Votar antecipadamente para fugir às filas e à covid: "Até agora nunca falhei umas eleições e, se deus quiser, assim hei de continuar"

23 jan, 15:27

São mais de 315 mil os eleitores inscritos para votar antecipadamente este domingo. Das mesas com pouco mais de 100 votantes até à Cidade Universitária, onde votam mais de 24 mil pessoas, a manhã foi tranquila

João Manuel bate com os pés no chão ritmadamente para afugentar o frio enquanto espera pela mulher. Passa pouco das 8:15 e João acabou de depositar o seu voto na mesa número 9, instalada no átrio do Museu do Neorrealismo, mesmo ao lado do painel com fotografias do escritor Carlos de Oliveira. Antes dele, só tinham votado alguns dos membros das duas mesas, que chegaram muito cedo, ainda mal o sol tinha nascido, para instalar as urnas e abrir as portas do museu de par em par às 8:00 em ponto. Não costuma ser assim. Normalmente, este museu de Vila Franca de Xira abre às 10:00. Normalmente, a porta não está assim escancarada. Mas hoje é um dia especial: são esperados ali 498 eleitores que se inscreveram no voto antecipado em mobilidade para as legislativas do próximo domingo.

"Foi a primeira vez que votei antecipadamente, quis evitar as confusões e garantir que votava da maneira mais prática possível", justifica João Manuel. "Eu sou da geração que vota", diz. Tem 70 anos e lembra-se bem dos tempos em que o voto não era livre e também se lembra bem dos tempos em que toda a gente sentia que o seu voto podia, de facto, indicar o rumo do país. "Esta geração mais nova acha que já está tudo adquirido e que não há mais nada a fazer..."

Para Carla e Sofia também será um domingo diferente. "Geralmente ao domingo estamos fechadas", explicam as empregadas do café do museu, chamado "Neo", enquanto montam as cadeiras na esplanada e colocam nas vitrines pastéis de nata, um bolo de cenoura e um bolo de noz. A partir das 10.00 quem vier votar já pode visitar a exposição dedicada ao artista plástico Jorge Vieira ou a "Representações do Povo" que, até abril, junta obras de diversos artistas, de Graças Morais a Rafael Bordalo Pinheiro. Apesar das eleições, o museu funciona normalmente e a entrada é, como sempre, gratuita. Logo à tarde será exibido o filme "Nazaré", de Manuel Guimarães.

Na Museu Municipal também há uma mesa de voto, onde são esperados apenas 124 eleitores. Há mais fila no Minipreço que fica ao lado do que aqui. "Vai ser um dia muito longo", boceja uma das funcionárias da autarquia. Três portas à frente fica a sede da CDU, onde Rosário Silva e Pedro Carvalho se afadigam de um lado para o outro, ela a empurrar um carrinho de pipocas, ele a carregar um escadote. Dirigem-se para o jardim municipal onde às 10:30 era esperado João Oliveira (depois de, também ele, ter votado antecipadamente em Évora) para uma ação de campanha sobre os direitos de pais e crianças. "Já andamos aqui desde as sete mas o importante é que se faça por gosto", diz Rosário, e quase podemos ver-lhe o sorriso por baixo da máscara.

É uma particularidade da terra: em Vila Franca de Xira, este domingo, e ao contrário do que acontece por esse país fora, não há mesas de voto em escolas. Além do Museu do Neorrealismo e do Museu Municipal, é possível votar no auditório da Junta de Freguesia, nos Bombeiros Voluntários e no Celeiro da Patriarcal - um espaço que já foi efetivamente o celeiro da Patriarcal, depois foi transformado em armazém, a 26 de novembro de 1967 recebeu os corpos de algumas das vítimas das cheias e agora, gerido pela autarquia, é uma sala para grandes exposições e é também, ocasionalmente, local de votações. Sem filas nem ajuntamentos, pelo menos nesta manhã.

José Albano não vota antecipadamente: "Sei lá eu se não põem o meu voto numa caixa de sapatos e o perdem até ao dia das eleições", diz, na brincadeira, o vigilante do Museu do Neorrealismo. "Isto hoje vai ser tranquilo, para a semana é que será mais agitado", antevê.

Votar sem confusões por causa da covid-19 

São mais de 315 mil os eleitores inscritos para votar este domingo, o que representa 3,4 por cento do total de inscritos nos círculos eleitorais do continente e ilhas. Lisboa, Porto e Setúbal concentram o maior número de votantes. O número de inscritos no voto antecipado aumentou em relação às eleições presidenciais, que aconteceram há precisamente um ano. São mais quase 67 mil pessoas.

Na Escola Secundária Lindley Cintra, no Lumiar, em Lisboa, são 6.126 os eleitores inscritos. Há um movimento constante, para lá e para cá, uma curta fila à porta do refeitório, onde estão instaladas as mesas 13 e 14, pequenos grupos de pessoas a conversar ao sol. Mas ninguém se atreve nos matraquilhos. José Carlos entretém-se a ver os trabalhos dos alunos em exposição no átrio. São trabalhos sobre ecologia, ambiente e direitos humanos. "Se eu fosse uma árvore... seria uma das mais altas para toda gente ver a minha beleza", escreveu o Miguel, do 7º ano. José Carlos sorri: "Os miúdos têm graça". Tem 45 anos, é funcionário público e está à espera da irmã. "Eu já votei ali noutra mesa, ela deve ter apanhado mais pessoas. O que a gente quer é que corra tudo bem. Inscrevemo-nos só para garantir, que isto agora está muito mau, muita gente a adoecer com covid e depois era complicado. Assim, tínhamos duas hipóteses, não é?"

Joaquim Prada e Maria do Espírito Santo Prada já votaram duas vezes. Uma vez na urna verdadeira, outra na urna de cartão da Intercampus, que está a realizar uma sondagem este domingo. "Há mais de 30 anos que votamos nesta escola mas esta é a primeira vez que nos inscrevemos para votar antecipadamente", explica Joaquim, 80 anos, aposentado da Caixa Geral de Depósitos. "Queríamos evitar a confusão, por causa do vírus. Achámos que ia estar menos gente e de facto está, correu tudo muito tranquilamente."

"O meu filho, a minha nora e o meu neto já tiveram covid, nós ainda não, vamos lá ver...", acrescenta a mulher. E logo o marido conclui: "É caso para dizer: ainda respiramos." Agora, vão passar na Quinta das Conchas para dar uma voltinha e aproveitar o resto do domingo em casa. "Já estamos despachados das eleições."

Na Cidade Universitária, com poucas filas e algum sol

"Desculpe, pode ajudar-me? É que eu não sei ler..." Maria de Jesus estende o papel que comprova a sua inscrição no voto antecipado. Veio da Estrela de autocarro e vai votar na Faculdade de Direito. "Ah, menina, eu com jornalistas não falo, eu não sei ler nem sei falar destas coisas", desculpa-se. Mas sabe votar, isso garante. "Sempre. Até agora, nunca falhei umas eleições e, se deus quiser, assim hei de continuar."

Uma pessoa parada ao sol à porta da Faculdade de Letras não está muito tempo sozinha. Há quem pergunte indicações sobre as mesas de voto, há quem simplesmente se interrogue o que é isso da "Cantina Velha". "Bom dia, quer comprar um lápis para ajudar os escuteiros?" Maria Francisca e Leonor aparecem a saltitar e falam praticamente em simultâneo, como se cantassem, de tanto que já repetiram as mesmas palavras esta manhã. "Não tem preço, é o que quiser dar." São do agrupamento 523, de São Tomás de Aquino e aproveitaram este domingo eleitoral para recolher dinheiro para participarem numa atividade internacional.

A Cidade Universitária, em Lisboa, é o local do país com mais votantes: são 24.900 inscritos, espalhados pela Reitoria e Aula Magna, Faculdade de Direito, Faculdade de Psicologia, Faculdade de Letras, Cantina Velha e Faculdade de Ciências. No relvado da Alameda Universitária há crianças a jogar à bola e pessoas a passear os cães, nos passeios a agitação é grande e quem não repare nas idades dos transeuntes até pode achar que se trata de um normal dia de aulas. "Mas com muito mais trânsito", adverte Paulo, de 21 anos, que conhece bem aquela zona. Estuda em Ciências mas vota em Direito. "É a primeira vez que entro aqui, até tem graça porque de outra forma nunca viria à Faculdade de Direito, é muito diferente da minha."

Sim, o trânsito está caótico. Ora parado, ora fluindo lentamente. Há carros estacionados por todo o lado (menos em cima dos passeios, que os pilaretes estão lá a cumprir a sua função) e o condutor do 755 com destino ao Poço do Bispo já protestou ruidosamente com a sua buzina. Indiferente a toda esta agitação, Adriana está sentada ao sol num banco de pedra a ler um livro de Sarah J. Maas. "É uma autora americana de fantasia", explica. Votou na Faculdade de Psicologia e espera um amigo que votou em Direito. "Foi super-rápido, não estive tempo nenhum à espera", garante. Adriana tem 21 anos e estuda tradução e edição de texto na Universidade Nova. Decidiu votar mais cedo porque isso lhe facilitava a vida: "Os meus pais são divorciados e no próximo fim de semana vou estar com o meu pai, que mora longe." Foi a primeira vez que votou antecipadamente mas gostou da experiência: "Talvez repita nas próximas eleições". 

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