Decisão que é "dano irreparável" para Prestianni foi tomada para a "segurança" do jogador e dos adeptos do Benfica

23 fev, 20:06
Prestianni (Getty Images)

 

Apesar de negar ter proferido insultos racistas contra Vinicius Júnior, o jogador argentino do Benfica está proibido de ir a jogo no Santiago Bernabéu

A UEFA anunciou esta segunda-feira que suspendeu preventivamente Gianluca Prestianni por um jogo, a pedido do inspetor nomeado para conduzir o processo disciplinar aberto na sequência de suspeitas de racismo contra o número 7 do Real Madrid, Vinicius Júnior. Para Gonçalo Almeida, juiz do Tribunal de Futebol da FIFA, trata-se de uma decisão prevista nos regulamentos, mas com consequências impossíveis de reverter para o atleta.

O especialista sublinha que a suspensão preventiva não significa que exista já uma "convicção de culpa" por parte das entidades disciplinares, lembrando que também no plano disciplinar se aplica o princípio da presunção de inocência. O que está em causa, segundo Gonçalo Almeida, é que o regulamento disciplinar da UEFA prevê a possibilidade de aplicar medidas provisórias em determinadas circunstâncias, sobretudo por razões de segurança e proteção - tanto do jogador como do próprio espetáculo desportivo.

Esta possibilidade está expressamente prevista no Artigo 49 - Provisional Measures, que autoriza os órgãos disciplinares a adotar medidas provisórias para "garantir a correta administração da justiça, manter a disciplina desportiva, evitar prejuízos irreparáveis ou atuar por razões de segurança e proteção".

"Aquilo que o regulamento disciplinar da UEFA prevê é que, também por questão de segurança e de proteção, quer para o próprio jogador quer para o espetáculo em si - a questão dos adeptos no estádio - possa haver uma medida provisória de suspensão para salvaguardar eventuais situações de insegurança ou de proteção", esclarece o especialista em declarações à CNN Portugal.

Vinicius Júnior acusa o argentino de o ter chamado de "macaco" durante a primeira mão do playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. (Valter Gouveia/Sports Press Photo/Getty Images)
Vinicius Júnior acusa o argentino de o ter chamado de "macaco" durante a primeira mão do playoff de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões. (Valter Gouveia/Sports Press Photo/Getty Images)

Ainda assim, o juiz admite que a decisão pode ter efeitos irreversíveis caso o jogador venha a ser ilibado. "Há aqui um dano que se torna irreparável a partir do momento em que ele é afastado da participação de um jogo que já não volta atrás."

"Prestianni está a ser impedido de jogar um grande jogo, de contribuir para a equipa e, mais importante do que isso, tem o seu nome a ser associado mundialmente a um comportamento racista", acrescenta.

O próprio regulamento prevê também a possibilidade de recurso - algo que o Benfica já admitiu que vai interpor - quando uma decisão preliminar possa causar esse tipo de dano, precisamente por poder ter impacto imediato nas partes envolvidas.

"O recurso deve chegar à UEFA por escrito e com fundamento dentro de três dias após a notificação da medida contestada, e não há taxa de recurso. O presidente do Comité de Recurso da UEFA, ou seu indicado, decide sobre esses recursos como um juiz que atua sozinho. Tais decisões são finais", lê-se no artigo 49 do regulamento disciplinar da UEFA.

Apesar disso, acrescenta Gonçalo Almeida, quem tomou a decisão terá avaliado os diferentes fatores envolvidos. "Quem decidiu fê-lo tendo em conta os prós e os contras e entendeu que as vantagens [da suspensão] superam as desvantagens."

Quanto à possibilidade de se abrir um precedente para o futuro, o especialista não hesita na resposta: "claro que sim", afirma. Na sua perspetiva, se um jogador "agir de má-fé" e recorrer a este mecanismo disciplinar exagerando ou deturpando um episódio ocorrido em campo, pode criar-se um instrumento que, no limite, seja usado estrategicamente para afastar um adversário de um jogo decisivo.

"Se os insultos atribuídos a Prestianni forem de natureza racista, são altamente lamentáveis e devem ser condenados de forma veemente. Mas, se não tiverem ocorrido, então é igualmente grave e condenável que alguém utilize esse expediente para obter vantagem desportiva", reforça.

O juiz defende, por isso, que a responsabilização deve existir em qualquer dos casos. Se se provar que houve denúncia infundada feita de forma dolosa, também deverá haver consequências disciplinares para quem a protagonizou.

Prestianni falha jogo em Madrid

Em comunicado, a UEFA explicou que a suspensão preventiva surge após a nomeação de um Inspetor de Ética e Disciplina para investigar alegações de comportamento discriminatório durante o jogo da Liga dos Campeões entre o Benfica e o Real Madrid, realizado a 17 de fevereiro de 2026.

Segundo a organização, o Comité de Controlo, Ética e Disciplina decidiu suspender provisoriamente o jogador por um jogo da competição para a qual estaria elegível, por uma violação prima facie do Artigo 14 do Regulamento Disciplinar da UEFA, relativo a comportamento discriminatório.

O Benfica reagiu entretanto em comunicado, garantindo que vai tentar recorrer da decisão. "O Sport Lisboa e Benfica tomou conhecimento da decisão da UEFA de aplicar uma suspensão provisória de um jogo ao seu jogador Gianluca Prestianni, no âmbito da averiguação em curso relativamente ao incidente ocorrido no jogo frente ao Real Madrid", refere o clube.

Os encarnados lamentam ficar privados do atleta na segunda mão do play-off de acesso aos oitavos de final da Liga dos Campeões e admitem que os prazos dificultam qualquer alteração a tempo do encontro.

"O Clube lamenta ficar privado do jogador enquanto o processo está ainda em investigação e irá apelar desta decisão da UEFA, mesmo se dificilmente os prazos em causa terão qualquer efeito prático para o jogo da segunda mão do play-off da Liga dos Campeões."

No mesmo comunicado, o Benfica reafirma o seu compromisso no combate a qualquer forma de racismo ou discriminação, valores que diz fazerem parte da identidade histórica do clube.

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