Porque é que até adoramos a comida de avião

CNN , Will Noble
31 dez 2021, 17:54
Comida de avião
Comida de avião

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"Mixórdia de avião", "pequenos-almoços abomináveis", "praticamente intragável" – são algumas das críticas às piores refeições servidas em aviões em 2019 pela revista “Which”, uma publicação do Reino Unido voltada para o consumidor.

Gozar a mediocridade da comida servida a bordo é uma piada universal que faz lembrar aquelas perguntas no início de um número de comédia standup: “O que se passa com a comida de avião?”

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Não faltam teorias para explicar esta inferioridade. As refeições são confecionadas em cozinhas industriais localizadas junto ao aeroporto. São parcialmente imersas em líquido (dando-lhes uma vaga ideia de reterem humidade) e parcialmente congeladas antes de serem arruinadas a 10 mil metros de altitude. Especiarias e temperos são utilizados com parcimónia para agradar a paladares que se ofendem facilmente. A baixa pressão atmosférica da cabine diminui o sentido do olfato e, consequentemente, o prazer dos passageiros – assim como o barulho dos motores a jato.

Todas estas teorias são igualmente válidas. Mas quase dois anos após o início da pandemia de covid-19, em que o transporte aéreo se tornou uma comodidade rara, estaremos a começar a dar valor ao que tínhamos anteriormente?

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Estaremos a começar a sentir saudades desta tão criticada comida de avião?

De frango frito frio a caviar Beluga

Jantar por entre as nuvens já foi algo bastante simples. Richard Foss, historiador gastronómico e autor de "Food in the Air and Space: The Surprising History of Food and Drink in the Skies", diz que quando os voos comerciais surgiram, em 1920, os passageiros se contentavam com sanduíches, saladas e talvez um pedaço de frango frito frio.

"Os aviões não tinham cozinha", explica Foss, "pelo que apenas podiam servir um almoço ‘apiquenicado’ à temperatura ambiente e bebidas servidas em termos."

Foi nos dirigíveis, como o LZ 127 Graf Zeppelin, que surgiram as primeiras refeições a bordo. Uma ementa de 30 de maio de 1930 oferece um almoço de tostas com caviar Beluga, carne de vaca estufada com legumes frescos e batatas gratinadas – servido na melhor porcelana, naturalmente. E havia um tripulante cuja função era limitar as subidas e descidas da proa do dirigível, para evitar que as garrafas de vinho se entornassem nas mesas do salão.

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Tais incomensuráveis extravagâncias não tardaram a expandir-se a outras formas de transporte aéreo. Os hidroaviões Clipper da Pan Am assavam carne de vaca a bordo que depois era servida aos passageiros numa sala de jantar privada.

Mas então, quando é que tudo descambou?

Alvo de chacota

"Se forem ver os anúncios… aparecem sete chefs a fatiar um bife Wellington. Mas depois entramos no avião e servem-nos um pedaço de frango enfermo e ainda com pontos negros nos poros!” – diz o humorista Alan King numa das suas piadas.  

Nos anos 1950, King foi um dos primeiros a reparar nas armadilhas da gastronomia de bordo. (King fazia tantas piadas sobre companhias aéreas que não era invulgar que estas lhe instaurassem processos – algo que o humorista depois incluía na sua próxima atuação).

O que é irónico é que, quando King começou a fazer estas piadas, a comida servida a bordo ainda se encontrava numa acentuada trajetória ascendente.

Foi por esta altura que a Northwest Orient Airlines construiu um bar pseudo-japonês no seu avião Stratocruiser, que decorou com árvores de bonsai e caligrafia japonesa e onde eram servidos palitos de camarão espetados em ananases frescos. O nível de qualidade do serviço era tudo menos medíocre.

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Mesmo a bordo do famoso zepelim Hindenburg, nos anos 1930 – tão extravagante que o cardápio incluía sopa de ninhos de andorinha indiana e bife do lombo com foie gras de ganso –, parece que muitos norte-americanos se queixavam de que a comida era muito pesada e levava muitas natas.

As refeições servidas a bordo sempre tiveram quem as criticasse, e sempre terão. Isso não significa que seja sempre uma mixórdia de dar voltas ao estômago que nos faça ir buscar o saco para o enjoo.

As pessoas que adoram comida de avião

Mesmo as refeições mais requintadas têm as suas limitações quando estão acima das nuvens. James D. Morgan/Getty Images

Para muitos, a gastronomia de bordo é para ser saboreada. O passageiro frequente Nik Loukas é o criador do Inflight Feed, onde faz publicações, twitta e publica no Instagram comentários e fotos das refeições que lhe são servidas a bordo – abrangendo mais de 150 companhias aéreas até à data.

Os seus comentários podem não ser sempre entusiásticos (Loukas recorda com algum desdém um “hambúrguer de frango a nadar em molho” de uma determinada companhia aérea ucraniana), mas são geralmente bastante positivos.

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A imensa oferta aérea foi atingida em meados da década de 1970, quando a liberalização do setor permitiu que as companhias aéreas competissem em termos de preços, mas a qualidade manteve-se sempre num patamar aceitável. E não é preciso viajar em executiva para se descobrir algo digno de ser saboreado.

 

O próprio Loukas avalia as ofertas da classe económica da Delta (que aprimorou o serviço de bordo da classe económica pouco antes do início da pandemia de covid-19), da Turkish Airlines ("bebidas e sobremesas cheias de inspiração") e a Emirates ("porções saborosas e bem servidas que incluem saladas frescas e sobremesas).

E ele não se fica apenas pelos pratos em si.

Segundo Loukas, "é sempre interessante ver o que as companhias oferecem na classe económica – pequenos pormenores como toalhas quentes, menus impressos e água engarrafada também contribuem para a experiência.”

E Loukas não é o único a partilhar desta opinião. Assim como existem artigos que expõem os perigos da comida de avião, também existem muitos outros que nos dão a conhecer as melhores refeições a bordo – desde as beringelas recheadas com carne picada da Turkish Airlines ao cheesecake de tangerina da Qatar Airways.

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Talvez seja por isso que, no ano passado, com a paralisação mundial do transporte aéreo, houvesse quem continuasse a consumir comida de avião.

Comida de avião servida em terra firme

Quando a pandemia se instalou e ficou claro que a maioria de nós não entraria a bordo de um Boeing tão cedo, as companhias aéreas e os seus fornecedores viram-se a braços com uma acumulação de excedentes.

Houve quem se organizasse e começasse a vender o excedente de quiches de espinafres e pastrami, travessas de queijos e stroopwafels holandesas a clientes em terra.

A Garuda Indonesia até incluía o tabuleiro e os talheres de plástico – o que não é propriamente ecológico, mas que certamente proporcionaria uma experiência autêntica (especialmente se se sentasse entre dois companheiros de casa e assistisse a três filmes da Disney de enfiada).

O “The Wall Street Journal” apelidou aqueles que aceitaram a oferta de “doidos varridos”, embora “nostálgicos” talvez fosse mais apropriado. Talvez tenha sido uma nostalgia semelhante que levou a uma corrida na Internet para comprar louças e talheres – e até mesmo toalhas quentes – quando a British Airways anunciou que estava a vender uma boa parte do seu inventário.

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E muito embora os esforços da Garuda Indonesia fossem de natureza reativa, o conceito de se servir comida de avião em terra firme é mais lucrativo do que se possa imaginar.

Foi anunciado que a marca de alimentos Santan, da AirAsia, pretende expandir-se de 15 lojas na Malásia para umas impressionantes 100 franchises em todo o mundo. A ideia é vender essencialmente as mesmas receitas que são servidas a bordo – incluindo os caris rendang, nasi goreng e nasi lemak.

A gastronomia da Santan tem um certo calibre, claro – e vai contra a regra fundamental de não condimentar demasiado o molho. Mas se a empresa conseguir levar este empreendimento a bom porto, o que impedirá que outros fornecedores de companhias aéreas elevem a fasquia, se expandam e sigam as pegadas da Santan?

Fazer pedidos na Lufthansa

O que é que a comida de avião já fez por nós? É uma distração do tédio de um voo de longo curso. Se já decidiu que a vai odiar, pode sempre fazer como o autor David Barry e utilizá-la como “uma forma de entretenimento a bordo, onde o objetivo é adivinhar o que é, começando por categorias gerais como ‘mineral’ e ‘linóleo’”.

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Mas a verdade é que geralmente não é assim tão má – desde que não estejamos à espera de uma versão voadora do Ritz (até mesmo os requintados cardápios elaborados por chefs com estrelas Michelin como Gordon Ramsay e Daniel Boulud têm as suas limitações a grandes altitudes).

Acima de tudo, a comida de avião é o primeiro travo de uma nova aventura. Quer sejamos Lindbergh a mordiscar sanduíches a caminho de Paris, um passageiro da Cathay Pacific a devorar uma sobremesa flambê em meados do século passado ou uma pobre alma a ver o seu hambúrguer a ficar empapado nos próprios sucos – esta é a porta de entrada gastronómica para refeições melhores e mais entusiasmantes que nos aguardam assim que aterrarmos.

Com a covid-19 e as alterações climáticas a ameaçar um tipo de viagem que se tornou tão habitual, já há quem secretamente (ou não tão secretamente assim) anseie pela mesmíssima coisa que nos fazia torcer o nariz em “tempos pré-covid”.

Dependendo do andar da carruagem, daqui a 10 anos, poderemos estar todos a gozar as mais recentes férias em casa, a levar a família a jantar um sumptuoso repasto da Emirates ou a optar por uma refeição mais descontraída e encomendar comida da Lufthansa.

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