Paulo Portas considera o plano de “paz” norte-americano para a Ucrânia inaceitável para o ocidente, sendo que “premeia a Rússia por ter invadido e conquistado” e deixa a fatura da insegurança para a Europa
Paulo Portas não deixa margem para dúvidas sobre o chamado plano de paz norte-americano para a Ucrânia: "Não é aceitável, porque a Rússia é premiada por ter invadido e conquistado", e a proposta arrisca transformar uma derrota ucraniana num problema de segurança para a Europa. No seu habitual espaço de análise, no Jornal Nacional da TVI, o comentador sublinha que a obrigações às quais a Ucrânia ficaria submetida "não têm comparação" com aquelas que são determinadas para Moscovo.
"A Rússia, neste documento, ganha território, ganha energia, ganha parte dos ativos que estavam congelados, volta à economia global, como se isso acontecesse por decreto, e volta ao G8". Já Kiev, por outro lado, teria de escrever na sua constituição que não seria membro da NATO, sofreria uma redução das suas forças armadas e seria excluída, tal como a União Europeia, da gestão de crises na futura zona desmilitarizada. Um desenho que, considera Paulo Portas, dá à Rússia no papel o que não conseguiu no campo de batalha: "Se este plano chegasse aos finalmentes a Rússia ganhava politicamente o que não ganhou militarmente".
Na sua ótica, o comportamento de Donald Trump ao longo deste ano também ajuda a explicar o contexto em que este plano surge. Paulo Portas identifica duas constantes: o líder norte-americano “deu espaço, tempo e palco a Putin” e, ao mesmo tempo, “retirou armamento aos ucranianos”, deixando Kiev praticamente reduzida a uma postura defensiva. É neste quadro de pressão militar no Donbass e desgaste político interno, com novos casos de corrupção a atingirem o governo de Zelensky, que Washington aparece com uma proposta que, na prática, pede à Ucrânia que consagre a derrota na lei fundamental.
Também considera “intrigante e potencialmente perigosa” a forma como o plano redesenha a presença militar ocidental no leste europeu. O texto aponta, por exemplo, que os caças europeus ficariam estacionados na Polónia, o que, lido ao contrário, sugere que os caças americanos não lá estarão e que os países bálticos poderão ficar sem presença nem europeia, nem norte-americana. Para o comentador, isso envia a Moscovo o pior sinal possível: se a Rússia puder ganhar à mesa aquilo que não conquistou no campo de batalha, nada garante que, depois da Ucrânia, não tente “os bálticos”, como a história recente já permite antecipar.
Perante este cenário, Paulo Portas defende que a “única opção razoável” para a Europa é tentar modificar profundamente o texto. Lembra que já houve negociações com os Estados Unidos em que a posição europeia conseguiu corrigir desequilíbrios, como no acordo das terras raras, e destaca as reações firmes de países como a Polónia, que recusa que terceiros decidam o que fica ou não no seu território. Também a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, sublinhou três linhas vermelhas que Paulo Portas considera essenciais: não legitimar conquistas territoriais pela força, não impor limites às forças armadas ucranianas sem garantias de segurança credíveis e não excluir a Europa de negociações que dizem diretamente respeito ao seu futuro.