Estamos à beira do "pior cenário de todos, o fim da globalização": Trump assustou o mundo

3 abr 2025, 18:47
Ativistas elaboraram um balão que representa a Terra e decoraram-no com o cabelo e as sobrancelhas de Donald Trump (Sean Gallup/Getty Images)
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Pode estar tudo prestes a mudar depois de um anúncio sem precedentes

Com um quadro na mão, Donald Trump anunciou a imposição de "tarifas recíprocas" a uma lista de mais de dezenas de países. O grande alvo foi a China, mas países como a Índia, Japão e Coreia do Sul não escaparam. Nem mesmo a União Europeia, que vai ver uma taxa alfandegária de 20% para os seus produtos. Só que o "dia da libertação", como o presidente dos Estados Unidos apelidou este 2 de abril, arrisca não só acabar com a dependência norte-americana do comércio mundial, mas também arrisca colocar em causa o modelo de comércio global aberto que marcou as últimas décadas.

"Penso que podemos estar perante o fim da globalização como a conhecemos. Neste momento, estamos a assistir aos EUA a isolarem-se do resto do mundo do ponto de vista económico. Se o resto do mundo não preservar entre si o comércio global e começarem a fechar por si próprios e a impor tarifas a outros países, é o fim da globalização. Este é o pior cenário de todos", alerta Pedro Braz Teixeira, diretor do gabinete de Estudos do Fórum para a Competitividade.

A globalização, caracterizada pela integração económica, livre circulação de bens, serviços e capitais, e redes de fornecimento complexas, foi impulsionada em grande parte pelos Estados Unidos após a Segunda Guerra Mundial. As políticas de tarifas alfandegárias de Trump, com taxas de 25% sobre aço e alumínio, um mínimo de 10% sobre importações gerais de diversos países e tarifas recíprocas que chegam a 34% contra a China enviam um sinal claro de que o protecionismo está de volta e o sistema da globalização pode estar prestes a fragmentar-se.

Donald Trump justifica a decisão com o que diz ser a necessidade de proteger a indústria americana, equilibrar a balança comercial e trazer de volta empregos para os EUA. A medida pode até levar muitas empresas a querer transportar a produção para os EUA, trazendo empregos. Mas isso poderá também levar a uma queda da economia mundial e levar vários países a tentar diversificar as suas economias ao máximo de forma a evitar dependências dos EUA.

"Trump está a cumprir aquilo que prometeu e, nesse sentido, está a ser coerente. O primeiro impacto para a economia norte-americana será obter uma maior receita para pagar as suas promessas. Do ponto de vista económico, pode captar investimento estrangeiro, mas a decisão pode ser uma bomba relógio que vai afundar a economia mundial", refere o economista Ricardo Ferraz, investigador no ISEG e professor na Universidade Lusófona.

Só que dificilmente a guerra comercial dos EUA com o mundo ficará por aqui. Vários países, como o Canadá ou a China, já anunciaram a sua vontade de retaliar. A União Europeia já disse, através da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que está pronta para "uma guerra comercial". Estas medidas podem levar a uma retaliação ainda maior dos EUA, algo confirmado em março pelo secretário do Tesouro norte-americano, Scott Bessent. A entrada numa guerra comercial, alertam os economistas, pode levar a aumentos dos custos para os consumidores e à redução do poder de compra, um pouco por todo o mundo. 

"Se persistirem, vejo uma queda muito significativa em relação ao comércio. Em termos de crescimento económico, vai haver um período inicial muito complicado, de adaptação. Mas a partir do momento em que há reconfiguração, ela volta a crescer, mas depois cresce menos. As economias crescem sempre mais quando são abertas", insiste Pedro Braz Teixeira.

Apesar da grande influência norte-americana na economia mundial, a globalização não depende exclusivamente de Washington. Mesmo que Trump consiga deslocar algumas indústrias para solo americano, a interdependência econômica global dificulta uma reversão total. Para Ricardo Ferraz, mais do que o fim de uma era, o cenário mais provável é um mundo mais fragmentado, com mais entraves às relações comerciais, mas a globalização deve continuar. 

"Protecionismo não vai acabar com a globalização, mas vai criar entraves entre as relações e à globalização. Na prática, o comércio internacional vai abrandar, os produtos ficam mais caros, vamos comprar menos aos EUA e os EUA compram menos a nós. Vamos ter um impacto negativo no comércio internacional. Mas a globalização veio para ficar", garante Ricardo Ferraz.

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