No "Global", o espaço de comentário que tem aos domingos no Jornal Nacional da TVI, Paulo Portas olha para os últimos acontecimentos no Médio Oriente
Aquilo que poderia ter estabilizado transformou-se, afinal, numa escalada com consequências cada vez mais amplas. Para Paulo Portas, o atual conflito no Médio Oriente agravou-se "na gravidade dos atos e reações", com impactos diretos na energia, na economia global e até na política interna dos Estados Unidos.
No espaço de comentário "Global", o ex-ministro da Defesa considera que houve, nos últimos dias, "bombardeamentos deliberados extremamente irresponsáveis", destacando ataques a infraestruturas críticas como South Pars, no Irão, e Ras Laffan, no Catar - esta última responsável por cerca de 17% da produção de gás natural liquefeito do país.
"Não é pouco", sublinha, alertando que a reposição da capacidade poderá demorar "anos".
Além das infraestruturas energéticas, o comentador lembra que houve também ataques próximos de instalações associadas ao programa nuclear iraniano, tanto por parte de Israel como dos Estados Unidos.
Para Paulo Portas, este tipo de ações "agrava o conflito" e torna "muito difícil qualquer das partes dar um passo atrás", o que reduz drasticamente o espaço para uma solução diplomática.
"O mundo está a precisar dramaticamente de uma iniciativa diplomática", defende.
Um dos sinais mais visíveis do impacto económico, diz, está no bloqueio do Estreito de Ormuz, onde o tráfego diário caiu de cerca de 60 cargueiros por dia para apenas "dois, três ou quatro".
Combustíveis disparam e ameaça chega ao bolso dos americanos
Apesar de serem exportadores líquidos de energia, os Estados Unidos não escapam ao impacto. Desde o início do conflito, o preço da gasolina subiu cerca de 33% e o gasóleo mais de 40%.
"É microeconomia à escala do consumidor", sublinha Paulo Portas, lembrando que estes são os eleitores que vão votar nas próximas eleições.
Neste contexto, acredita que a pressão eleitoral pode levar Donald Trump a procurar uma saída do conflito: "declarar vitória e sair".
Também na Europa, os efeitos começam a sentir-se. Christine Lagarde já admitiu uma revisão em alta da inflação na zona euro, de 1,9% para 2,6%, e em baixa do crescimento, de 1,2% para 0,9%.
Perante este cenário, Paulo Portas não exclui novas subidas de juros, tanto por parte do Banco Central Europeu como da Reserva Federal norte-americana.
O comentador critica ainda decisões da administração norte-americana, classificando como "absurdo" o levantamento de sanções ao Irão em plena guerra.
"Estão a pagar ao Irão para poder, por exemplo, comprar armas", resume. "Donald Trump não tem emenda."
China observa e pode beneficiar do desgaste americano
Num plano geopolítico mais amplo, a China mantém-se discreta, mas atenta. Para Paulo Portas, Pequim poderá beneficiar do desgaste dos Estados Unidos, seguindo a lógica de "não interromper o adversário quando está a cometer erros".
Ainda assim, nota que os chineses reduziram a dependência do Irão e reforçaram relações com a Arábia Saudita, o que lhes dá margem de manobra diplomática.