"Está a arder? Passem a chamar os políticos"; "enquanto salvamos vidas, o Governo brinca com as nossas"; "aldrabões": bombeiros dizem que se dirigiram "para a casa dos corruptos", referindo-se ao local da sede do Governo, em Lisboa. Protesto não foi comunicado às autoridades e surge num dia em que sindicatos representativos dos bombeiros se iam reunir com o Executivo - a reunião foi entretanto suspensa. "O Governo não negoceia sob coação", sublinha fonte oficial
Bombeiros sapadores de todo o país, que esta terça-feira se iam sentar à mesa das negociações com o Governo, furaram o cordão policial montado no local, fizeram explodir vários petardos, ajoelharam-se, cantaram o hino e usaram adjetivos como "aldrabões" e "corruptos" para se referirem à classe política. Perante o sucedido, o Governo, que estava reunido na sua sede em Lisboa, cancelou a ronda negocial.
"O Governo suspende de imediato reunião negocial com representantes dos sapadores por não aceitar negociar perante formas não ordeiras de manifestação. Não estão garantidas, até ao momento, as condições de segurança. As negociações podem ser retomadas se e quando forem assegurados o respeito pelo diálogo e tranquilidade no exercício do direito de manifestação", refere à CNN Portugal fonte oficial do Governo.
Depois de uma reunião negocial - sem acordo - que decorreu na semana passada, centenas de bombeiros sapadores concentraram-se para exigir a valorização da carreira, que não é revista há mais de 20 anos. Uma equipa da CNN Portugal no local foi atingida por um petardo durante o protesto - que não foi comunicado previamente, tendo manifestantes dito que se tratava de algo "inorgânico".
"Está a arder? Passem a chamar os políticos", "enquanto salvamos vidas o Governo brinca com as nossas", lia-se nas tarjas dos bombeiros. A dado momento, referiram-se à sede do Governo como "a casa dos corruptos" e disseram que iam "invadir o que for possível". "Estamos dispostos a tudo pela nossa carreira."
A PSP reforçou o dispositivo policial depois de os bombeiros sapadores terem furado o cordão de segurança. A PSP atuou de forma a impedir que os bombeiros entrassem no edifício do Campus XXI, onde o Governo se encontrava. O trânsito foi cortado junto ao local dos protestos.
"Não somos arruaceiros"
Assim que foi comunicado que a reunião tinha sido suspensa, vários representantes sindicais juntaram-se à manifestação, o que levou os bombeiros a fazerem um cordão de segurança para separarem sindicalistas da comunicação social. De seguida, dois representantes tomaram a palavra para anunciar que não houve consenso entre Governo e sindicatos. "Houve um avanço, no entanto não satisfaz", afirmou António Pascoal, representante do sindicato dos Trabalhadores do Município de Lisboa. "Vamos novamente lá para dentro e vamos continuar a negociação com o Governo. Não vamos ceder." Também Leonel Mateus, do Sindicato Nacional dos Bombeiros Sapadores, prometeu que os sindicatos presentes vão “batalhar pelas linhas vermelhas” definidas com os manifestantes.
Depois dos sindicalistas, foi a vez de Frederica Pires, subchefe de 2ª classe do Regimento de Sapadores de Bombeiros de Lisboa, tomar a palavra para afirmar que os bombeiros não querem "na mesa e negociação" pessoas "que não representem sapadores". "Temos sindicatos na mesa e ainda agora na CNN dissemos para meterem sapadores a falar de sapadores. Nós não queremos ser representados por sindicatos que não representam sapadores e que querem usar as nossas tomadas de força para diluir tudo o que é bombeiros. Porque, além de ser uma injustiça - e nós não vamos admitir isso -, estão a enganar o povo - que acha que tem bombeiros sapadores e profissionais e não os tem."
Frederica Pires prosseguiu a sua breve mas incisivo intervenção. "Ao contrário do que tem estado a dar na comunicação social - que temos a formação toda igual -, não temos formação nenhuma igual. Temos formação igual para aquilo que compete para abrir certos lóbis. Na nossa mesa de negociação não queremos pessoas que não representem sapadores, porque sabem criticar as nossas tomadas de força, mas depois vêm a reboque como têm vindo sempre a reboque. Que isto fique aqui ciente, que é para depois não dizerem que nós somos arruaceiros", afirmou
Propostas "ofensivas", "estão a empurrar-nos para luta mais musculada"
Entre as medidas apresentadas nas reuniões negociais, o bombeiro Ricardo Ribeiro, presente na manifestação, condenou a proposta que alegadamente significaria “baixar o ordenado bruto de ingresso” na carreira, assim como a atribuição de um subsídio de risco mensal de 37,5 euros - “que é completamente ofensivo”. “
A definição de 36 horas de trabalho semanal em vez das 35 horas da função pública e a redução de sete para cinco postos do bombeiro sapador foram outras das medidas criticadas pelo bombeiro. “Não me parece que estejam a valorizar a carreira do bombeiro sapador”, acusou, considerando que “o Governo está a fazer ‘bullying’” e a empurrar os bombeiros para “formas de luta mais musculadas”.
Ricardo Ribeiro garantiu que "a luta vai continuar até os bombeiros serem ouvidos", prometendo que nunca vão deixar de garantir o socorro às populações.