Rússia rompe negociações de paz com o Japão: o que está em causa?

22 mar, 06:15
Imagem do Exército Russo, mostrando mísseis na ilha Matua, uma das Curilhas

Acordo bilateral para resolver situação de quatro ilhas no norte do Japão era negociado desde 2018. Invasão da Ucrânia e atitude nipónica face à guerra trouxe as relações entre Tóquio e Moscovo para o pior momento em muitas décadas

 

 

A Rússia anunciou esta segunda-feira o rompimento das conversações que decorriam com o Japão com o objetivo de conseguir um tratado de paz que ponha um fim formal ao último resquício do conflito entre os dois países na II Guerra Mundial. Em causa está uma disputa territorial em torno de quatro ilhas a norte do Japão, que eram território nipónico até 1945, e que foram tomadas pela União Soviética no final da II Guerra Mundial.

Foi mais uma forma de Moscovo retaliar contra a resposta dura de Tóquio à invasão russa da Ucrânia. A medida mais recente do lado japonês foi, em concertação com o G7, a retirada da Rússia da lista de parceiros comerciais preferenciais, e boicote à exportação de chips para território russo.

Moscovo já tinha colocado o Japão na lista de países que lhe são hostis, e Putin já tinha decretado, há duas semanas, a criação de uma zona franca nessas ilhas, para atrair investimento que consolide o domínio russo sobre aquelas quatro ilhas. Agora, rompeu um processo negocial que decorria desde 2018.

"O lado russo, nas condições atuais, não tenciona continuar as conversações com o Japão sobre o tratado de paz", anunciou o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo numa declaração, na qual lembra que Tóquio “assumiu uma posição abertamente hostil e se esforça por causar danos aos interesses do nosso país".

O primeiro-ministro nipónico reagiu esta manhã, no Parlamento japonês, considerando a decisão russa “extremamente irrazoável e totalmente inaceitável”. O governo de Fumio Kishida já apresentou um “protesto veemente” pela decisão do Kremlin.

Para Moscovo, "toda a responsabilidade pelos danos causados à nossa cooperação bilateral e aos interesses do próprio Japão recai sobre ... Tóquio", acusando o Japão de "escolher conscientemente um curso anti-russo".

 

Que ilhas são estas?

 

Em causa estão quatro ilhas a norte de Hokkaido, a ilha mais a norte do Japão, e a mais próxima do território russo. São as ilhas mais a sul do arquipélago a que a Rússia chama Ilhas Curilhas; o Japão chama-lhes Territórios do Norte. Trata-se das ilhas de Kunashiri, Etorofu, Shikotan e Habomai, um grupo de ilhéus.

O facto de essas ilhas terem sido invadidas pela URSS no final da II Guerra Mundial impediu que os dois países assinassem, após esse conflito, um tratado de paz. 

O dossiê arrasta-se desde então, mas parecia perto de uma resolução diplomática desde que o anterior primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, chegou a acordo com Vladimir Putin para conversações bilaterais que permitissem finalmente um tratado de paz, com a transferência de duas das quatro ilhas de volta para o Japão. Foi em 2018, quando as relações entre os dois países estavam melhor do que alguma vez na história comum. Com Abe e Putin, a cooperação económica entre os dois países estreitou-se, bem como as relações diplomáticas. Os dois chefes de governo encontraram-se com uma frequência inédita, e esse foi o período em que o governo de Tóquio mais suavizou a linguagem em relação aos Territórios do Norte, na expectativa da tal solução diplomática que pudesse conciliar as duas partes. 

Na Estratégia de Defesa Nacional japonesa, a Rússia passou a ser referida como “um parceiro” com o qual o Japão procuraria assegurar paz e estabilidade na região e no mundo. Moscovo passou a ter estatuto de parceiro privilegiado, com taxas aduaneiras baixas sobre as importações japonesas de produtos russos.

Mas o suposto tratado bilateral nunca se concretizou. E a Rússia invadiu a Ucrânia. 

E voltou a estar do lado oposto ao Japão. Não é a primeira vez - essa é a história mais comum entre os dois países, que foram inimigos na guerra de 1904, voltaram a ser inimigos na II Guerra Mundial, e foram adversários ao longo da Guerra Fria, incluindo a Guerra das Coreias.

Agora, volta a guerra das palavras. Há alguns dias, o primeiro-ministro japonês declarou que as ilhas do norte ocupadas pela Rússia são “território inerente e soberano do Japão ocupado ilegalmente” - a fórmula mais dura do léxico de Tóquio para se referir ao conflito. Kishida já não usou os eufemismos dos tempos do Governo Abe. 

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