governar a colmeia, mas sem ter ‘ferrão’ algum. Em diversos momentos da entrevista percebemos uma negação da função moderadora. Um excesso de disciplina, uma imagem de apelo à ordem levada ao excesso - o que contradiz esta denominada função moderadora. Ele passou uma imagem de disciplina demasiado a tender para a autoritária.” José Filipe Pinto leu “autoridade”, por exemplo, quando Gouveia e Melo falou de “falta de cultura de organização” em Portugal. “A falta dessa cultura de organização não é suprida pela imposição de uma disciplina férrea, de uma ordem excessiva. Isso não cabe ao Presidente da República”, assegura. 

De novo em José Pedro Mozos, o especialista em comunicação política não saber dizer se “o não concretizar e o ser hesitante” do Almirante na entrevista é, afinal, “estratégia para salvaguardar as intenções de voto que parece ter em sondagens ou é alguma falta de conteúdo”. Seja uma coisa ou outra, “é importante conhecermos os seus limites e as suas prioridades”. Ainda não foi desta, garante. “Nesta entrevista não fiquei esclarecido. Portanto, é importante ele continuar a dar entrevistas, que é para se poder fazer um escrutínio e para começarmos a conhecer este candidato que é um favorito nas eleições sem nunca ter verdadeiramente falado de política numa entrevista anterior.”

"Ambiguidade do Almirante é a mesma estratégia de Ventura"

Henrique Gouveia e Melo, na entrevista à TVI e CNN Portugal, voltou a tentar distanciar-se da política partidária, da política tradicional, apresentando-se ao centro, “moderado”, longe de todos os extremos - à esquerda e à direita. Será mesmo assim esta antigo Chefe do Estado-Maior da Armada? Responde o especialista em comunicação política, a quem o discurso “anti-sistema” é algo familiar. “Ele joga bastante com essa ambiguidade, que é também a estratégia que André Ventura usa, curiosamente. Ou seja, ele tanto recusa o Chega, e diz estar no extremo em que ele não se revê, como depois passa a mão pelo pêlo dos eleitores do Chega. Mesmo quando ele se diz alguém pró-vida, ao mesmo tempo diz que há situações em que prolongar a vida é um ‘grande sofrimento’. É ambíguo. Quando ele diz que é alguém supra-partidário e, ao mesmo tempo, defende que Rui Rio era um reformista: é ambíguo. Quem quiser ouvir ali a parte de candidato fora do sistema, ouve; quem quer ouvir mais o candidato ‘moderado’, ouve.” 

Tanta ambiguidade, no entender de José Pedro Mozos, “às vezes pode ser frustrante - porque passa até como falta de ideias”. Uma ambiguidade bastante política, no entender do especialista nesta comunicação. “E relativamente estratégica. Porque ele necessita do eleitorado do ‘centrão’, mas também não pode descartar os votos dos menos moderados.”

Ambíguo em quase tudo menos na “questão-Marcelo”, como já antes nos referira José Filipe Pinto. Nas crítica ao Presidente, e para José Pedro Mozos, “acertar no totobola à segunda-feira é fácil”. E explica: “Dizer-se o que se tinha feito é bem mais fácil do que se comprometer com o que se vai fazer. Ele disse várias vezes que não ia comentar a presidência de Marcelo e acabou por comentar. Mas depois não quis sinalizar mais sobre situações futuras, o que fará lá à para frente, porque diz que isso é um grande ‘se’. Se quisermos ser mais ingénuos ou mais simpáticos na análise, eu acho só que ele aqui está a tentar manter várias pistas em aberto para ter maior flexibilidade de decisão no futuro.”

José Filipe Pinto viu na primeira entrevista do Almirante-candidato “uma pessoa a fazer uma transição”. Não totalmente transitado ainda. "As marcas da sua postura militar, da sua vivência militar, afloram com frequência no discurso. Ele tentou aqui apresentar-se como um moderado, apresentar uma essência de candidato moderado. Mas utiliza palavras - apesar de alguma contenção verbal, do já falado taticismo - que fogem à figura do moderado”, critica este politólogo. 

Critica construtivo. “Percebeu-se que o discurso era flutuante, entre momentos claramente preparados, claramente estudados, claramente ensaiados, em que a mensagem passou facilmente, e situações de ‘vagueza’ nas respostas, por não se sentir à vontade. E não se sente à vontade porque é, ainda, um Almirante à procura de ser um político. Ele ainda é, no fundo, uma grande, grande indefinição. Gouveia e Melo ainda tem grandes lacunas. Por tanto que diga que a palavra que o define é moderação, na verdade a palavra que o define é autoridade. A um Presidente não se pede tanta autoridade.”

José Pedro Mozos também entende que há ainda um “grande trabalho” de comunicação por fazer em Gouveia e Melo. “O que é que ele tem? Ele tem autoridade e tem popularidade. Ele precisa de mais do que autoridade e popularidade. Para já, continua vago, continua ambíguo, precisamente por ter percebido - e as últimas eleições demonstram precisamente isso - que as pessoas estão saturadas dos partidos tradicionais e dos líderes que estão há imenso tempo na política activa. Ele sabe que isso faz dele um candidato apetecível. Só que ele não tem muitas nuances e é importante que ele comece a construí-las, até para se diferenciar dos restantes.” 

Para Mozos não bastam “verdades de La Palice” - como quando diz, o Almirante, “que temos de regular a imigração”. É necessário "aprofundar pensamento”, aponta. “E não se pode estar constantemente, em temas que considera mais sensíveis, a escudar em ‘evidências’, em ‘há dados que comprovam’ - quando obviamente é também a opinião dele. Ele não pode ter medo de ter a sua opinião. Como dizia Mário Soares, ‘um político assume-se’. Gouveia e Melo não gosta de ser conotado com políticos, mas a partir de agora ele é um político mais. E é bom que se comece a assumir, a assumir as posições. Esta entrevista não foi propriamente eficaz nesse ponto. Ele, na verdade, sabe perfeitamente que sempre foi mais político do que o que disse ser. Ele sabe que o é.”

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