“Quero mostrar a todos como é a Ucrânia. Não se trata de um país russo, mas sim de uma cultura única, que faz parte da Europa”

Maria João Caetano , em Lviv, Ucrânia
4 set 2025, 12:13
Lviv_Capa

O Enlargement CEmp junta 20 jovens portugueses e 20 jovens ucranianos durante quatro dias em Lviv, na Ucrânia. A União Europeia é o tema principal das sessões de debate, mas fora do programa os jovens têm outras inquietações. Como é viver num país em guerra?, perguntam os portugueses. “Não estamos só a defender-nos, estamos a defender a Europa”, diz Leontii

No dia em que a Rússia invadiu a Ucrânia, a 22 de fevereiro de 2022, Kateryn Konovalska vivia em Kharkiv.  “Foi horrível. Quando a guerra começou, fiquei sozinha no meu apartamento. Foi um pânico. Não sabíamos o que fazer. Estávamos muito nervosos porque não sabíamos o que ia acontecer. Tinha notícias de soldados russos na cidade e não sabia nada da minha família. Dois dias depois a cidade estava ocupada. Fiquei em casa durante duas semanas e, depois, percebi que tinha de sair dali. Primeiro fui para Poltava ter com amigos. Decidimos que tínhamos de estar longe da fronteira com a Rússia, então viajámos de carro em direção à Roménia.” Pouco depois, Kate, como todos a chamam, decidiu mudar-se para Portugal. “Alguns amigos da minha família já vivem há 25 anos em Portugal e receberam-me em Aveiro.”

Kateryn nasceu e cresceu em Melitopol, que agora é território ocupado, há 26 anos. Quando atravessou a Europa a fugir da guerra, não sabia nada sobre Portugal e a primeira coisa em que reparou foi na “calma” dos portugueses. “Para mim foi uma surpresa porque na Ucrânia estamos sempre a trabalhar demais, esforçamo-nos muito. E em Portugal é tudo muito mais relaxado. Têm o sol, o oceano, não precisas de mais na tua vida.”

Nos últimos três anos e meio, Kate já teve oportunidade de voltar várias vezes à Ucrânia. Mas esta visita é especial. Kate é uma das participantes no Enlargement CEmp, uma iniciativa da Representação Portuguesa da Comissão Europeia e da Agência Erasmus que durante esta semana junta em Lvic 40 jovens portugueses e ucranianos numa “escola de verão” onde têm oportunidade de debater os desafios e o futuro da União Europeia. 

Participar no Enlargement CEmp “é uma oportunidade fantástica” para Kate. Uma oportunidade para juntar os seus dois mundos - a Ucrânia e Portugal. “Em Portugal fiz muitos amigos e todos me ajudaram, os colegas, os professores todos me ajudaram. E agora tenho oportunidade de retribuir. Posso mostrar aos portugueses o que é a Ucrânia, na minha experiência e na minha história.” Para o grupo de participantes portugueses, Kate é um pouco como uma anfitriã que lhes vai falando da cultura e das tradições, da comida que estão a provar, das ruas que percorrem em passo de corrida a caminho das conferências, das placas escritas numa língua incompreensível para quase todos.

Kateryna Konovalska, ucraniana, participante no Enlargement CEmp

Lviv: a vida normal num país em guerra

Lviv é a cidade mais importante da zona ocidental da Ucrânia e está muito ligada à Polónia, que fica do outro lado da fronteira - a apenas 70 quilómetros de distância. Devido à sua localização, Lviv não tem sido tão massacrada com a guerra quanto as cidades do Leste, embora já tenha sido alvo de ataques aéreos, sobretudo durante o ano de 2022. Antes da guerra, a cidade recebia cerca 2,5 milhões de turistas por ano. “A invasão mudou completamente a vida na cidade”, afirma Andriy Sadovyi, o presidente da Câmara. Desde o início da guerra, milhares de ucranianos deixaram as suas localidades e avançaram em direção ao Ocidente - Sadovyi diz que até hoje mais de 15 milhões de refugiados terão passado pela cidade e uma parte deles terá decidido ficar.

Além disso, ao mesmo tempo que manda muitos dos seus homens para a frente de batalha - aproximadamente 58 mil residentes de Lviv estão a combater -, a cidade recebe muitos dos feridos nos seus hospitais. “A minha função hoje é apoiar os deslocados, apoiar os feridos e apoiar os meus cidadãos, que também estão a sofrer com a guerra e estão a perder os seus familiares”, diz Andriy Sadovyi. “São tempos difíceis. Não é fácil, mas temos de resistir com todas as forças que temos, temos que acreditar e não podemos desistir.”

 

 

A cidade resiste. No centro histórico, alguns monumentos estão protegidos com armações de ferro, para o caso de haver um ataque. “Peço desculpa por não vos poder mostrar como a nossa cidade é bonita”, lamenta uma das funcionárias da autarquia que conduz o grupo pelas ruas movimentadas. Os olhos mais atentos poderão reparar que as ruas estão esburacadas e que os edifícios não têm tido muita manutenção, mas não se vê lixo na rua. Dos restaurantes vêm cheiros que nos parecem exóticos, como o do “borscht”, a típica sopa do leste da Europa, que aqui é tradicionalmente feita com beterraba e batata. De manhã, os habitantes de Lviv correm para o trabalho, tal e qual como os portugueses, e os condutores desesperam no trânsito. À noite, à porta dos bares, os jovens juntam-se de copo na mão em conversas que se prolongam quase até à meia-noite, a hora do recolher obrigatório. 

Viver em Lviv “é uma combinação de muitas emoções”, diz Andriy Moskalenko, vice-presidente da autarquia. “Na terça-feira à noite houve um grande ataque à nossa região. Mas de manhã as pessoas acordam e vão para o trabalho, as crianças vão para a escola, os estudantes vão para as universidades. Às 11:00, tivemos o funeral de três heróis. Apesar de estarmos longe da frente, não conseguimos esquecer a guerra porque, infelizmente, perdemos muitos dos nossos e quase todas as famílias têm alguém na linha da frente. Infelizmente, todos os dias continuamos a ter sentimentos diferentes. Mas temos de mostrar a nossa capacidade de recuperação e de sermos fortes.”

Muitas empresas que antes da guerra funcionavam em Lviv foram deslocalizadas, outras encerraram ou mudaram a sua atividade para se adaptarem aos novos tempos. A cidade também se adaptou. “Temos muitos feridos e, por isso, temos uma função especial também hoje. Concentramo-nos na reabilitação, temos um hospital só dedicado aos feridos de guerra”, explica Moskalenko. 

Na quarta-feira, no final do primeiro dia do Enlargement CEmp, os participantes visitaram o cemitério de Lychakivske, onde estão sepultados cerca de 1.200 militares que morreram na guerra desde fevereiro de 2022. Em vez das habituais sepulturas de pedra, que se vêm na parte mais antiga do cemitério, nesta nova secção, que funciona também como um memorial de guerra, as sepulturas são como canteiros onde cada família planta as flores que mais gostar e coloca enormes bandeiras - da Ucrânia, de Lviv, do batalhão a que pertencia o militar. O resultado é bastante colorido e impactante, mas não tanto quanto os retratos dos soldados mortos - quase todos homens, quase todos muito jovens, com pouco mais de 20 anos, em poses confiantes e sorridentes. 

Ao lado de cada sepultura existe um banco. Alguns familiares estão ali, sobretudo mães. Andriy Moskalenko cumprimenta-as e pergunta-lhes pelos filhos. “Era um rapaz muito bondoso”, diz uma delas. “Antes de morrer, salvou muitos dos seus colegas”, garante outra. O vice-presidente de Lviv conversa com elas em ucraniano e vai traduzindo para inglês. Apesar de triste, as mães contam orgulhosas os feitos dos seus filhos. Moskalenko conheceu alguns destes jovens de Lviv. Para em algumas sepulturas e chama a atenção para os atos heroicos de alguns. O cemitério continua a crescer, novas valas estão já a ser cavadas. Do outro lado da rua fica a maternidade, indica o autarca. “É este o ciclo da vida.”

Não, Lviv não esquece a guerra, mas procura manter a normalidade. Pelo menos enquanto os telefones não nos acordarem a meio da noite com o som estridente de uma sirene e ordem para nos dirigirmos para um abrigo. “Já estamos habituados. Tivemos que aprender a viver assim.”

Quando a invasão começou, Leontii Sukhostavets tinha apenas 16 anos. “Nos primeiros dias ficámos em Kharkiv e foi horrível. Todos os ataques aéreos, mísseis a toda a hora. Eu e a minha família queríamos acreditar que tudo acabaria em breve, mas ao fim de duas semanas percebemos que tínhamos de mudar para outra região. Fomos para Dnipro, ficámos lá um mês e meio, mas depois eu e a minha mãe voltámos para casa. A cidade estava vazia. Antes, viviam ali um milhão e meio de pessoas. Quando voltámos não havia pessoas, não havia carros, não havia nada. Foi muito difícil, mas nós queríamos mesmo ficar na nossa cidade. A vida continuou. Acabei a escola e consegui entrar para a universidade, estou a estudar Relações Internacionais.”

A vida em Kharkiv não voltou completamente ao normal, claro, mas quase. “A cidade já não está só a sobreviver, está a viver. No dia 23 de agosto celebramos o dia da cidade, é o nosso Dia da Independência [o dia da libertação da ocupação nazi, em 1943]. Tipicamente, celebramos juntos, mas isso deixou de acontecer. Este ano, talvez pela primeira vez após a invasão em grande escala, tivemos toda a gente nas ruas, foi muito emocionante.  Isso mostra que Kharkiv é inquebrável, que é como chamamos à nossa cidade.”

Leontii tem agora 20 anos e fala um inglês perfeito que se deve, diz, a uma professora muito boa que tinha vivido nos Estados Unidos. A isso e ao interesse dele, claro. Leontii está a estudar Relações Internacionais e também está a aprender alemão. Na Universidade de Kharkiv, que funciona com ensino à distância, Leontii é o presidente da Associação de Estudantes.  “Tentamos envolver os alunos na vida estudantil porque estamos a estudar online, então é preciso fornecer o maior número possível de projetos offline para que os estudantes se conheçam e para que sejamos mais uma comunidade. Também queremos ajudar os estudantes a desenvolver as suas competências transversais, os seus conhecimentos, as suas capacidades”, explica.

 

Leontii Sukhostavets, ucraniano, participante no Enlargement CEmp

Leontii foi selecionado entre mais de cem candidatos ucranianos para participar no Enlargement CEmp. Queria tanto estar aqui que nem se importou de celebrar o seu aniversário com pessoas que mal conhecia - na terça-feira, no final do último painel de debate, cantaram-lhe os parabéns em inglês e Leontii apagou, feliz, uma vela colocada num pequeno bolo “Babá”. Para ele está a ser “muito interessante comunicar cara a cara com os jovens portugueses. Vê-los, ouvir o que eles pensam, quais são os seus pensamentos, as suas ideias sobre a Ucrânia e sobre o mundo. Porque quando moramos em sítios diferentes, as visões são muito diferentes. Estes jovem viajaram mais de 5 mil quilómetros para estarem aqui connosco. Apanharam dois aviões e um autocarro. Porque se interessam por nós. Fico muito sensibilizado com isso”, diz. “Os portugueses não só nos apoiam como estão a ajudar-nos, realmente. E isso é muito importante para a Ucrânia.”

“Quero mostrar a todos como é a Ucrânia. Não se trata de um país russo, mas sim de uma cultura única, que faz parte da Europa e, no futuro, da União Europeia. Não estamos só a defender-nos, estamos a defender a Europa”, diz o jovem. “Os ucranianos partilham os mesmos valores que a União Europeia. Liberdade, dignidade, resiliência. Hoje em dia é importante mantermo-nos unidos, como nunca foi antes na história da Europa, pelo menos depois da crise da Segunda Guerra Mundial, acho que isso é o principal.”

“Os nossos jovens deram a vida para que o nosso país pudesse estar na Europa”

“A guerra mudou-me”, diz Kateryn. “Tive de deixar a minha casa, o meu país, os meus amigos, tive que me adaptar a um novo país. E também me mudou por dentro. Acho que agora sou mais emocional. Sou uma pessoa totalmente diferente do que era antes da guerra.”

“Calma” é uma das palavras que Kateryn diz em português numa conversa em inglês. Três anos e meio depois, Kate já percebe a língua portuguesa, mas ainda não se atreve a falar. “Foi muito complicado. Estudei design na Universidade de Aveiro e as aulas eram todas em português, foi um desafio enorme”, recorda. “O sistema universitário em Portugal é totalmente diferente do dos ucranianos e nós não conhecemos as regras, não entendemos como as coisas funcionam. Foi tudo muito difícil.” Além disso, diz, “existe imensa burocracia” - esse é, na sua opinião, um dos grandes problemas de Portugal.

Mas estes pequenos problemas não a desanimaram: “Estou muito grata a Portugal porque me acolheu. Sei que poder ir para Portugal e estudar numa boa universidade foi uma oportunidade de ouro.” Além do curso em Aveiro, estudou também Relações Internacionais, à distância, na Universidade de Kharkiv. Kate não sabe se um dia poderá voltar para o seu país. “Não tenho a certeza. Para mim, é mais confortável ficar em dois países, porque agora estou muito bem em Portugal, estou a morar no Porto e tenho um bom emprego. E posso vir visitar os meus amigos à Ucrânia.”

Kateryn acredita que entrar na União Europeia seria uma oportunidade para a Ucrânia se desenvolver. Para aprender com bons exemplos de governação, e desenvolver as infraestruturas e os transportes públicos, por exemplo. “Essa entreajuda entre os países é muito importante”, diz. “Um bom exemplo do que a Ucrânia pode ensinar é como continuar a viver durante uma guerra. Temos preocupações, é uma situação difícil, mas continuamos a trabalhar e trabalhamos bem e fazemos tudo o que precisamos fazer.”

Andriy Moskalenko também é um entusiasta da integração da Ucrânia na União Europeia. “Desde 2013, 2014, que dizemos que queremos estar na União Europeia. Estamos ligados à União Europeia. Os nossos valores são comuns”, defende. “Os nossos jovens deram a vida para que o nosso país pudesse estar na Europa, começando pela Revolução da Dignidade [os protestos da Praça Maiden, em Kiev, em 2014] e estando hoje na linha da frente.”

“Não podemos persuadir ninguém, mas podemos pensar em conjunto aqui. Podemos caminhar em comum, é o maior valor que pode haver. Juntos somos mesmo mais forte”, diz o vice-presidente de Lviv, que espera que nestes dias, os jovens que participam no Enlargement CEmp “sintam a Ucrânia e compreendam o nosso espírito e o espírito de liberdade. Queremos mostrar a bravura da juventude ucraniana neste momento em que Lviv é a capital europeia da juventude. Não se trata só de um título, porque é uma questão de olhar para o que os jovens ucranianos estão a fazer hoje em dia e estamos muito orgulhosos deles. Queremos partilhar este valor com outras cidades e outros países. Hoje temos aqui jovens de Portugal e que podemos fazer isto juntos”.

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