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Cerca de 40% dos glaciares do mundo estão já condenados

CNN , Issy Ronald
29 jun 2025, 17:00
Turistas visitam o glaciar Nigardsbreen em Jostedal, Noruega, em agosto de 2022. Bram Janssen/AP

Os glaciares do mundo estão em péssimo estado, com quase 40% do total já condenados, mesmo que as temperaturas globais parassem de subir imediatamente, segundo um novo estudo.

Os investigadores estimam que os glaciares acabarão por perder 39% da sua massa em relação a 2020, uma tendência que já é irreversível, independentemente do que vier a acontecer, e que contribuirá provavelmente para um aumento de 113 milímetros da subida do nível do mar.

A perda aumenta para 76% se o mundo continuar a seguir as suas atuais políticas climáticas, que provavelmente não conseguirão manter o aquecimento global abaixo de 1,5 graus Celsius, de acordo com um artigo publicado na revista Science.

Este último cenário pode revelar-se desastroso para os países que dependem da água de degelo dos glaciares para irrigação, energia e água potável; um mundo em que 39% da massa dos glaciares se perca, em comparação com 76%, é a “diferença entre conseguir ou não adaptar-se à perda do glaciar”, disse à CNN James Kirkham, glaciologista da International Cryosphere Climate Initiative (Iniciativa Climática Internacional da Criosfera na tradução).

Embora o estudo ofereça um prognóstico sombrio para os glaciares do mundo, os seus autores estão a tentar “transmitir uma mensagem de esperança”, observou Lilian Schuster, investigadora da Universidade de Innsbruck, na Áustria, que coliderou o estudo.

“Com o estudo, queremos mostrar que com cada décimo de grau a menos de aquecimento global, podemos preservar o gelo dos glaciares”, apontou à CNN.

Cerca de 200 nações comprometeram-se a trabalhar em conjunto no Acordo de Paris de 2015 para limitar o aquecimento global. As nações comprometeram-se a manter o aquecimento global abaixo de dois graus Celsius dos níveis pré-industriais e, se possível, abaixo de 1,5 graus. Cada país é responsável por desenvolver os seus próprios planos para atingir esses objetivos.

Fotografia tirada em outubro de 2022 mostra um caminhante a observar o glaciar Gangotri, que se acredita ser a nascente do rio Ganges. Xavier Galiana/AFP/Getty Images
Fotografia tirada em outubro de 2022 mostra um caminhante a observar o glaciar Gangotri, que se acredita ser a nascente do rio Ganges. Xavier Galiana/AFP/Getty Images

Mas as temperaturas continuam a subir - o mundo está atualmente a caminho de um aquecimento de 2,9 graus até 2100. E cada aumento adicional de 0,1 graus entre 1,5 e 3 graus de aquecimento resulta na perda de mais 2% da massa global dos glaciares, prevê o estudo.

“Não somos ativistas, isto é a ciência a falar”, afirmou Harry Zekollari, investigador da Vrije Universiteit Brussel, na Bélgica, e da ETH Zürich, na Suíça, que também coliderou o estudo.

Por vezes, os comentários que recebemos são do tipo “estão a ser alarmistas e a assustar as pessoas”. Eu digo: ‘Estou a tentar dar a conhecer o que os nossos números de computador nos dão’".

Este estudo “histórico” é “um dos mais importantes trabalhos de projeção de glaciares realizados nesta década”, sublinhou Kirkham, que não fez parte da equipa de investigação mas apresentou o trabalho recentemente numa conferência das Nações Unidas.

Até este trabalho, os estudos de projeção anteriores terminavam as suas previsões em 2100 - a data frequentemente utilizada nos círculos políticos para medir o efeito potencial da crise climática, indicou Kirkham. Mas os glaciares podem levar anos, ou mesmo séculos, a estabilizar depois de o clima ter mudado, o que significa que o verdadeiro efeito do aumento das temperaturas pode ser mascarado durante anos.

Para investigar este fenómeno, este estudo utilizou oito modelos de glaciares pré-existentes e efetuou simulações que se estendem ao longo de séculos, prevendo a evolução de cada glaciar nesse período de tempo.

Caminhantes visitam uma caverna de gelo formada na secção final do glaciar Zinal, na Suíça. Valentin Flauraud/AP
Caminhantes visitam uma caverna de gelo formada na secção final do glaciar Zinal, na Suíça. Valentin Flauraud/AP

A utilização de tantos modelos produziu uma grande variedade de resultados. Por exemplo, a conclusão de que os glaciares acabarão por perder 39% da sua massa se as temperaturas atuais persistirem foi o resultado mediano num conjunto de dados que varia entre 15% e 55%.

Mas embora a gama de resultados seja “bastante grande”, “todos mostram a mesma tendência”, destacou Guðfinna Aðalgeirsdóttir, professora da Universidade da Islândia, que não esteve envolvida no estudo.

“A mensagem é muito clara”, disse à CNN. “Todos os modelos mostram a mesma coisa: com o aumento do aquecimento, mais massa de glaciares perdemos.”

Para Zekollari, as incertezas nos resultados mostram que “ainda há muito a fazer quando se trata de comparar os diferentes modelos”.

Estes efeitos também variam consoante a região, dependendo do grau de exposição de cada glaciar às alterações climáticas, segundo o estudo.

Os glaciares do oeste do Canadá e dos Estados Unidos, do nordeste do Canadá, da Escandinávia e do Ártico russo encontram-se entre os que estão particularmente em risco.

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