«Mais cedo ou mais tarde vou dar o salto, não tenho dúvidas disso»

16 dez 2025, 00:46
Gonçalo Feio (Marcin Golba/NurPhoto via Getty Images)

Entrevista com Gonçalo Feio, treinador que saiu de Portugal para fazer Erasmus e se tornou um dos melhores na Polónia

Gonçalo Feio é um português mais conhecido na Polónia do que no próprio país. Saiu de Lisboa em 2012, para ir fazer seis meses de Erasmus, e nunca mais voltou. Ou antes, voltou, mas só para férias ou para visitar as pessoas de quem gosta.

Entretanto tornou-se uma figura mediática na Polónia, pelo sucesso que tem tido como treinador - ele que foi o primeiro a vencer em Inglaterra por uma equipa polaca -, mas também pela paixão que passa. Venha daí conhecê-lo melhor.

 

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Como é que foi a ambientação à Polónia?

Eu não tive assim histórias muito, muito complicadas. Já estava cá há muitos anos um grupo de portugueses, em que sobressaía um professor de línguas que é Nuno Bernardes, ele é do Algarve, e foi uma pessoa que me acolheu e me ajudou muito. Eu não aprendi polaco na escola, aprendi polaco no dia a dia, a ler relatórios, a falar com as pessoas, a ouvir as pessoas. Esse acolhimento que me deram foi fantástico e são coisas que eu tenho de agradecer imenso.

Já se sente um bocadinho polaco?

Eu tenho uma filha que nasceu na Polónia e a minha noiva, que dentro de poucas semanas vai passar ser minha mulher, é polaca. Ou seja, uma parte de mim, uma parte da minha família vai estar para sempre ligada à Polónia. Mas, com todo o respeito que eu tenho pela Polónia, eu sou português, tenho muito orgulho em ser português e a bandeira que eu quero levar comigo é a bandeira portuguesa.

Mas em casa, por exemplo, tem algum costume polaco?

Somos um casal muito europeu. A minha mulher já trabalhava no futebol antes de nos conhecermos, por isso a minha casa é uma casa de futebol. Viajamos muito por causa do futebol. Aliás, as nossas viagens são sempre ligadas ao futebol, mesmo quando vamos de férias, é para ver jogos. Por isso, somos uma casa muito europeia, em que as coisas não são muito diferentes do que seriam se vivêssemos em Portugal.

Para a sua mulher não deve ser fácil: depois de passar tantas horas no clube, ainda viaja para ver jogos...

Tenho a sorte de estar com uma mulher que, antes de mais, ama o futebol e, depois, compreende muito bem o que é a nossa profissão. Atenção, é algo que eu digo sem vergonha. Eu sou divorciado, esta já é a segunda relação na qual estou, e na minha relação atual existe uma compreensão grande do que é ser um treinador de futebol.

Ainda volta muitas vezes a Portugal?

Houve um período em que eu estive dois ou três anos sem ir a Portugal, o que é uma barbaridade. Mas lá está, no futebol nunca há férias, mesmo no off season há planeamentos, há scouting, há reuniões, há mil coisas para fazer. Eu estive dois ou três anos sem férias, o que acaba por não ser bom. Esta obsessão pelo trabalho não é boa. Agora, neste momento, eu tenho a obrigação - e o prazer, obviamente -, de visitar os meus pais, que já estão numa idade mais avançada. Infelizmente, os problemas de saúde já começam a ser mais acentuados e eu quero tomar conta deles, o que me obriga a ser uma pessoa mais presente. Eu estive muito ausente.

Mas foi uma escolha consciente?

É o custo, e é um custo que ninguém vê. As pessoas tendem a ver os bons momentos do que é ser um treinador, porque nós somos falados pelos feitos. Mas tenho a certeza, sem dúvida, que sou pior pai, pior filho e pior marido para ser melhor treinador. Sem dúvida. E isso dói.

Por outro lado, ajudou a evoluir jogadores que, entretanto, deram salto. Esse é um lado bom, que traz uma satisfação especial?

Eu numa das minhas apresentações, quando sou convidado a falar sobre a minha filosofia de liderança, tenho um slide que mostra a minha ideia de estar no futebol e na vida: ‘Alcançar os meus objetivos, ajudando outras pessoas alcançar os deles’. Eu tenho consciência que mais cedo ou mais tarde me vou dar o salto. Tenho uma cláusula de rescisão que também me permite isso, uma cláusula de rescisão acessível, por isso mesmo: para ter essa perspetiva de carreira, com todo o respeito, obviamente, pelo compromisso que tenho atualmente.

Ver um jogador seu dar o salto tem o sabor de uma vitória?

São títulos, honestamente. Por exemplo, Maxi Oyedele - um menino que não era da nossa academia, veio das camadas de formação do Man. United -, no fim da primeira época a nível profissional saiu por seis milhões de euros para o Estrasburgo. O Ziolkowski, um menino de 2005, esse sim, da nossa academia, não tinha nenhum jogo pela equipa principal e saiu ao fim de um ano para a Roma por seis milhões. O Morishita, um jogador com 28 anos que nunca tinha jogado seleção japonesa, fez 14 golos e 14 assistências, foi convocado para a seleção japonesa e cumpriu o sonho dele, que era jogar em Inglaterra, hoje está no Blackburn Rovers. No Legia lançámos 12 jogadores da formação, quatro dos quais são agora titulares. Isso é o mérito dos jogadores e do trabalho que fazem, claro, mas também é mérito nosso, da equipa técnica, pelo desenvolvimento que lhes proporcionamos.

Alguma vez lhe passou pela cabeça se teria chegado ao nível a que chegou no caso de, em vez de ter escolhido a Polónia para fazer o Erasmus, tivesse escolhido a Ucrânia ou a Alemanha, que também estiveram em cima da mesa?

Os alicerces com que eu construí este caminho foram honestidade e trabalho, porque, claro, eu não conhecia ninguém. Não foi por amizades. Foi trabalho, ética, compromisso, coerência e competência, em conjunto com um índice de trabalho muito alto, porque honestamente acho que o meu maior talento é a capacidade de trabalho: sou capaz de trabalhar muito, muito tempo e de forma consistente. Portanto, respondendo diretamente à sua pergunta, noutros contextos possivelmente poderia demorar mais, mas os alicerces do caminho que percorri são os certos. E não duvido que vou chegar lá, vou chegar à paragem final.

E qual é a paragem final?

Eu quero chegar à Premier League. A partir dai, tenho uma paixão muito grande pelas competições europeias e quero lutar por ganhar uma competição europeia. O top, para mim, é isso: a Premier League e uma competição europeia. Mas este jogo nunca acaba e, se conseguir isso, vou continuar. Vou querer mais, e mais, e mais.

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