A Google foi adorada como empregadora durante anos. Depois despediu milhares por e-mail

CNN , Clare Duffy e Catherine Thorbecke
26 mar 2023, 21:00
Google (EPA)

Na manhã de 20 de janeiro, um funcionário da Google teve de ligar ao suporte técnico após ter recebido uma mensagem de erro invulgar quando tentou aceder remotamente ao seu ambiente de trabalho.

O chefe de outro funcionário estava de férias, pelo que não tinha ninguém a quem recorrer quando os rumores de despedimentos começaram a circular.

Um terceiro ainda estava a acordar para as exigências do filho pequeno quando o seu telefone começou a zumbir com mensagens de texto a perguntar: "Estás a salvo?"

Os três funcionários, que falaram com a CNN sob condição de anonimato, estavam entre os 12.000 trabalhadores despedidos pela Google nesse dia. Embora a extensão dos despedimentos tenha sido impressionante e, de longe, os maiores cortes na sua história, foi a forma como a situação foi tratada que surpreendeu muitos dentro e fora da empresa.

A Google, que durante anos foi classificada como a melhor empresa para trabalhar nos Estados Unidos, despediu milhares de trabalhadores por e-mail. E não apenas qualquer funcionário: veteranos de décadas na empresa, pelo menos um trabalhador de baixa médica e até mesmo uma funcionária que tinha acabado de dar à luz o seu segundo filho, foram todos despedidos, com poucas explicações. Os que sobreviveram aos despedimentos não sabiam quem tinha sido dispensado e os que foram despedidos não tiveram oportunidade de dizer adeus aos colegas ou de arrumar as suas secretárias, contaram os ex-funcionários à CNN.

Para muitos, a abordagem da Google aos despedimentos, embora não seja única, parecia desfasada da sua famosa cultura centrada nos trabalhadores. A Google tem sido durante anos o protótipo de empresa que coloca o bem-estar dos seus funcionários em primeiro lugar, um facto quase tão central para a sua imagem pública quanto o seu motor de busca. A empresa oferecia aos seus empregados grandes salários e regalias, desde paredes de escalada e refeições gourmet gratuitas até massagens no local de trabalho e cuidados infantis. A empresa envolveu o seu pessoal numa missão comum e encorajou-os a partilhar até mesmo pensamentos críticos no trabalho. Conhecida pelo seu mantra de longa data de "não ser mau" [Don't be evil no original, no sentido de não ser desonesto], a Google operava eficazmente com outro mote, possivelmente sinónimo, de "não ser corporativo".

Mas para alguns ex-funcionários afetados pelos despedimentos, os cortes foram apenas o exemplo mais recente de uma mudança cultural que dizem estar em curso na Google há anos. A cultura que valorizava a abertura e celebrava os trabalhadores tem sido cada vez mais testada e corroída por escândalos internos, greves, crescente escrutínio público, exigências empresariais e a realidade de que, apesar dos melhores esforços dos anteriores líderes, ou provavelmente devido a esses esforços, a Google tornou-se de facto numa empresa muito grande.

Em entrevista à CNN, mais de meia dúzia de atuais e ex-funcionários da Google, incluindo vários afetados pelos recentes despedimentos, descreveram uma empresa cuja cultura tem vindo a mudar muito, e subtilmente, ao longo dos anos, reduzindo benefícios, limitando o acesso a cargos de liderança e focando-se em negócios de curto prazo em vez de uma visão de longo prazo.

"No final do dia e, provavelmente, no início do dia, há uma devoção permanente às receitas e a um crescimento, aparentemente, interminável", disse à CNN outro trabalhador afetado pelos despedimentos em massa de janeiro. "E isto sem pensar no bem-estar dos empregados."

A Google é conhecida há anos pelas regalias dadas aos funcionários, como massagens, lavandaria, paredes de escalada e até creche, tudo nos escritórios. Peter DaSilva/Reuters

Para Margaret O'Mara, historiadora de tecnologia e professora na Universidade de Washington que escreveu sobre a evolução de Silicon Valley, os despedimentos da Google "refletem esse problema... de que a Google tornou-se numa empresa muito grande e, alguns dirão, burocrática". Esse crescimento torna "particularmente" difícil para a Google "manter [a sua imagem] do 'somos um capitalismo mais bondoso, mais gentil, mais centrado nas pessoas'".

Questionada pela CNN sobre os despedimentos, a Google remeteu esclarecimentos para a sua publicação de janeiro no blogue. A empresa descreveu os despedimentos como uma "decisão difícil de preparação para o futuro" num ambiente económico difícil, e pediu desculpa por "dizer adeus a algumas pessoas incrivelmente talentosas" que "lutou para contratar" e com quem "adorou trabalhar".

As mudanças na Google simbolizam a evolução no mundo tecnológico à medida que Silicon Valley amadurece e os seus fundadores, que desejavam fazer as coisas de forma diferente, foram pressionados a tranquilizar Wall Street ou foram substituídos por executivos de origens mais corporativas. Outras grandes empresas de tecnologia despediram milhares de trabalhadores nos últimos meses, muitos das suas divisões mais experimentais e inovadoras, à medida que a indústria se confronta com a realidade de que pode não ser capaz de continuar a crescer a uma velocidade vertiginosa para sempre. As empresas de tecnologia podem também estar a tentar recuperar alguma influência sobre os trabalhadores após anos em que mantiveram um poder significativo.

"Penso que a tecnologia talvez já não esteja imune", observou um ex-funcionário, acrescentando que os despedimentos marcaram "uma espécie de primeiro movimento, ou talvez o último movimento, da Google e de muitas outras empresas de tecnologia a tornarem-se um pouco mais normais".

"Muitos de nós, trabalhadores de base, estão confusos com o rumo da tecnologia", assumiu o ex-funcionário.

"Não é uma empresa convencional''

Quando Claire Stapleton entrou para a Google em 2007, era uma empresa relativamente nova e tinha acabado de chegar, pela primeira vez, ao topo da lista da Fortune das 100 melhores empresas para se trabalhar. Nos seus primeiros anos de Google, trabalhou em marketing e ficou conhecida como "O Bardo do Google" [numa referência a Shakespeare] pelos e-mails internos que enviava celebrando a cultura da empresa.

"Para mim, não foram os escorregas nem as paredes de escalada, nem o facto de reembolsarem o Wi-Fi, para mim foram as pessoas e eu preocupava-me com a missão e a sensação de que era muito criativa e livre", explicou Stapleton à CNN.

Claire Stapleton diz que a cultura da Google mudou muito desde que foi considerada a melhor empregadora dos EUA. Dina Litovsky/Redux

Os fundadores da Google, Larry Page e Sergey Brin, escreveram na sua primeira carta aos acionistas em 2004 que "a Google não é uma empresa convencional": "E não temos a intenção de nos tornarmos numa." Entre os princípios fundamentais da empresa estabelecidos nessa carta estava o de que "os funcionários, que se autodenominam Googlers, são tudo" e diziam ainda aos acionistas que iam "aumentar os benefícios [aos trabalhadores] em vez de os reduzirem ao longo do tempo".

A empresa enfatizou a mensagem de que os seus empregados faziam parte de uma missão maior para tornar o mundo um lugar melhor e mais inteligente. A Google tem sido conhecida por permitir que os trabalhadores usem 20% do seu tempo em projetos paralelos que ocasionalmente se tornam produtos reais. Os ex-funcionários mais antigos ainda se recordam de quando Page e Brin organizavam reuniões gerais semanais [com todos], conhecidas internamente como "TGIFs" [Thank God It's Friday ou Graças a Deus é sexta-feira, na tradução para português]. Outros ex-funcionários lembraram uma prática ainda em vigor para selecionar trabalhadores "Google-yness" [qualidade que define um trabalhador da Google], enquadrados na cultura de colaboração e abertura da empresa, durante entrevistas de emprego.

A Google preparou o terreno para uma onda de empresas de nova era que procuraram imitá-la com os seus pisos abertos, mesas de pingue-pongue no escritório e eventos de luxo. Mas muitos apontam 2015 como um ponto de viragem.

Em março desse ano, Ruth Porat, anteriormente diretora financeira da Morgan Stanley e uma das mulheres mais poderosas de Wall Street, tornou-se a diretora financeira (CFO) da Google. Meses mais tarde, Page e Brin anunciaram que Sundar Pichai assumiria o cargo de diretor executivo (CEO), e que a empresa seria reestruturada para separar a Google e outros projetos ambiciosos da empresa em subsidiárias da Alphabet. Foi também por esta altura que a Google retirou o "não sejas mau" do seu código de conduta, substituindo-o por "faz o que está certo".

"Contrata-se banqueiros e diretores financeiros de Wall Street e depois eles tendem a querer agradar a Wall Street, e afastam-se do que talvez os fundadores pretendiam", considerou um ex-funcionário afetado pelos despedimentos. Mas, acrescentou, os fundadores continuaram fortemente envolvidos na empresa, "por isso, também assinaram os despedimentos".

A transição da Google para a Alphabet abriu caminho para o enorme crescimento no preço das ações da empresa, mas também mudou a natureza do que significava trabalhar para a gigante tecnológica, apontou Cameron Rout, gestor de produto que se encontrava entre os despedidos de janeiro. De repente, muitos dos projetos mais ambiciosos foram transferidos para outras unidades de negócio.

"O problema foi que, de repente, não se trabalhava para uma empresa que enviava coisas para o espaço ou construía carros autónomos", disse Rout. A Google foi sempre, na sua essência, um negócio de publicidade, mas, disse, "havia uma identidade associada à Google onde as pessoas sabiam que se podia estar na equipa que fazia os carros".

A cultura e reputação da Google foram ainda mais desafiadas com uma série de acontecimentos em 2017 e 2018, quando os funcionários fizeram greves em massa para protestar contra o que diziam ser uma cultura de trabalho que fechava os olhos ao assédio sexual e à discriminação. Os funcionários da altura também levantaram preocupações sobre as relações comerciais da Google com os militares, o trabalho na China e acusações de que a empresa retaliava contra os trabalhadores que a criticavam.

Após as paralisações, a Google fez algumas mudanças positivas, incluindo o fim da mediação forçada das queixas de assédio sexual e de abuso dos funcionários. Mas também reprimiu ainda mais a transparência e abertura interna que tinha sido a sua marca, segundo Stapleton, que ajudou a organizar as greves e deixou a Google em 2019 depois de a empresa, alegadamente, ter retaliado contra si (a Google esclareceu na altura que uma investigação interna não encontrou provas de retaliação).

Stapleton, que agora escreve o boletim informativo Tech Support dirigido aos trabalhadores do setor, disse que "um dos principais pontos de viragem" foi quando a Google reduziu o acesso a documentos na sua intranet e a outros eventos da agenda dos trabalhadores, fazendo com que muitos só soubessem o que se passava após os protestos.

"Este é um grande exemplo da tensão... toda a gente tinha agendas que podiam ser vistas por outros", contou, lembrando "que ver a agenda de qualquer pessoa era quase uma mudança cultural, do género somos tão confiantes e abertos". "E então, de repente, eles reverteram esta decisão para proteger o poder."

Mais recentemente, dizem ex-funcionários, a Google tem eliminado benefícios materiais como massagens no escritório e orçamentos para viagens e reuniões externas. "Penso que muitos de nós esperavam que fosse suficiente manter os nossos empregos porque eles estavam a cortar todas estas despesas", assumiu um dos trabalhadores despedidos.

Mas o maior efeito tem sido a mudança de uma cultura que, em tempos, acolheu com agrado o feedback e as críticas dos funcionários.

Um ex-trabalhador, cuja função era trabalhar em várias equipas defendendo o bem-estar dos utilizadores e o equilíbrio na relação dos utilizadores com a tecnologia, ficou frustrado depois de ser repetidamente afastado e "cortado das conversas" e projetos, ao mesmo tempo que tentava também promover as práticas de bem-estar dos funcionários. O ex-trabalhador acabou por ficar de baixa por esgotamento.

E ainda estava de baixa quando em janeiro foi notificado de que tinha sido despedido.

Ansiedade e raiva após os despedimentos

A Google, tal como outras empresas tecnológicas que recentemente anunciaram despedimentos, colocou os cortes como uma necessidade económica.

A Alphabet aumentou a sua força de trabalho em mais de 50.000 funcionários nos últimos dois anos, à medida que a procura crescente dos seus serviços durante a pandemia aumentava os lucros. Mas em trimestres mais recentes, o principal negócio de publicidade digital desacelerou, pois o medo da recessão fez com que os anunciantes reduzissem os seus gastos.

"A empresa está a lidar com alguns desafios reais e temos um cenário macroeconómico que é, na melhor das hipóteses, incerto", observou Scott Kessler, da empresa de investimentos Third Bridge. A Alphabet, em fevereiro, registou um declínio acentuado nos lucros nos últimos três meses de 2022, e espera-se que os lucros voltem a cair ano no atual trimestre.

Apesar de alguma frustração com a forma como os despedimentos foram efetuados, a Google não abandonou totalmente o seu compromisso para com os funcionários no processo, defendeu Rout. Os funcionários americanos afetados receberam pelo menos 16 semanas de salário de indemnização, para além de outros benefícios, entre os pacotes mais generosos fornecidos a funcionários recentemente despedidos por gigantes tecnológicos.

Ainda assim, os despedimentos criaram insegurança e frustração entre os funcionários que permanecem na empresa, de acordo com atuais e ex-trabalhadores.

Centenas de funcionários da Google na Suíça fizeram greve na semana passada para protestar contra os despedimentos, em parte devido à frustração com a falta de transparência. Enquanto isso, nos Estados Unidos, centenas de trabalhadores juntaram-se ao sindicato dos trabalhadores da Alphabet (AWU, na sigla original) desde que os despedimentos foram anunciados, de acordo com Hayden Lawrence, engenheiro da Google e membro da AWU. Os trabalhadores que permanecem na empresa estão "zangados", disse Lawrence, e "com medo" que mais cortes possam estar a caminho, com poucas garantias de que um bom desempenho ou um contrato de longa duração os proteja.

"Há um mito na tecnologia em que muitas pessoas acreditam, que com uma boa ética de trabalho e um bom desempenho terá sempre emprego", afirmou Lawrence. "Mas penso que já vimos que não se pode confiar apenas em fazer o seu melhor individualmente, precisamos de trabalhar em conjunto e de nos organizar coletivamente."

Trabalhadores da Google em todo o mundo divulgaram no fim de semana passado uma petição apelando a um melhor tratamento dos despedimentos, incluindo pedidos para dar prioridade ao preenchimento de novos postos de trabalho com funcionários recentemente despedidos e respeitando as licenças parentais e outras licenças familiares. "Em lado nenhum a voz dos trabalhadores foi devidamente considerada, e sabemos que como trabalhadores somos mais fortes juntos do que sozinhos", diz a carta aberta a Pichai.

O aumento da sensação de insegurança não afeta apenas os trabalhadores individualmente; também corre o risco de eliminar o que resta da cultura interna original da Google. "Os danos são significativos", disse Rout. "É dolorosamente óbvio que o que quer que se ganhe valha o dano causado à cultura quando a cultura do Google é o seu recurso mais importante e todos sabem disso."

Ex-funcionários observaram que o conceito de "segurança psicológica" - que o antigo chefe de RH da Google, Laszlo Bock, afirmou ser fundamental para a cultura da empresa ao promover a colaboração e a partilha aberta de informação - fica comprometido quando os funcionários começam a preocupar-se se serão os próximos.

Membros do sindicato dos trabalhadores da Alphabet reunidos no exterior do escritório da Google em Nova Iorque, em janeiro, na sequência dos despedimentos. Centenas de novos funcionários aderiram ao sindicato desde os despedimentos. Ed Jones/AFP/Getty Images

"É como se a Google estivesse a dizer que já não se preocupa com os trabalhadores pela forma como executou os despedimentos e como fala em cortar regalias e esse tipo de coisas", disse Stapleton. Até mesmo relatos de que a Google pediu a alguns empregados para partilharem secretárias parece refletir essa mudança, disse. "É como se já nem sequer fosse considerada uma pessoa por inteiro na empresa. Era tão diferente antes."

Stapleton acrescentou que embora a Google continue quase certamente a ser um local desejável para trabalhar, como uma das empresas de tecnologia mais proeminentes do mundo, a atração para os funcionários pode agora ser mais sobre regalias materiais como o salário do que a criatividade e a camaradagem que outrora definiram a cultura da empresa. Por outras palavras, será vista como uma empresa mais convencional.

Cerca de um mês antes dos despedimentos de janeiro, um antigo empregado disse que a Google pintou "You Belong" [tu pertences, na tradução literal para português] numa das paredes da área de trabalho. Fazia parte de uma campanha interna para aumentar o moral dos funcionários.

"Lembro-me da primeira vez que o vi e pensei: 'isto é mesmo giro', adorei tanto o autocolante que o pus no meu próprio portátil", contou. Mas depois dos despedimentos a mensagem pareceu-lhe "uma piada de mau gosto".

"É como se dissessem que pertencemos aqui, mas também 12.000 de nós já não estão autorizados a estar sequer no campus", lamentou. "Houve alguma desconexão, alguma perda de comunicação sobre a empresa e a direção que estávamos a tomar."

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