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Psicóloga, vice-presidente da Ordem dos Psicólogos Portugueses

Psicologia em tempo de guerra. Acolher para além de brinquedos em pontes

22 mar, 19:13

"Psicologia em tempo de guerra", uma rubrica para ler no site da CNN Portugal

A situação dramática de guerra vivida na Europa ativa movimentos de solidariedade e comportamentos pró sociais de apoio que se traduzem em iniciativas como a “ponte dos brinquedos” implementada numa ponte pedonal na Roménia, onde foram colocados brinquedos que as crianças Ucranianas poderão retirar à chegada ao país. As imagens da “ponte dos brinquedos” contrastam com as imagens perturbadoras da guerra que nos têm invadido e concretizam, também do ponto de vista simbólico, uma mensagem de reconhecimento do sofrimento das crianças e de esperança no futuro.

Para além do simbolismo e da mensagem de esperança é fundamental criar as condições efetivas que possibilitem a integração das crianças e suas famílias nos países de acolhimento, minimizando os impactos negativos dos eventos potencialmente traumáticos que viveram.

A Europa vive a maior crise de refugiados desde a IIª Guerra Mundial estimando-se, à data de hoje, 3,2 milhões de pessoas nesta condição desde o início da guerra da Ucrânia.

O acolhimento de refugiados provenientes da Ucrânia em fuga de um contexto de guerra marcado pela violência extrema é uma realidade sem precedentes em Portugal quer pelo número de pessoas, quer pela rapidez com que chegam ao nosso país.  Num curto período de tempo foram acolhidas mais de 12 000 pessoas, sobretudo mulheres e crianças.  Este movimento solidário, partilhado por vários países europeus, centra-se na defesa dos direitos humanos e na proteção dos mais vulneráveis, obrigando à implementação urgente de medidas que favoreçam os processos de integração e a prevenção de práticas criminais como o tráfico de seres humanos ou o lenocínio.

Estas pessoas foram forçadas a deslocar-se em situações de vulnerabilidade material e psicológica,  chegam sem planeamento prévio e enfrentam desafios significativos ao nível  habitacional, laboral,  escolar, cultural, linguístico e  de saúde,  o que as torna vulneráveis a ações discriminatórias que violam a dignidade humana e os direitos garantidos pela Constituição.

A migração forçada implica a rutura com os mecanismos de proteção prévios, como os que são proporcionados pela família de origem, amigos e estruturas de apoio social e esta experiência pode ser agravada pelas separações e lutos decorrentes do conflito armado. Implica múltiplas adaptações num curto período de tempo. A forma como as pessoas são recebidas e como a proteção e assistência são (ou não) asseguradas, pode agravar ou minimizar dificuldades.

Os refugiados podem sentir-se sobrecarregados, confusos e desamparados, vivenciar medos e preocupações extremas ou emoções intensas como raiva e tristeza. Na chegada ao destino, sobretudo quando se juntam a familiares e amigos, podem sentir‑se eufóricos. Os que são afetados por várias perdas ou estão em luto podem sentir medo, ansiedade ou entorpecimento. Algumas pessoas podem ter reações que afetam o seu funcionamento e que podem comprometer a capacidade para cuidarem de si e das suas famílias. É importante ter em conta que muitas respostas a situações de stresse fazem parte do processo de adaptação e não devem ser consideradas anormais sobretudo em circunstâncias de grande exigência emocional.

Os efeitos do stresse podem ser atenuados através da disponibilização de serviços básicos como o apoio social e de saúde. As taxas de transtornos relacionados ao stresse extremo, assim como o desenvolvimento de Perturbação de Stresse Pós-Traumático  são maiores em refugiados comparativamente com o que se observa em pessoas que não foram forçadas a abandonar os seus contextos de origem.

Para a maioria dos refugiados os eventos potencialmente traumáticos do passado não são o único ou o desencadeador importante para o desamparo psicológico.  Para muitas destas pessoas o sofrimento emocional está diretamente relacionado com preocupações atuais (e.g. evolução da guerra, perda de familiares que permaneceram no país de origem) e incertezas sobre o futuro.

Os refugiados estão expostos a muitos fatores de stresse que influenciam o seu bem-estar psicológico e, embora se antecipe que muitos sejam resilientes, consigam adaptar-se e superar as experiências traumáticas que viveram, é essencial a disponibilização de apoio consistente e contingente durante todo o processo de acolhimento porque, para muitos, os brinquedos deixados em pontes não serão o suficiente.

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