Acordo entre EUA e Irão parecia estar "amplamente negociado" mas "alguma coisa" voltou a paralisar todo o processo. Paulo Portas justifica a viragem para a diplomacia de Donald Trump e dá conta de uma "derrota" do presidente norte-americano que passou "despercebida". Na Ucrânia, "as coisas estão mal" para Vladimir Putim, que já "perdeu mais do que ganhou"
Paulo Portas não tem dúvidas de que “alguma coisa aconteceu entre ontem e hoje que não permitiu” o verdadeiro início das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irão, numa altura em que o acordo já estaria “amplamente negociado”, segundo Donald Trump.
“Ontem parecia haver um acordo sobre quase todos [os pontos], hoje, dizem os iranianos, os americanos decidiram rever a sua posição sobre metade desses pontos”, afirma o comentador da TVI (do mesmo grupo da CNN Portugal), no seu espaço de comentário semanal, o Global, referindo-se ao memorando de entendimento que está agora em cima da mesa.
Este domimgo, Paulo Portas começou por analisar a viragem do presidente dos EUA em direção à diplomacia, apesar da retórica agressiva contra Teerão.
“Trump começou a fazer uma viragem para a via diplomática, primeiro, porque não tem solução militar, porque os países árabes o pressionaram para tentar chegar a acordo, uma vez que eles próprios subavaliaram a capacidade que o Irão tinha de os atingir, e, em último ou talvez primeiro lugar, pela frente interna”, enumera Portas, alertando para algo que “passou despercebido”.
É que o presidente norte-americano teve esta semana a “primeira derrota sobre a guerra no Senado”. “Nesta última votação a maioria reverteu. Em vez de ter maioria 53/47, perdeu por 50/47”, completa, relembrando que a desaprovação da guerra tem crescido cada vez mais entre os legisladores e que as eleições intercalares estão mesmo aí à porta. Tanto que as sondagens para o ato eleitoral “começam a dar vantagem mais destacada aos democratas”, remata o comentador.
“Ele está a arriscar muito. Meteu as fichas todas neste assunto, julgou que o Irão era a Venezuela, ninguém lhe explicou que já foi a Pérsia e meteu-se num labirinto que não tem saída militar”, sublinha.
Mesmo com uma vontade acrescida para fechar um acordo com o regime iraniano, uma vitória de Trump parece estar distante, já que o que está a ser discutido “não é uma capitulação do Irão”: “Se fosse, já tínhamos percebido.”
Entre o programa nuclear iraniano, a entrega do urânio enriquecido e os ativos congelados, o comentador da TVI acredita que o memorando em discussão tenha uma “previsão de reabertura progressiva do Estreito de Ormuz”, o que, diz, “é um bem para a humanidade e para todas as economias”.
“É também um bem para o Irão, que não consegue exportar, e para os EUA que estão a pagar um preço caríssimo nas estações de serviço”.
Quem não parece ver esta via diplomática com bons olhos é Benjamin Netanyahu, que teve uma conversa de “elevada tensão” com Donald Trump este sábado. Para Paulo Portas existe uma justificação clara que explica o aparente descontentamento do primeiro-ministro israelita.
“Netanyahu quer a continuação da guerra, porque - e apenas ele - precisa de uma guerra permanente para poder ganhar as eleições que têm de ser feitas até outubro”, explica, acrescentando que uma solução diplomática que tente manter na paz a questão do Líbano e de Israel “pode danificar a sua estratégia”.
"Putin já devia ter percebido que não quebra a resistência dos ucranianos"
Depois de uma noite marcada por uma ofensiva “maciça” russa contra Kiev, Portas afirma, no entanto, que as coisas na Ucrânia “estão mal para o líder russo”. Recorde-se o objetivo de Vladimir Putin de tomar a Ucrânia “em sete dias”: “Passaram-se quatro invernos e as conquistas territoriais são mínimas.”
O comentador da TVI acredita que Moscovo “já perdeu mais do que ganhou” desde o início do conflito em 2022 e dificilmente conseguirá dar a volta à situação. “Putin já devia ter percebido que não quebra a resistência dos ucranianos”, conclui.
