Uma semana depois, o que é que os Estados Unidos e o Irão estão exatamente a obter do seu acordo?

CNN , Análise de Stephen Collinson e David Goldman
26 jun, 21:19
Marco Rubio e Donald Trump (Evan Vucci/AP)
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EUA e Irão alcançaram uma trégua que reduziu a guerra aberta e já trouxe alguma estabilidade, sobretudo com a reabertura parcial do Estreito de Ormuz e o regresso das exportações de petróleo iraniano. No entanto, o acordo é frágil e provisório, com várias tensões ainda por resolver

A grande notícia é que os Estados Unidos e o Irão já não estão abertamente em guerra.

Isso, por si só, já é uma vitória que provavelmente salvou vidas uma semana depois de o presidente Donald Trump ter assinado um memorando de entendimento em França para travar os combates. Essa pausa nunca era garantida, tendo em conta meio século de hostilidade entre Washington e Teerão e um histórico regional cheio de acordos de paz destruídos.

Até agora, o MOU - um quadro de 14 pontos para negociações rumo a uma paz permanente - também resistiu às suspeitas de muitos legisladores norte-americanos de que consagra uma derrota dos EUA.

Isto porque os custos de regressar ao conflito são agora proibitivos para os dois lados, num contexto de fortes ventos políticos internos antes das eleições intercalares. Trump revelou na semana passada que não está disposto a pagar o preço económico de mais guerra. E porque haveria o Irão de quebrar a trégua agora, quando está a receber benefícios imediatos sem abdicar muito da sua posição negocial central?

Embora o acordo possa apontar para uma saída da guerra, não representa uma paz duradoura. É um mecanismo tipicamente trumpista para ganhar tempo enquanto adia decisões políticas difíceis para mais tarde.

Ainda assim, os benefícios para ambos os lados já estão a surgir.

O Estreito de Ormuz está aberto - mais ou menos

Provavelmente, o benefício mais tangível para os Estados Unidos é o facto de o Irão ter reaberto o estreito.

O tráfego marítimo no estreito aumentou significativamente nos últimos dias, com 70 travessias na quarta-feira, segundo a Kpler, que monitoriza atividade através de transponders e dados de satélite. É mais do dobro do total de terça-feira, embora ainda abaixo das mais de 100 travessias típicas antes do início da guerra.

O estreito ainda não está totalmente reaberto: o Irão continua a exigir autorizações para navegar no corredor norte do canal, com cerca de 37 quilómetros de largura, e minas no centro obrigam o tráfego a utilizar uma única faixa de navegação junto à costa de Omã. Num sinal de que as tensões persistem, um navio de carga foi atingido por um drone iraniano no estreito na quinta-feira, disse um responsável norte-americano à CNN. O incidente perturbou uma operação para retirar milhares de marinheiros presos em embarcações no Golfo Pérsico desde o início da guerra.

Ainda assim, o aumento do tráfego de petroleiros é um passo encorajador para a normalização dos fluxos globais de petróleo.

O encerramento do estreito criou o maior choque petrolífero da história e deverá custar ao mundo um recorde de 1,6 mil milhões de barris de fornecimento de petróleo, segundo o JPMorgan. Isso provocou um efeito duplo: preços elevados e redução drástica das reservas, levando a confiança dos consumidores a mínimos históricos e ameaçando a economia dos EUA com escassez de petróleo - um problema que Trump reconheceu na semana passada que poderia ter levado a uma “catástrofe económica” e comparações com o presidente Herbert Hoover.

Reabrir o estreito - que estava totalmente aberto antes da guerra - não resolve imediatamente esses problemas. Além disso, o acordo para permitir travessias sem taxas dura apenas 60 dias a partir da assinatura da semana passada. Depois disso, o Irão (e possivelmente Omã) poderá cobrar taxas, estimadas entre 1 e 2 dólares por barril, o que poderá dar ao Irão milhões de dólares por dia em receitas.

O Irão voltou a vender petróleo

A boa notícia sobre a reabertura do estreito vem com uma ressalva: o Irão pode voltar a vender petróleo. E, ao contrário do período anterior à guerra, pode vendê-lo literalmente a qualquer comprador depois de o Tesouro dos EUA ter suspendido sanções. Muitos críticos receiam que o Irão tente rapidamente reconstruir o seu exército, reabastecer programas de drones e mísseis e reativar a rede de aliados armados que inclui o Hezbollah e os Houthis no Iémen.

O Irão já começou a exportar petróleo novamente, embora ainda haja pouca evidência de vendas para além da China. Exportou com sucesso 3,8 milhões de barris através do Estreito de Ormuz na semana passada, logo após os EUA terem concordado em terminar o bloqueio naval, segundo a empresa TankerTrackers. Desde então, aumentou significativamente a atividade.

Segundo Jorge León, responsável de análise geopolítica da consultora Rystad, o país poderá vender cerca de 2 milhões de barris por dia - cerca de um terço acima do período anterior à guerra. E como essas vendas passam a ser legais e abertas, o Irão já não precisa de fazer descontos agressivos.

Outros incentivos financeiros

O Irão insiste que não aceitará um acordo de longo prazo sem acesso a mais de 100 mil milhões de dólares em ativos congelados em bancos pelo mundo. Responsáveis norte-americanos disseram à CNN na semana passada que nenhum fundo será libertado até o Irão cumprir os compromissos.

O MOU afirma que os fundos e ativos congelados do Irão serão colocados “totalmente disponíveis” para utilização pelo banco central iraniano, mas não explica prazos nem alcance.

O acordo também poderá criar um fundo de investimento de 300 mil milhões de dólares para ajudar na reconstrução do país. Os detalhes continuam pouco claros, mas a administração diz que o financiamento será privado e não pago pelos contribuintes norte-americanos. Trump afirmou no G7 que outros países e investidores poderão participar na recuperação económica do Irão, embora duvide que exista grande interesse num futuro próximo.

O acordo prevê ainda um entendimento final que elimine sanções ao Irão e permita o regresso ao comércio internacional.

Algumas instituições financeiras estrangeiras poderão estar mais disponíveis para fazer negócios com Teerão, embora muitas devam esperar por licenças específicas do Tesouro dos EUA. Há, no entanto, uma questão importante: não é claro até que ponto Trump pode levantar sanções sozinho. Um Congresso desconfiado poderá ter de aprovar parte desse alívio.

A complicada questão das inspeções

Trump escreveu esta semana nas redes sociais que inspetores nucleares da ONU terão acesso ao Irão “para sempre!!!”. O vice-presidente JD Vance classificou a abertura às inspeções como um “marco importante”.

Mas a realidade é mais complexa. Não é claro que a República Islâmica tenha aceite algo de concreto. O porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros iraniano, Esmaeil Baqaei, sugeriu que Teerão apenas está a reconhecer obrigações do Tratado de Não Proliferação depois de ter suspendido cooperação com a Agência Internacional de Energia Atómica após os bombardeamentos norte-americanos do ano passado às instalações nucleares.A AIEA argumenta que o MOU lhe atribui um papel central. O Irão responde que qualquer inspeção deve esperar por um acordo final.

Disputas sobre inspetores internacionais já causaram anos de confrontos entre os EUA e o Iraque de Saddam Hussein e, mais recentemente, com o Irão. As divergências incluíam autoridade legal, composição das equipas e liberdade para visitar instalações nucleares ou suspeitas.

É quase certo que o Irão tentará repetir essa estratégia. E um acordo final sem mecanismos rigorosos de verificação dificilmente terá valor real.

O Líbano pode pôr tudo em causa

O MOU exige o fim imediato e permanente das operações militares em todas as frentes, incluindo no Líbano. Mas esse país - repetidamente devastado por guerras civis e palco constante da disputa entre Israel e o Hezbollah apoiado pelo Irão - pode ser o ponto mais frágil do acordo. Críticos de Trump, sobretudo em Israel, receiam que o acordo permita ao Irão reconstruir uma força aliada enfraquecida por meses de ataques israelitas. Ao convencer Trump a incluir o Líbano, o Irão consegue pressionar o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu a limitar operações militares - ou arriscar o colapso de um acordo importante para Trump em termos simbólicos, políticos e económicos.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, participa numa reunião com o Secretário‑Geral da NATO, Mark Rutte, no Gabinete Oval da Casa Branca, a 24 de junho de 2026, em Washington, D.C. (Andrew Harnik/Getty Images)

Contudo, Israel não se considera vinculado ao acordo. Cessar-fogos anteriores entre Israel e Hezbollah falharam repetidamente e, antes do MOU, Israel realizou as incursões mais profundas no Líbano dos últimos 25 anos.

A administração Trump e a equipa de Netanyahu não esconderam o desconforto com o fim da guerra. E a insistência de Israel em manter liberdade de ação para defender a própria segurança no Líbano - e em todo o Médio Oriente - será um teste à autoridade de Trump à medida que as negociações com o Irão avançarem.

E o Irão quase de certeza lembrará toda a gente de que tem um novo trunfo na mão: a ameaça de voltar a fechar o estreito.

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