Golfinhos "gritam" para abafarem o barulho que nós fazemos

13 jan, 09:51
Golfinhos (Jaime Chirinos/Universidade de Zurique)

 

 

Aumento da poluição sonora subaquática faz com que animais tentem encontrar formas para comunicar. No entanto, nem sempre o conseguem e um estudo revela agora que a poluição sonora humana pode ter impacto na vida marinha

Os golfinhos mostram comportamentos semelhantes aos dos humanos quando se encontram em locais com muito barulho, revela um estudo publicado na revista Current Biology. De acordo com Pernille Sørensen, autor do estudo e estudante da Universidade de Bristol, os golfinhos têm tendência a "gritar" para abafar o barulho de fundo quando estão em ambientes barulhentos.

"Num pub muito barulhento vemo-nos a aumentar o volume da nossa voz. Os golfinhos respondem de forma semelhante - tentam compensar, mas há alguns mal-entendidos", afirmou Pernille Sørensen, estudante de pós-graduação e primeiro autor da investigação, citado pelo The Guardian.

O resultado do estudo revela ainda que o ambiente com ruído torna a comunicação entre os animais mais difícil, o que aumenta a preocupação com o impacto da poluição sonora humana na vida marinha.

O estudo envolveu um casal de golfinhos, Delta e Reese, e analisou a sua capacidade de cooperar num ambiente ruidoso. Os animais eram obrigados a trabalhar em conjunto, sendo-lhes pedido que pressionassem um botão subaquático colocado numa extremidade de uma lagoa com a diferença de um segundo um do outro. Para isso, foram libertados de um ponto de partida durante cada ensaio, e em alguns ensaios um dos golfinhos foi retido durante cinco a 10 segundos, o que significava que os golfinhos tinham de confiar apenas na comunicação vocal para se coordenararem para pressionar o botão.

Conforme o barulho ia sendo aumentado, graças a um altifalante colocado dentro de água, ambos os golfinhos começaram a compensar o barulho ao aumentarem o volume e a duração dos seus gritos. No entanto, não conseguiram compensar totalmente.

De acordo com a investigação, dos níveis mais baixos aos mais altos de ruído, a taxa de sucesso dos golfinhos em abafar o barulho diminuiu de 85% para 62,5%.

Perante a perturbação, os animais mudaram ainda a sua linguagem corporal, reorientando-se para colocarem frente a frente com mais frequência durante os níveis de ruído mais elevados e nadaram ainda ao longo da lagoa para estarem mais próximos uns dos outros.

"Apesar das tentativas para compensar, apesar de estarem altamente motivados e do facto de conhecerem tão bem esta tarefa cooperativa, o ruído ainda prejudicou a sua capacidade de se coordenarem com sucesso", considerou Sørensen, explicando que os níveis de ruído mais elevados a que os golfinhos foram expostos eram comparáveis aos que por vezes são experimentados em ambientes marinhos durante a navegação e perfuração.

O som viaja 4,5 vezes mais rápido através da água do que através do ar, o que significa que muitos organismos marinhos evoluíram para confiar nos sons para conseguirem pistas importantes de navegação, procurar alimentos, evitar predadores e permitir a comunicação. Enquanto alguns peixes e invertebrados ouvem sons a baixa frequência, os cetáceos (golfinhos e baleias) podem ouvir frequências muito altas (até 200Hz) e usar o sonar ativo para detectar objetos

No entanto, o aumento do ruído subaquático tem estado ligado a encalhamentos, doenças de descompressão e mudanças de comportamento dos animais. 

"As mesmas razões que tornam o som tão vantajoso para os animais o utilizarem, também os torna susceptíveis a perturbações causadas pelo ruído no mesmo ambiente", afirma Sørensen.

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