opinião

"Entendo mal que um primeiro-ministro apresente medidas para as famílias mas não se preocupe com as empresas, que são o pilar da economia"

MJC
18 set, 22:45

O INE publicou esta semana um estudo sobre o impacto da guerra nos principais produtos alimentares - desde o pão que subiu 8,8%, passando pelo peixe que teve um aumento de quase 10%, até à carne de porco com 23% e os óleos alimentares 36%. "Isto dá um retrato do que é a inflação que as famílias estão a sofrer", sublinha Paulo Portas no "Global", o seu espaço semanal de comentário no Jornal das 8 da TVI. "Para muitas famílias isto constitui um desafio, há que fazer escolhas para aguentar as despesas. É até mais complicado do que o desafio colocado pela energia", diz.

Os números são preocupantes e, por isso, diz Portas, é compreensível que o Governo tenha preparado um pacote de apoios. No entanto, o comentador tem dificuldade em entender que esses apoios privilegiem as famílias e não as empresas: "As empresas são o sustento de 80% das famílias de trabalhadores em Portugal, e muitas delas, felizmente, são criadas por antigos trabalhadores", sublinha. "Entendo mal que um primeiro-ministro apresente as medidas para as famílias mas não se preocupe com as empresas, que são o pilar da economia."

A situação das empresas é grave: "A inflação na produção industrial está acima de 20% desde fevereiro, uma inflação absolutamente anormal e que torna as empresas muito difíceis de gerir". As medidas de apoio às empresas já deveriam ter sido anunciadas há muito: "Estamos em setembro, é outra vez a mesma tentativa de deixar avançar o ano orçamental", sublinha Portas. Das que estão agora previstas, há medidas que são positivas mas não são para agora, dependem de fundos europeus. Além disso, "metade dos apoios previstos são empréstimos" - e era preciso saber a taxa de juro. O comentador teme que estes apoios não sejam suficientes: "A minha dúvida é se as empresas vão endividar-se para pagar a eletricidade e o gás".

Ainda sobre o pacote de medidas anunciado pelo primeiro-ministro, António Costa, é importante referir os pensionistas. "O primeiro-ministro quis fazer um brilharete e fazer parecer que é tudo cor-de-rosa" mas acabou por cometer um erro crasso. 

Em junho, António Costa tinha dado uma entrevista dizendo que vai haver um aumento histórico de pensões. "Nestas coisas, é preciso ter o cuidado de dizer tudo - esse aumento aconteceria porque há uma disposição na lei que diz que os aumentos de pensões são iguais à inflação medida até ao fim de novembro mais x por cento se tiver havido dois anos de crescimento económico consecutivo acima de 2%. Mas depois o primeiro-ministro mudou de opinião e decide partir em dois o referido aumento, que estava legalmente previsto para o próximo ano."

O que Costa deveria ter feito, diz Paulo Portas, era ser sincero, lembrar todas as dificuldades deste ano de 2022 e sublinhar que o ano de 2023 vai ser muito mais difícil. "Diria: não vos posso fazer devolução do poder de compra ou não vos posso dar tudo ao mesmo tempo, vou partir em duas fases e isto não é uma reposição integral mas é uma ajuda substancial. Em vez de dizer isto, quis fazer de conta que eram dois aumentos, que era sempre a somar, cheque mais cheque. E esqueceu-se que as pessoas fazem contas."

A questão dos pensionistas não pode ser subestimada. Afinal, é sabido que o país tem "um problema de sustentabilidade da segurança social", recorda Portas. Em 2021, a idade média de um português eram 46 anos. "É evidente que a idade média, não só de Portugal mas da Europa, está a aumentar perigosamente." Além disso a esperança média de vida também está, "felizmente", a aumentar. E isto gera um problema.

"O nosso sistema de pensões é de repartição: as pensões de hoje são pagas pelos trabalhadores de hoje; e as pensões de amanhã hão de ser pagas pelos trabalhadores de amanhã."

Ora, em 2050 o número de ativos será de apenas 49% dos cidadãos; 34% da população portuguesa terá mais de 65 anos e, dentro destes, há uma parcela cada vez maior de pessoas com mais de 80 anos. A taxa de substituição - a diferença entre a primeira pensão que um cidadão recebe e o seu último salário - vai ser apenas de 43% "Isto quer dizer que, se não se fizerem alterações ao sistema e não se der alguma liberdade e incentivo à poupança, os jovens de agora - e até as pessoas de meia idade - vão receber uma pensão que é menos de metade do seu salário".

O recuo da Rússia

"Do ponto de vista operacional as coisas não estão a correr bem à Rússia", afirma Paulo Portas. "É a segunda vez que a Rússia tem de retirar, e em desordem, o cerco às grandes cidades. A Rússia não é acolhida como libertadora pelos cidadãos, não conseguiu manter o cerco a Kiev e agora  não conseguiu manter o cerco a Kharkiv e à respetiva província, fugiu em debandada e perdeu alguns nós logísticos importantes", explica o comentar.

"A Ucrânia utilizou uma velha tática militar - a tática do engano. Anunciou que ia fazer uma contra-ofensiva a sul, fez bombardeamentos credíveis a sul, destruiu pontes. Estava a convencer os russos que tinham de deslocar forças do norte para o sul, os russos fizeram-no - mas a verdadeira ofensiva estava a norte." Neste momento, a Rússia controla 116 mil km2 da Ucrânia mas a Ucrânia terá recuperado entre 6 e 8 mil km2.

Na opinião de Portas, Putin sobreavaliou a capacidade operacional das forças armadas russas e subestimou, para além do nacionalismo ucraniano, o apoio americano - foi isto "verdadeiramente o que mudou o cenário inicial da guerra", diz. São 54 mil milhões de dólares que estão aprovados em lei, não estão ainda todos entregues, "em fornecimentos, apoios, armas, tecnologias, ajuda humanitária, ajuda a refugiados dos EUA à Ucrânia". "Não há comparação com nada que os EUA tenham feito antes nesta matéria."

Isabel II, a rainha da união. E a seguir?

"Em vida Isabel II foi o dever, na morte é a admiração, na memória ficará a união", diz Paulo Portas, sublinhando que "é absolutamente extraordinário ter podido assistir a isto [estes 10 dias de luto], é exemplar o reconhecimento do povo britânico".

Depois das cerimónias de amanhã, "os ingleses acordarão na terça feira com a nova realidade". Carlos III está certamente preparado para ser rei porque se preparou durante décadas. Mas "cada um tem a sua identidade e o seu estilo". Para o comentador, "há um ponto que será muito interessante de seguir: o principe Carlos tinha mais opiniões do que a mãe e expressava-as publicamente, em assuntos onde teve razão (por exemplo, ambiente, proteção do património, urbanismo). Agora, terá que se conter ou que evoluir, porque a sua função é outra".

No seu reinado, Carlos III enfrentará grandes desafios internos: a Escócia, o problema das Irlandas e alguns estados da Commonwealth "que querem uma separação amigável da coroa inglesa". Além disso, é preciso lembrar que, este ano "a mais fraca das economias do G7 é a inglesa".

Duas despedidas

Nas notas finais deste "Global", Paulo Portas recorda o desaparecimento de William Klein, "que foi um extraordinário fotógrafo de cidade, de abstratos, de desfocagens e de moda".

E também o escritor espanhol Javier Marías: "Não se percebe como é que não recebeu o Nobel", comenta Portas, que considera que Marías escreveu "coisas lindas e mágicas em certo sentido, livros que marcaram como 'Coração tão Branco', 'Amanhã na batalha pensa em mim' ou 'Todas as Almas'. Ele não tinha nenhuma felicidade com o mundo como está e chamava a este mundo imbecil".

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