Com dez nomeações, o filme realizado pelo francês Jacques Audriard está na linha da frente para os prémios que são entregues este domingo à noite em Los Angeles
"Nunca tinha recebido um prémio antes, e seguramente não desta forma; a única coisa que recebi até aqui foram pontapés". Num discurso emocionado, quando recebeu no Festival de Cinema de Cannes o prémio pela sua interpretação em "Emilia Pérez", Karla Sofía Gascón lembrou o sofrimento de todos os transexuais que se confrontam com comentários de ódio: "Todos temos oportunidade de mudar para melhor, de ser melhores pessoas. Então, a ver se melhoram, cabrões", lançou, limpando as lágrimas.
Depois de ser a primeira pessoa trans premiada em Cannes e de estar nomeada para mais uma mão cheia de galardões, Karla Sofía Gascón, de 52 anos, pode continuar a fazer história se esta noite ganhar um Globo de Ouro pela sua interpretação de Manitas, um traficante mexicano que se transforma em Emilia Pérez, uma empresária de sucesso.
Realizado pelo francês Jacques Audriard, "Emilia Pérez" é o filme com mais nomeações para esta edição dos Globos de Ouro, competindo nas categorias de melhor filme de comédia ou musical e melhor filme em língua estrangeira. Zoe Saldaña, como a advogada Rita Mora Castro, e Selena Gómez, que interpreta a mulher de Manitas, Jessi del Monte, estão nomeadas para o prémio de melhor atriz secundária.
A cerimónia acontece esta noite, em Los Angeles (a partir das 01:00, hora de Lisboa).
Veja aqui a lista de todos os nomeados aos Globos de Ouro
Nascida em 1972 em Alcobendas, na região de Madrid, Espanha, como Carlos Gascón, estudou interpretação na Escola de Cinema de Madrid e começou a carreira no final da década de 1980, com um papel em "El águila de fuego", uma revista musical. Participou nas séries de televisão "El súper", "El pasado es mañana" e "Calle Nueva". À procura de novos horizontes profissionais, mudou-se para o México em 2009, onde entrou na telenovela "Corazón salvaje". Seguiram-se vários papéis de galã até ao seu grande sucesso, em 2013, como um dos protagonistas em "Nosotros los nobles", o filme com maior receita de bilheteira do cinema mexicano, o que lhe abriu a porta para séries de mais prestígio, como a premiada "El señor de los cielos".
Para grande surpresa das fãs, Gascón iniciou a sua transição em 2018, em Espanha. Pouco depois, regressou ao México e participou na edição local do MasterChef Celebrity e na série “Rebeldes”. Entretanto, publicou um romance semiautobiográfico, "Karsia: una historia extraordinaria", e continuou a sua carreira, agora como atriz.
No dia em que Karla Sofía Gascón ganhou o prémio em Cannes, a política francesa de extrema-direita Marion Maréchal, neta do fundador da Frente Nacional, Jean-Marie Le Pen, publicou no X: “Então um homem ganhou o prémio de melhor atriz. O progresso para a esquerda significa o apagamento das mulheres e das mães.” Gascón decidiu processá-la. "Temos de acabar com estes comentários”, disse ao The Guardian o seu advogado, Etienne Deshoulières, explicando que foi apresentada uma queixa por “insulto sexista com base na identidade de género”.
O México e a transição de género não são as únicas coisas que Gascón tem em comum com a personagem que interpreta no drama musical “Emilia Pérez”. Tal como na ficção, na realidade a atriz também tem uma mulher, Marisa, que conheceu quando tinha 19 anos, e com quem teve uma filha, agora com 13 anos. Mas ao contrário do que acontece no filme, Karla Sofía Gascón continua com a sua família. São elas, a mulher e a filha, "que aguentam as minhas loucuras todos os dias", disse no discurso em Cannes.
Jacques Audiard revelou que o plano inicial era que Manitas fosse interpretado por um ator, sendo Gascón apenas Emilia. Foi a atriz que o convenceu de que ela própria também lhe deveria dar a vida. Passado em grande parte na atual Cidade do México, a história segue Rita, uma advogada problemática que é contratada pelo poderoso traficante de droga Manitas para que o ajude a realizar clandestinamente uma cirurgia de reafirmação de género: uma maneira de conseguir ser quem realmente é e, ao mesmo tempo, encenando a morte de Manitas, resolver algumas das complicações relacionadas com o tráfico. “Quero ser mulher”, diz o enorme homem, um traficante temido e violento, de voz grossa. Ao princípio não conseguimos imaginar tal transição, mas quando aparece, já como Emilia, revela-se uma mulher esplendorosa e que, deixando o passado para trás, acaba por demonstrar ter um bom coração.
"Emilia Perez" estreou-se em novembro Portugal. Em Cannes, o musical com tons telenovelescos ambientado no submundo do tráfico e da violência ganhou o prémio do Júri e também o de Melhor Actriz - entregue coletivamente às suas quatro estrelas, Zoe Saldaña, Karla Sofía Gascón, Selena Gomez e Adriana Paz. Apesar de maioritariamente falado em espanhol, é candidato pela França ao Óscar de Melhor Filme Internacional.
