Deu Sonya para adoção durante a II Guerra Mundial. 80 anos depois, mãe e filha reencontraram-se

26 mai, 21:36
Facebook: Revera Inc.

Aos 18 anos, a refugiada judia Gerda Cole acreditava não ter condições para criar a filha. Oito décadas depois, com 98 e 80 anos, mãe e filha reencontraram-se

Em 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, uma rapariga judia de 18 anos deu a filha recém-nascida para adoção. Antes de a entregar aos pais adotivos, um casal alemão a viver em Inglaterra, deu-lhe um nome: Sonya. Durante oitenta anos, nada mais soube sobre a filha, para além da data de nascimento e do nome de nascença. 

Gerda Cole tinha conseguido escapar a uma Áustria dominada pelos nazis e encontrar refúgio, aos 15 anos, na Inglaterra. O pai não sobrevivera, e pouca família lhe restava: era filha única, com poucos recursos económicos e sem quaisquer habilitações literárias ou perspetivas profissionais.

Aos 18 anos, presa num casamento infeliz que não viria a durar muito mais tempo, engravidou de uma menina que sabia não conseguir criar. "Se estivesse numa posição melhor, teria tentado." Mas, como refugiada numa situação precária, Gerda pensou não ter outra opção. "Senti que era o mais justo para ela." 

Com a ajuda de um comité de refugiados, Gerda avançou com o processo de adoção da pequena Sonya. As condições eram claras: a mãe biológica não deveria manter o contacto com a criança. E assim aconteceu. 

Nas décadas que se seguiram, foi inevitável indagar o que teria acontecido à filha. Mas os critérios da adoção eram explícitos e, segundo o Washington Post, Gerda teria também receio de que a filha não quisesse ser encontrada. Passaram oitenta anos, sem qualquer contacto.

Finda a Segunda Guerra Mundial, mudou-se para o Canadá com o terceiro marido e iniciou uma nova etapa de vida. Concluiu os estudos e obteve três diplomas universitários, um deles em Estudos Judaicos. Era contabilista, mas mantinha um emprego em regime de part-time para conseguir sustentar a sua verdadeira paixão - viajar pelo mundo. 

Concretizou todos os sonhos pendentes, menos um: tornar-se mãe novamente. Tentou engravidar várias vezes ao longo dos seus cinco casamentos, sem sucesso.

Gerda Cole vive agora num lar de idosos na cidade canadiana de Toronto. Completou 98 anos no dia 7 de maio, na véspera do Dia da Mãe, e recebeu como presente "a melhor coisa que já aconteceu" na sua vida quase centenária. 

Pela primeira vez, celebrou o aniversário e o Dia da Mãe na companhia da filha.

Reunidos com a ajuda da Internet

O responsável pelo reencontro foi o neto que Gerda não sabia ter. 

Há cerca de um ano, no contexto do Brexit, Stephen Grist planeava abandonar Inglaterra e obter cidadania europeia. Para o efeito, começou a investigar as suas raízes austríacas, numa "perspetiva muito transacional", sem qualquer intenção de saber mais sobre a avó que nunca tinha conhecido. 

Tudo mudou quando decidiu montar uma árvore genealógica na Internet, partindo apenas dos nomes dos bisavós. A partir destes dados limitados, acabou por conseguir descortinar alguns detalhes sobre a família biológica. 

Soube que a avó Gerda tinha casado cinco vezes e que o avô, Hans Kessler, tinha permanecido em Inglaterra até à sua morte, em 2001. Para efeitos de cidadania, a embaixada austríaca requeria, porém, uma informação que não conseguia obter: o certificado de morte da avó. 

Stephen, de 55 anos, recorreu às redes sociais para procurar respostas - e acabou por obtê-las. Segundo o Washington Post, um homem que se identificou como um dos enteados de Gerda entrou em contacto através do Facebook e disse: "Não vais encontrar o certificado de morte, porque ela ainda está viva." 

Stephen não soube como reagir, a princípio. "Nunca nos ocorreu que a avó estivesse viva", confessou, acrescentando ter esperado duas semanas até revelar a novidade à mãe. 

A filha de Gerda, viúva desde 2004, tinha procurado várias vezes a família biológica, sem nunca ter conseguido obter informações relevantes. "A minha primeira reação foi: 'quero ir ter com ela e conhecê-la'", admitiu, mas sabia que um eventual reencontro dependeria da vontade de Gerda. 

Quando contactada por Stephen, a canadiana mostrou-se reticente. "Foi uma informação muito impactante", referiu o neto, sublinhando que a gravidez e a subsequente adoção eram capítulos que Gerda julgava encerrados. "Foi preciso algum tempo até que a Gerda interiorizasse que este incidente" doloroso do passado "tinha voltado a encontrá-la". 

A filha garantiu "compreender perfeitamente" a decisão da mãe na adolescência, sublinhando não sentir "malícia, ressentimento, nada". Gerda, porém, manifestava apreensão com a ideia de uma reunião: "Cometi tantos erros, e mesmo assim veio à minha procura e encontrou-me."

Mas os arrependimentos do passado viram-se minimizados pela perspetiva de um reencontro. Combinaram uma data com valor simbólico: 7 de maio, o aniversário de Gerda, na véspera do Dia da Mãe. 

A conexão foi imediata, dizem. Afinal, a filha manteve o nome pelo qual a mãe a tinha sempre recordado: Sonya. 

Após oitenta anos separadas, Gerda e Sonya voltaram a abraçar-se. 

O reencontro com a filha e a descoberta de uma família

O lar de idosos onde Gerda reside ficou responsável pela decoração. A cor preferida da nonagenária predominava: balões azuis, faixas azuis, roupas azuis. E, no topo da cabeça da aniversariante, uma coroa. 

A vice-presidente do lar mostrou-se "honrada" por "presenciar esta linda reunião com a filha e o neto". "É uma celebração emocionante da vida, do amor e do espírito humano."

Foto: Revera Inc. (Facebook)



Sonya diz que os nervos da antecipação se dissiparam de imediato quando entrou na sala. "Houve uma conexão instantânea." Gerda concordou, entre lágrimas: "Ela é um pedaço de mim." 

A festa foi apenas o começo do resto das suas vidas, garantem. O fim de semana foi passado a colocar questões e a tentar descobrir as pessoas que se tinham tornado nas oito décadas de distância.

Tal como a mãe, Sonya é apaixonada por viagens. Mas não só: também partilham o interesse pela aprendizagem de línguas e música. "Vou-te contar um segredo: durante algum tempo, fiz parte de uma banda", confidenciou Sonya à mãe, com uma nota de humor na voz. "Mas não era grande coisa." 

O neto de Gerda, Stephen, manifestou-se fascinado com a história de vida da avó. "A Gerda é uma pessoa incrível", elogiou. "Viveu uma vida tão interessante." 

A viagem dos Grist foi emocionante, mas fugaz. Planeiam voltar em breve a Toronto, desta vez acompanhados por toda a família. 

Com 98 anos acabados de completar, Gerda viveu uma vida plena e emocionante. Sobreviveu a uma guerra mundial, apaixonou-se, viajou por vários pontos do mundo. Faltava-lhe algo, porém: uma família com quem partilhar a sua história. 

"Não há nada que queira mais do que estar na companhia" da recém-encontrada família, desabafou. "Vamos encarar a realidade: 98 é próximo dos 100. Não me resta muito tempo."

Mas os anos que restam serão, talvez, os melhores da sua vida. 

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