opinião
Desde que ingressou na Media Capital, em 1999, o jornalista da TVI já foi Diretor, Editor, Apresentador e Repórter nos vários canais de Rádio e Televisão.

Globos de Plástico?

8 jan, 13:00

O silêncio tem sempre algum encanto, mas, no caso dos prémios anuais da Associação da Imprensa Estrangeira de Hollywood, pode ser fatal. Pela primeira vez na história destes prémios de Cinema e Televisão, os nomeados não reagiram às nomeações, os estúdios demarcaram-se do evento, a NBC cancelou a transmissão televisiva e nenhuma grande celebridade aceitou participar na apresentação.

Está dada a resposta à aparente incapacidade dos organizadores para lidar com problemas sérios que vão desde o racismo e sexismo na admissão de novos membros à falta de ética no processo de nomeações. Nada que tivesse passado ao lado do debate interno nos últimos anos, mas que só uma investigação do Los Angeles Times em fevereiro de 2021 expôs publicamente, forçando algumas reformas para garantir mais transparência, diversidade e inclusão. Tarde demais?

Todas as iniciativas anunciadas nos últimos meses foram recebidas com uma desconfiança generalizada que entretanto se transformou em indiferença politicamente correta. Estar na corrida aos Globos de Ouro deixou de ser importante, prestigiante, desejável; passou a ser simplesmente irrelevante e até inconveniente. Sim, claro que a responsabilidade é da associação que os promove há quase 80 anos, mas não só.

É bom lembrar que algumas das práticas que hoje são intoleráveis foram altamente patrocinadas pelos estúdios e aceites sem reservas pelos atores, produtores e realizadores nomeados ao longo das últimas décadas. Logo, se os Globos de Ouro agora valem tanto como globos de plástico, é porque Hollywood inteira permite que isso aconteça, sem perceber ou reconhecer como a hipocrisia também mata, mesmo lentamente.

Prémios transparentes baseados no mérito serão sempre os melhores de todos, mas, para garantir que eles existam e sejam respeitados, era bom que todos os intervenientes assumissem as suas responsabilidades numa indústria que também vive do e para o show off destas celebrações espetaculares. Tom Cruise devolveu à procedência os três Globos que ganhou ao longo da carreira. É uma decisão legítima, mas muda alguma coisa?

Com o “cancelamento cultural” dos Globos de Ouro, a lista deste ano quase passou despercebida. No segmento televisivo, “Sucession” da HBO é a série mais nomeada; está em cinco categorias. Com sete nomeações cada, “Belfast”, de Kenneth Branagh (estreia nacional a 24 de fevereiro) e “The Power of the Dog”, de Jane Campion (disponível na Netflix) são os filmes favoritos. Mesmo sem cobertura mediática, the show must go on. Mas, infelizmente para todos os talentos que merecem ser aplaudidos, vai parecer uma reunião de condomínio.

Opinião

Mais Opinião

Patrocinados