Cuidado com as gluteoplastias (ou bumbum brasileiro) promovidas nas redes sociais

CNN , Daniel Chang, Kaiser Health News
5 mar 2023, 12:00
Para uma gluteoplastia, é retirada gordura de outras áreas do corpo, que é depois injetada nas nádegas. Ronstik/Adobe Stock

Olhando para trás, Nikki Ruston admite que devia ter reconhecido os sinais de alerta.

O consultório em Miami onde tinha programado fazer o procedimento conhecido como “Brazilian Butt Lift” (também chamado de "BBL","Bumbum brasileiro" ou "Gluteoplastia") encerrou e transferiu os seus registos para um local diferente. O preço que lhe indicaram - e que pagou adiantadamente - aumentou no dia da cirurgia e ela só conheceu o cirurgião quando estava a ser preparada para a anestesia geral.

"Eu estava pronta para me ir embora", disse Ruston, de 44 anos, de Lake Alfred, na Florida. "Mas eu já tinha pago tudo."

Alguns dias depois do procedimento, feito em julho, Ruston foi hospitalizada devido a uma infeção, com perda de sangue e náuseas, como mostram os seus registos médicos.

"Escolhi o mais barato. Foi o que aconteceu", recordou Ruston recentemente. "Pesquisei pelo preço mais baixo e encontrei-o no Instagram."

Pessoas como Ruston são normalmente atraídas para centros cirúrgicos no sul da Florida através do marketing das redes sociais que, enganosamente, dão a entender que a cirurgia de aumento das nádegas, bem como outros procedimentos estéticos, são indolores, seguros e acessíveis, alertam  investigadores, defensores dos pacientes e grupos de cirurgiões.

Ao contrário dos hospitais e centros de cirurgia ambulatória, onde um paciente pode passar a noite em observação após o tratamento, estes consultórios oferecem procedimentos que não requerem, por norma, hospitalização e estão regulados como uma extensão da prática privada de um médico.

Mas esses consultórios de cirurgia são muitas vezes propriedade de empresas que oferecem preços com desconto por contratarem cirurgiões que recebem incentivos para operar o maior número de pacientes por dia, no menor tempo possível, de acordo com reguladores estatais e médicos que criticam estes estabelecimentos.

Ruston conta que vive com dores constantes, mas a outras pacientes o "BBL" custou a vida. Depois de várias mortes, e na ausência de normas, os reguladores da Florida foram os primeiros no país a promulgar, em 2019, regras destinadas a tornar estes procedimentos mais seguros. Mais de três anos depois, os dados mostram que ainda ocorrem mortes.

Os defensores dos pacientes e alguns cirurgiões - incluindo os que realizam este procedimento - antecipam que o problema vai piorar. As restrições de emergência impostas em junho pelo conselho médico do Estado expiraram em setembro, e o modelo empresarial corporativo popularizado em Miami está a alastrar-se a outras cidades.

"Estamos a ver empresas com sede no sul da Florida e com uma forte presença na cirurgia estética de alto risco e baixo custo a estabelecerem-se noutras zonas do país", alertou Bob Basu, vice-presidente da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos e médico em Houston.

Numa gluteoplastia, a gordura é retirada por lipoaspiração de outras zonas do corpo – como tronco, costas ou coxas - e injetada nas nádegas. Mais de 61.000 procedimentos de aumento de glúteos, tanto liftings como implantes, foram realizados em todo o país, em 2021, um aumento de 37% em relação ao ano anterior, de acordo com dados da Aesthetic Society, um grupo empresarial de cirurgiões plásticos.

Como em todas as cirurgias, podem ocorrer complicações. O médico legista do condado de Miami-Dade documentou quase três dúzias de mortes de pacientes em cirurgias estéticas desde 2009, das quais 26 se deveram a gluteoplastias. Em todos os casos, as vítimas morreram de embolia pulmonar, quando a gordura entrou na corrente sanguínea através das veias dos músculos dos glúteos, impedindo o fluxo de sangue para os pulmões.

Nenhum sistema de informação nacional ou código de seguradora rastreia os resultados ou dados demográficos do paciente para uma gluteoplastia. Cerca de 3% dos cirurgiões em todo o mundo registaram a morte de um paciente como resultado do procedimento, segundo um relatório de 2017 de um grupo de trabalho da Aesthetic Surgery Education and Research Foundation 

Especialistas médicos afirmam que o problema se deve, em parte, ao facto de profissionais médicos, como assistentes e enfermeiros, realizarem algumas fases do procedimento, em vez de médicos. É também impulsionado por um modelo de negócio orientado para o lucro, e não para a segurança, e incentiva os cirurgiões a excederem o número de cirurgias descritas nos seus contratos.

Em maio, depois da morte do quinto paciente em vários meses por complicações no condado de Miami-Dade, o médico Kevin Cairns propôs a regra de emergência do Estado para limitar o número de cirurgias que um cirurgião poderá realizar por dia.

"Eu estava cansado de ler sobre mulheres a morrerem e ver os casos a chegarem ao conselho", disse Cairns, médico e antigo membro do conselho médico da Florida.

Alguns médicos chegavam a realizar até sete por dia, de acordo com os processos disciplinares aplicados a cirurgiões, processados pelo Departamento de Saúde da Florida. A regra de emergência limitou-os a um máximo de três, e exigiu a realização de uma ecografia para ajudar a reduzir o risco de embolias pulmonares.

Mas um grupo de médicos que realizam este tipo de procedimento no sul da Florida criou a Surgeons for Safety. Argumentaram que os novos requisitos iriam piorar a situação e que os médicos qualificados teriam de fazer menos cirurgias, o que levaria os pacientes a procurarem profissionais médicos que não cumprem as regras.

Desde então, o grupo doou mais de 320.000 Euros ao Partido Republicano, a candidatos republicanos e a comités de ação política republicana, de acordo com dados de contribuições de campanhas do Departamento de Estado da Florida.

A Surgeons for Safety recusou os repetidos pedidos de entrevista da KHN. Embora o presidente do grupo, Constantino Mendieta, tenha escrito num editorial em agosto que admitia que nem todos os cirurgiões tinham seguido as práticas de segurança, ele apelidou os limites impostos de "arbitrários". A regra estabelece "um precedente histórico de controlo dos cirurgiões", disse durante uma reunião com o conselho médico da Florida.

Em janeiro, a senadora republicana da Florida, Ileana Garcia, apresentou um projeto de lei que propõe que não exista qualquer limite no número de gluteoplastias que um cirurgião pode realizar por dia. Em vez disso, pede que os locais onde se realizam os procedimentos tenham um médico por paciente e proíbe os cirurgiões de trabalharem com mais do que uma pessoa de cada vez.

O projeto de lei também permitiria aos cirurgiões delegar algumas partes do procedimento a outros médicos sob a sua supervisão direta, e o cirurgião teria de utilizar um ultrassom.

O governo da Florida reúne-se na próxima terça-feira.

As pessoas que estão a considerar fazer procedimentos estéticos devem ser cautelosas. Tal como Ruston, muitas baseiam as suas escolhas em fotos de antes e depois e em vídeos de marketing publicados em redes sociais como Facebook, Snapchat e Instagram.

"É muito perigoso", disse Basu, da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos. "Ficam entusiasmadas com o preço baixo e esquecem-se de tomar precauções", considerou.

O preço médio de um aumento dos glúteos nos Estados Unidos, em 2021, era 3.800 euros, segundo dados da Aesthetic Society. Mas isso é apenas para os honorários do médico e não cobre a anestesia, o bloco operatório ou sala de cirurgia, receitas médicas e outras despesas. Uma gluteoplastia "segura", realizada num estabelecimento credenciado e com cuidados pós-operatórios adequados, custa entre 11.000 e 17.000 euros, de acordo com um artigo recente publicado no site da Sociedade Americana de Cirurgiões Plásticos.

Apesar de a Florida exigir uma licença médica para realizar uma lipoaspiração sob anestesia geral, é aceite na medicina que médicos de nível médio, tais como assistentes ou enfermeiros, realizem o procedimento num consultório, segundo Mark Mofid, coautor do estudo do grupo de trabalho da Aesthetic Surgery Education and Research Foundation, em 2017.

Ao depender de pessoal que não tem a mesma formação da especialidade e a quem se paga menos, os cirurgiões em consultório podem realizar mais cirurgias por dia e cobrar um preço mais baixo.

"Estão a fazê-lo ao mesmo tempo em três ou quatro salas diferentes, a cargo de um único cirurgião", disse Mofid, um cirurgião plástico de San Diego, que acrescentou que não realiza mais do que uma por dia. "O cirurgião não está a fazer as cirurgias. São os assistentes", critica.

Basu referiu que os pacientes devem informar-se se o seu médico tem licença para realizar o mesmo procedimento num hospital ou centro de cirurgia ambulatória, com regras mais apertadas que nos consultórios, sobre quem pode realizar gluteoplastias e como devem ser feitas.

As pessoas que procuram pechinchas devem ser lembradas que a cirurgia estética pode trazer riscos graves, como coágulos, infeção e perfuração de órgãos ou problemas de rins, coração e pulmões.

A cirurgia de Ruston foi realizada por um cirurgião plástico certificado que encontrou no Instagram. Foi-lhe inicialmente pedido 4.700 euros, que ela diz ter pago na totalidade antes da cirurgia. Mas quando chegou a Miami, a clínica adicionou taxas pela lipoaspiração, pelo vestuário e por aparelhos pós-cirúrgicos.

"Acabei por ter de pagar uns 7.500 euros", indicou Ruston. Alguns dias depois de ter regressado a casa, em Lake Alfred, começou a sentir-se tonta e fraca e ligou para o 911.

Os paramédicos levaram-na para uma sala de urgências, onde os médicos a diagnosticaram com uma anemia, devido a perda de sangue, e infeções sanguíneas e abdominais, como mostram os seus registos médicos.

"Se pudesse voltar atrás", assumiu, "não teria feito".

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