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Médica oncologista na Unidade Local de Saúde do Algarve e líder do Work Package 2, responsável pela Comunicação da EUnetCCC

Sobreviver ao cancro e viver bem

8 jun, 16:00
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Só se sobrevive àquilo que, com probabilidade, nos pode tirar a vida. Esta verdade lapaliciana serve apenas para sublinhar que o cancro, mesmo nos casos em que é diagnosticado precocemente e estão reunidas todas as condições para um tratamento e remissão eficazes, é uma causa de morte potencial, até que deixe de o ser. E que mesmo quando não se verificam recidivas, tal não impede que, sob determinadas condições, o cancro possa voltar a constituir uma ameaça.

As linhas acima têm duas missões: uma pedagógica, outra mobilizadora. A primeira, porque o dia 7 de junho o Dia Nacional do Sobrevivente de Cancro, que tem sido assinalado, na Europa, em países como Portugal, Espanha, Reino Unido, Malta e Ucrânia, não constitui uma celebração, mas um marco de resiliência, num trabalho incessante em que profissionais de saúde, Estado e pacientes, reiteram a sua união em torno do combate ao cancro. A segunda, porque é importante que todos e cada um de nós estejamos unidos na ação diária de contribuir para um cuidado preventivo, a nível de atividade física, de alimentação, e de acompanhamento médico quotidiano, de modo a que sintomas relevantes não sejam confundidos, na voragem dos dias, com meras situações sem importância.

Posto isto, cabe dizer que o conceito de sobrevivência, do ponto de vista dos indicadores, resulta da observação do número de anos de vida após o diagnóstico. E aqui, há boas e más notícias.

As boas notícias são as que revelam, no caso de Portugal, o Registo Oncológico Nacional (RON), publicado em março, a sobrevivência ao cancro em Portugal atingiu os 66,4% aos cinco anos para os doentes diagnosticados em 2019. Porém, esta percentagem constitui uma média de todos os 54.147 tumores malignos analisados.

As más notícias, são as que, por exemplo, dizem respeito aos tumores cerebrais e do Sistema Nervoso Central, cujo Dia Mundial se assinala a 8 de junho, com taxas de sobrevivência aos cinco anos na ordem dos 20%. Ou os do esófago, pâncreas, mesotelioma e primário de origem desconhecida, com taxas de sobrevivência semelhantes.

Ainda no domínio das más notícias, as mulheres apresentam melhores resultados na maioria das neoplasias de maior incidência, incluindo tiroide, pulmão e melanoma, com uma sobrevivência global na ordem dos 71,6% ao passo que os homens registam menos 10%, porque tardam em recorrer ao médico em função de sintomas preocupantes. E se no Norte e Centro estão os melhores resultados, com 68% e 67,4% de sobrevivência a cinco anos, no Alentejo e na Região Autónoma da Madeira estão as taxas de sobrevivência mais baixas, 62,2% e 59,5%, respetivamente. Ou seja, onde vivemos, o nosso género e comportamento, são fatores de variação na qualidade e proximidade do acompanhamento e dos cuidados oncológicos que recebemos. Perante o cancro somos todos iguais, em face dos cuidados oncológicos, nem tanto. 

Ao nível da Europa as taxas de sobrevivência mais recentes, publicadas em 2018, são relativas ao estudo CONCORD-3 (que analisou dados de 2010-2014). Nesse período, as taxas de sobrevivência estimadas a 5 anos oscilavam entre 10 e 15% para o cancro do pâncreas, 10 a 30%, para o cancro do pulmão, 50 a 69% para o cancro do cólon, 50 a 69% para o cancro do reto e 70 a 85% para o cancro da mama.

Com base nestes dados, estamos pior ou melhor do que antes? Em alguns casos, podemos arriscar dizer melhor, mas se tivermos em conta que o cancro é a principal causa de morte na União Europeia (UE) entre as pessoas com menos de 65 anos e a sua incidência deverá aumentar nas próximas décadas, a única nota a deixar é que ainda estamos longe do desejável. As estimativas mais recentes do European Cancer Information System, publicadas pelo Joint Research Centre da Comissão Europeia, apontam para cerca de 2,7 milhões de novos casos de cancro em 2024 e cerca de 1,3 milhões de mortes.

Sendo assim, o que nos falta, na UE, para podermos elevar mais as taxas de sobrevivência e o número de pessoas que, sobrevivendo ao cancro, conseguem viver com qualidade? 

Falta-nos traduzir a excelência clínica e científica que muitos centros e países já alcançaram em benefícios concretos para todos os doentes e populações da UE, ancorados nos Sistemas Nacionais de Saúde e reforçados pela cooperação europeia. Através de mais colaboração, troca de boas práticas e comunicação direta com os doentes, e mais em geral, com os cidadãos. Para isso, a ferramenta mais eficaz é a rede europeia de Comprehensive Cancer Centres, os CCC, atualmente em desenvolvimento, que integra a prevenção e a deteção precoce, o diagnóstico e o tratamento, a investigação clínica e translacional, a educação, a formação, a inovação e abordagens baseadas em análise de dados.

Ligados, com referências comuns de qualidade, os vários CCC serão capazes de incrementar as taxas de sobrevivência e melhorar o dia a dia daqueles que, tendo sobrevivido, querem viver com dignidade, qualidade e uma visão para o seu futuro.

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