Ucraniano que trabalhava num iate de um oligarca tentou afundá-lo quando a invasão começou: “Foi o meu primeiro passo na guerra com a Rússia”

CNN , Bob Ortega, Al Goodman, Casey Tolan, Curt Devine e Jeff Winter
28 mar, 08:00
Antes de tentar afundar o Lady Anastasia em protesto contra a guerra da Rússia na Ucrânia, Taras Ostapchuk serviu como chefe das máquinas do iate durante uma década. Esta foto de 2013 foi tirada na Córsega, no Mediterrâneo.

Taras Ostapchuk estava em Maiorca quando viu relatos na comunicação social sobre um ataque de um míssil russo contra um edifício de apartamentos na sua cidade natal, Kiev. Nesse momento, ele disse: “Acho que a minha casa pode ser a próxima.”

Durante 10 anos, Taras Ostapchuk teve aquele que muitos podem considerar um emprego de sonho, como chefe das máquinas do Lady Anastasia, um luxuoso iate de 47 metros que navegava principalmente de um porto de luxo para outro, através do cintilante Mar Mediterrâneo.

Mas, a 26 de fevereiro, com a embarcação atracada na ilha espanhola de Maiorca, no Mediterrâneo, tudo mudou.

Ostapchuk viu relatos na comunicação social sobre um ataque de um míssil russo contra um edifício de apartamentos na sua cidade natal, Kiev. Era um edifício semelhante àquele onde ele vivia com a mulher, quando não estava embarcado.

Nesse momento, ele disse: “Acho que a minha casa pode ser a próxima.” E foi então que ele decidiu afundar o iate. “Foi o meu primeiro passo na guerra com a Rússia.”

Em entrevista à CNN a partir da Ucrânia, Ostapchuk, de 55 anos, disse que ligou a destruição na sua cidade natal diretamente ao homem que ele diz ser o dono do Lady Anastasia: o oligarca russo Alexander Mikheev. Ele é o diretor executivo da empresa russa de armamento, a Rosoboronexport, que vende de tudo, desde helicópteros a blindados, a sistemas de mísseis e submarinos.

Alexander Mikheev é o diretor-geral da Rosoboronexport, um fornecedor russo de armas e aeronaves militares. Está entre os oligarcas russos sancionados pelos EUA a 15 de março, em ligação à guerra da Rússia na Ucrânia. Foto: Universal Images/Getty Images

Ostapchuk decidiu que a sua missão seria afundar o Lady Anastasia.

A mais recente fase da guerra da Rússia contra a Ucrânia tinha começado há dois dias, com as forças a atacar vindas da Rússia, da Bielorrússia e da Crimeia, anexada pelos russos. À medida que a ofensiva se desenrolava, os EUA e a União Europeia responderam com sanções económicas e a apreensão de bens ligados a oligarcas do círculo mais próximo de Vladimir Putin.

E talvez nada simbolizasse tão claramente a forma como os facilitadores de Putin prosperaram sob o seu governo como os iates dos oligarcas, alguns deles quase tão compridos como a altura do Monumento a Washington, com heliportos, piscinas e interiores extravagantes e opulentos.

Ostapchuk disse que se dirigiu à sala de máquinas do Lady Anastasia, onde abriu uma válvula ligada ao casco do navio. À medida que a água inundava o barco, ele foi aos aposentos da tripulação e abriu outra válvula.

“Estavam três outros tripulantes a bordo, além de mim. Anunciei-lhes que o barco estava a afundar-se e que eles tinham de sair”, disse ele, em russo.

Jogo das Escondidas

Pela maioria dos padrões, o Lady Anastasia, com uma tripulação de nove pessoas, é sumptuoso. Tem um camarote principal com uma banheira em mármore Carrara; cabinas para 10 pessoas; um jacúzi no convés estabilizado segundo os movimentos da embarcação, e por aí fora.

Os oligarcas russos possuem alguns dos iates mais luxuosos do planeta. O Dilbar, um iate de 156 metros, é propriedade do multimilionário Alisher Usmanov, segundo afirma o Departamento do Tesouro que, a 3 de março, identificou o Dilbar como “propriedade bloqueada”. Tem dois heliportos e cabinas para dezenas de convidados. Usmanov não respondeu às perguntas da CNN sobre o iate.

Temos também o Amore Vero, um iate que as autoridades francesas apreenderam a 2 de março. Dizem que está ligado a Igor Sechin, um executivo russo do petróleo sancionado e associado de Putin. (A empresa que gere o navio nega que seja propriedade de Sechin.) Um antigo membro da tripulação do iate, que pediu para não ser identificado por ter assinado um acordo de confidencialidade, disse que o Amore Vero inclui uma sala de segurança no convés inferior.

“Nem sequer vinha nos desenhos originais do iate”, disse ele. “Havia uma porta secreta com uma câmara escondida. Podíamos afastar a parede e, lá dentro, tinha camas, comunicações de emergência, uma casa de banho e um sistema de videovigilância.”

O iate Lady Anastasia, alegadamente propriedade do oligarca russo Alexander Mikheyev, aqui em Port Adriano, na ilha espanhola de Maiorca, Espanha, a 15 de março de 2022. Foto: Juan Medina/Reuters

Embora autoridades de vários países atribuam a titularidade dos iates a oligarcas russos, os documentos que ligam as embarcações aos proprietários são, por norma, obscuros, passando por empresas-fachada e estruturas legais complicadas. Espanha, por exemplo, diz que “reteve provisoriamente” os iates enquanto resolve a questão da titularidade.

Mikheev foi sancionado pelo Departamento de Estado dos EUA a 15 de março.

Quando a CNN tentou entrar em contacto com Mikheev sobre a titularidade do Lady Anastasia, um porta-voz da Rosoboronexport respondeu por e-mail que a empresa “nunca comenta qualquer informação sobre a vida privada dos funcionários e os seus bens, exceto nos casos estipulados pela legislação da Federação Russa.”

Mas Ostapchuk disse que não tinha dúvidas. “Bem, se algo parece um cão, ladra como um cão e morde como um cão, então, é um cão. Portanto, se ao longo de dez anos, o iate [foi] usado apenas para férias [pelo] Sr. Mikheev e a família, então, acho que ele é, sem dúvidas, o verdadeiro dono deste iate.”

No meio de uma lista crescente de sanções e apreensões, os iates que supostamente pertencem a oligarcas russos partiram para países onde é improvável que as sanções sejam aplicadas, segundo dados do site MarineTraffic.

Dois iates alegadamente pertencentes a Roman Abramovich, um oligarca e aliado de Putin que foi sancionado pela União Europeia e pelo Reino Unido, atracaram em portos no sudoeste da Turquia na segunda e na terça-feira. Um dos iates, o Solaris, esteve ancorado em Barcelona até ao início de março, enquanto que o Eclipse – um dos maiores iates do mundo – partiu das Caraíbas mais ou menos na mesma altura e atravessou o Atlântico.

Ambas as embarcações pareceram evitar as águas da UE a caminho da Turquia, assumindo uma rota complicada que contornava várias ilhas gregas. A Turquia, embora seja membro da NATO, deixou bastante claro que não sancionará a Rússia pela agressão contra a Ucrânia.

Um pequeno grupo de manifestantes agitando bandeiras ucranianas e gritando “não à guerra na Ucrânia” tentou impedir o Solaris de atracar num porto de Bodrum, na Turquia, nesta segunda-feira, enquanto o enorme iate se aproximava. Alguns dos manifestantes eram membros de uma equipa de vela ucraniana que tinha deixado o país antes da invasão para participar numa competição na Turquia, informou a BBC.

Parece que vários outros iates ligados à Rússia estão a caminho de países do Médio Oriente ou do sul da Ásia que também se recusaram a impor sanções à Rússia. O Clio, um iate alegadamente pertencente ao aliado de Putin e magnata do alumínio Oleg Deripaska, e o Quantum Blue, alegadamente propriedade do multimilionário do retalho Sergey Galitsky, estavam ambos ao largo de Omã, esta semana, segundo os dados da MarineTraffic. O Clio tinha como destino o Dubai antes de mudar de direção para Mumbai, enquanto que o Quantum Blue estava ancorado no Mónaco, antes de partir no início de março. Deripaska foi sancionado pelos EUA e pelo Reino Unido, mas Galitsky não foi.

Entretanto, pelo menos meia dúzia de outros iates ligados a oligarcas russos deixaram de transmitir dados de localização nas últimas semanas, segundo o MarineTraffic.

O Galactica Super Nova, um iate alegadamente pertencente ao executivo russo do petróleo, Vagit Alekperov, foi registado pela última vez a deixar o porto de Tivat, no Montenegro, e a navegar no Mar Adriático nas primeiras horas do dia 2 de março - um dia após o governo montenegrino anunciar que se juntaria à União Europeia na imposição de sanções à Rússia. Embora Alekperov não tenha sido sancionado, entrou em 2018 para a lista de oligarcas russos do Departamento do Tesouro dos EUA.

Georgios Hatzimanolis, porta-voz da MarineTraffic, disse que a explicação mais provável para a falta de dados de localização é os iates terem desligado o AIS, um sistema automático de rastreamento. As leis marítimas internacionais geralmente exigem que embarcações tão grandes como os iates ligados aos oligarcas tenham o AIS ligado, a menos que estejam a atravessar zonas conhecidas pela pirataria, disse Hatzimanolis. Desligar um transmissor pode aumentar potencialmente o perigo de uma colisão quando as embarcações estiverem a viajar em águas movimentadas.

“É invulgar”, disse Hatzimanolis sobre os iates desaparecerem do radar. “Mas são tempos sem precedentes para estes iates e os seus proprietários. Estão a tentar afastar-se e chegar a destinos onde não sejam sancionados.”

“Temos de escolher”

Depois de começar a inundar os compartimentos, Ostapchuk contou aos outros três tripulantes a bordo o que tinha feito.

Eles também eram ucranianos, disse ele. Mas, com medo que, por causa dele, ficassem sem emprego, começaram a gritar e a dizer que ele estava doido, segundo a declaração sumária da sua acusação.

Depois, chamaram as autoridades portuárias e a polícia. Os trabalhadores do porto trouxeram uma bomba de água e impediram que o barco se afundasse. Ostapchuk foi preso.

"Declarei à polícia que tentei afundar o barco como um protesto político contra a agressão russa”, disse ele à CNN.

“Temos de escolher. Ou estamos com a Ucrânia ou não estamos. Temos de escolher. Vamos ter uma Ucrânia ou vamos ter um emprego? Eu não preciso de um emprego se não tiver a Ucrânia.”

Em alguns casos, esses empregos podem estar em perigo de qualquer maneira. A 15 de março, as autoridades espanholas detiveram provisoriamente o Lady Anastasia enquanto determinam se a embarcação está sujeita a sanções europeias e pode ser apreendida. Foi um dos três iates ligados a oligarcas russos apreendidos naquela semana. Outros foram apreendidos ou bloqueados em França, na Alemanha, em Itália e em Gibraltar.

A 7 de março, a empresa que administra o iate Dilbar despediu todos os 96 tripulantes, dizendo que as sanções impediram as operações normais do navio, segundo a Forbes.

As sanções aos oligarcas russos parecem ter provocado complicações e confusões entre algumas tripulações de iates. O sindicato Nautilus International realizou uma sessão de perguntas e respostas com profissionais dos iates, no início deste mês, e recebeu perguntas como: “Devemos demitir-nos de todos os iates russos?” e “O que me devem pagar se for despedido ou dispensado devido a sanções impostas à embarcação onde trabalho?” Os representantes sindicais aconselharam as tripulações a verificarem os termos dos seus contratos.

“Devem ser responsabilizados”

Quando a CNN conversou com Ostapchuk, que está na Ucrânia, na quarta-feira, a conversa foi imediatamente interrompida pelo alerta de um ataque russo. Mais tarde, quando Ostapchuk voltou de um abrigo, disse que assim que as autoridades espanholas o libertaram a 27 de fevereiro, ele voltou para a Ucrânia.

“Agora sirvo no exército e espero que o meu serviço nos aproxime da vitória”, disse ele.

Acrescentou que espera que os oligarcas que apoiaram Putin sintam o impacto das sanções.

“Eles devem ser responsabilizados, porque são eles que, com o seu comportamento, com o seu estilo de vida, com a sua ganância insaciável, levaram precisamente a isto... Para distrair o povo da verdadeira pilhagem da Rússia por parte destes governantes, que organizam guerras com outros países que são inocentes.”

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