opinião
Administradora executiva, Chief Investment Officer (CIO) do Banco Português de Fomento

O investimento que nunca desvaloriza

6 nov, 11:11

A economia mede-se em números, mas sustenta-se em pessoas. É uma verdade simples, tantas vezes esquecida num tempo em que a eficiência e a tecnologia dominam as agendas de todos. No entanto, atrás de cada decisão de investimento, inovação ou política pública, há pessoas, e são elas que determinam a solidez e o impacto de qualquer sistema económico.

Vivemos uma fase de transformação acelerada. A transição digital e a transição energética estão a redefinir setores inteiros e a exigir novas competências. As organizações são desafiadas a responder a esta mudança de paradigma com equipas preparadas, polivalentes e capazes de pensar o futuro. A forma como se gere, motiva e desenvolve o talento tornou-se, por isso, um tema central para a competitividade do nosso país.

Ao longo da minha experiência na banca, aprendi que o verdadeiro valor de uma instituição não está apenas nos resultados que apresenta, mas na consistência com que forma as pessoas que os tornam possíveis. O setor financeiro é exigente por natureza: vive do equilíbrio entre risco e retorno, mas também da confiança, um bem intangível e frágil que se constrói com tempo e com exemplo. Essa confiança não surge de processos, nasce das pessoas e da forma como estas trabalham, lideram e aprendem umas com as outras.

É por isso que acredito que investir em pessoas é investir em estabilidade. A experiência, o conhecimento acumulado e a capacidade de tomar boas decisões são ativos que não aparecem no balanço, mas determinam o futuro de qualquer organização. E é aqui que a mentoria tem um papel particular. Mais do que uma prática de desenvolvimento individual, a mentoria é uma forma de gestão do conhecimento: uma estrutura que permite que o saber adquirido ao longo dos anos se transforme em orientação, e que a próxima geração aprenda a partir da anterior, sem ter de começar do zero.

Esta lógica de continuidade é essencial para todos setores, mas especialmente relevante onde o rigor técnico é crítico. A mentoria é, em última instância, um investimento no tempo. É o mecanismo que garante que a aprendizagem de uma geração se converte em legado e que a experiência acumulada não se perde, reinventa-se.

Nos últimos anos, temos assistido ao surgimento de projetos que procuram trazer este tema para o debate público de forma mais estruturada. A C-Level Mentorship Academy, promovida pela Ponto Zero, é um bom exemplo disso. Ao aproximar líderes de diferentes áreas e gerações, o programa mostra que a mentoria pode e deve ser tratada como uma dimensão estratégica das empresas modernas. Não se trata de uma tendência de gestão, mas de um instrumento concreto de competitividade.

Portugal tem talento, mas precisa de transformá-lo em valor sustentável. Para isso, é necessário garantir que o conhecimento e a experiência não se perdem nas transições de equipas, gerações, ou ciclos económicos. As empresas que percebem isto sabem que formar pessoas não é um custo, mas sim um investimento. Investimento contra a imprevisibilidade, rotatividade e estagnação.

A liderança do futuro exigirá exatamente este equilíbrio: combinar experiência com inovação, pensamento analítico com empatia, e velocidade com prudência. Nenhum software substitui a capacidade humana de julgar, interpretar e decidir em contexto. E é essa combinação de razão e intuição, cultivada, ensinada e partilhada, que assegura a resiliência das organizações e a confiança dos mercados.

Quando olhamos para o futuro da economia, não podemos limitar-nos às métricas tradicionais. O verdadeiro valor não se mede apenas em rácios, margens ou balanços. Mede-se na qualidade das equipas, na cultura que se constrói, na forma como uma organização aprende e se adapta. É essa dimensão humana que garante a continuidade e o crescimento.

Nem todas as somas estão nas contas. Algumas estão nas pessoas que todos os dias as constroem, e que, com o seu conhecimento e compromisso, asseguram que a economia não é apenas um conjunto de números, mas uma rede de confiança e de propósito.

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