Este político conservador alemão combateu a gestação de substituição. Mas recorreu a ela com o marido para serem pais — e demitiu-se

18 jul, 18:00
Nesta fotografia, tirada a 5 de julho de 2021, o então ministro alemão da Saúde, Jens Spahn, à direita, e o marido, Daniel Funke, à esquerda, chegam ao Palácio de Bellevue, em Berlim, para participarem num banquete de Estado oferecido pelo Presidente federal e pela mulher. Spahn, presença constante nos meios de comunicação e na vida pública alemã desde o início da pandemia de covid-19, criticou a Igreja Católica por se recusar a abençoar casais do mesmo sexo.
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Jens Spahn, antigo ministro da Saúde e líder parlamentar dos conservadores alemães, demitiu-se depois de anunciar que ele e o marido foram pais através de uma gestação de substituição nos Estados Unidos. Uma prática proibida na Alemanha, que o próprio criticara e que a CDU continua a rejeitar

Quando anunciou o nascimento do filho, na quarta-feira, Jens Spahn (à direita na imagem) falou de uma felicidade que quase não conseguia explicar. “Georg é a nossa maior alegria. É praticamente impossível traduzir este sentimento por palavras.” Três dias depois, o antigo ministro da Saúde de Angela Merkel e um dos mais próximos aliados do chanceler Friedrich Merz demitiu-se da liderança parlamentar do bloco conservador CDU/CSU.

Entre a frase de um pai e a decisão de um político estava uma contradição que Spahn não conseguiu resolver. Ele e o marido, o jornalista Daniel Funke, recorreram nos Estados Unidos a uma gestação de substituição, uma prática proibida na Alemanha, combatida pelo seu partido e que o próprio criticara publicamente. Em 2015, num texto sobre o tema, Spahn apresentou-se como “homem homossexual e cristão” e admitiu ter muita dificuldade em aceitar a ideia de um “útero alugado”.

Cinco anos depois, já como ministro da Saúde, recusou flexibilizar a legislação alemã. E, em fevereiro deste ano, quando a mulher que gerava o filho do casal estaria grávida de cerca de quatro meses, a União Democrata-Cristã voltou a aprovar, num congresso, a manutenção da proibição.

A CDU, liderada por Friedrich Merz, é o principal partido da direita tradicional alemã e governa em conjunto com a sua formação irmã da Baviera, a União Social-Cristã, conhecida pela sigla CSU. Spahn, de 46 anos, era uma das vozes mais destacadas da ala direita do partido e vinha a pressionar a direção para adotar posições mais duras, sobretudo na área da imigração.

A polémica que se seguiu ao anúncio do nascimento não se centrou no facto de Spahn ser homossexual, nem na decisão de constituir família com outro homem. As críticas dirigiram-se à distância entre as regras que o político ajudou a manter para os cidadãos alemães e a escolha que fez quando essas mesmas regras atingiram a sua vida pessoal.

A gestação de substituição está proibida na Alemanha desde 1990, ao abrigo da Lei de Proteção dos Embriões. A realização e a intermediação do procedimento podem ser punidas com uma pena de prisão até três anos ou com uma multa. Por essa razão, vários casais alemães procuram países onde a prática é permitida, entre eles os Estados Unidos. Foi o que fizeram Spahn e Funke.

Perante o aumento das críticas, o político reconheceu ao Bild que a decisão não tinha sido simples: “Debati-me comigo próprio durante muito tempo, também em relação à questão da gestação de substituição”.

A explicação não convenceu vários dirigentes do próprio campo político. Para Marion Rosin, membro da CDU na Turíngia e da União das Mulheres, a organização feminina do partido, a credibilidade de um político também depende da forma como aplica à sua própria vida os princípios que defende para os outros: “Os políticos que estabelecem padrões para os outros também têm de ser avaliados de acordo com esses padrões. Quando essa credibilidade desaparece, a demissão é uma consequência”.

As críticas subiram de tom na sexta-feira. Daniel Peters, líder da CDU no estado de Mecklenburg-Pomerânia Ocidental, já não via condições para que Spahn permanecesse à frente do grupo parlamentar. “Jens Spahn já não é sustentável como líder do grupo parlamentar e tem de se demitir.” Para Peters, era “completamente inaceitável” que um alto dirigente da CDU votasse de uma forma enquanto político e, depois, “agisse de maneira completamente diferente enquanto indivíduo privado”.

Também Janosch Dahmen, deputado dos Verdes e especialista em políticas de saúde, colocou o debate fora da esfera da criança e dentro da credibilidade de quem cria regras para os outros. “Quem defende politicamente determinadas regras deve conseguir explicar claramente por que razão essas regras aparentemente não se aplicam à sua própria vida.”

Spahn tentou inicialmente separar as suas anteriores posições políticas da decisão familiar. Mas, à medida que se multiplicavam os pedidos de demissão, essa distinção tornou-se mais difícil de sustentar. Não se tratava apenas de o político ter mudado de opinião: o seu partido voltara a rejeitar a gestação de substituição poucos meses antes do nascimento da criança, sem que Spahn tivesse defendido publicamente uma alteração da lei ou uma mudança de posição da CDU.

Friedrich Merz recusou, durante várias horas, pronunciar-se sobre o futuro do aliado. Questionado pelos jornalistas na sexta-feira, o chanceler alemão limitou-se a remeter o assunto para a reunião seguinte da direção do partido. Nesse mesmo dia, Spahn já parecia preparar a saída. Numa nova entrevista ao Bild, a prioridade estava definida. “Uma coisa é clara para mim, e torna-se mais clara a cada hora que passa: não há nada mais importante do que a minha família.”

A demissão chegou no sábado. “Nos últimos dias, percebi que a minha felicidade pessoal, ao constituir uma família com o meu marido e tornar-me pai, é incompatível com o meu cargo político.”

Pouco depois, Merz classificou a decisão, numa publicação na rede social X, como “correta e inevitável”. “A credibilidade é o bem mais valioso da política.”

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