Os sonhos são o melhor espetáculo do mundo. Eis porque deve escrevê-los

CNN , David G. Allan
6 ago, 21:55
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ENSAIO. As vantagens de escrever um diário dos sonhos são surpreendentes. Explica-o quem o faz.

Diretor editorial da CNN Travel, Style, Science and Wellness escreve ensaio a partir da sua própria experiência: desde a adolescência que escreve um diário de sonhos. 

 

Há anos que o meu sonho é apresentar o "Saturday Night Live" [à letra “Sábado à Noite ao Vivo”, um dos maiores programas de televisão nos EUA]. Literalmente. Tenho tido repetidamente esse sonho, desde há décadas.

Já viajei ao espaço e para trás no tempo, e fui um super-herói. Tenho sido amigo íntimo de muitas celebridades. Tenho criado novas memórias com amigos e familiares, alguns falecidos. Tenho cometido crimes terríveis. E salvei o dia, repetidamente.

A nossa mente adormecida é uma sala de cinema privada, onde se é o realizador e normalmente a estrela, e não há limite para o orçamento de produção. Sim, alguns deles são aborrecidos (a maioria dos meus sonhos são sobre trabalho), mas muitos são divertidos, incisivos e ocasionalmente resolvem problemas. É por isso que deve pensar em transformar um caderno em branco no seu primeiro diário de sonhos.

Há pouca investigação científica sobre os benefícios do diarismo de sonho, mas aqueles que o tornam prática consideram-no útil ou aprofundador na melhor das hipóteses, e no mínimo interessante.

Insanos em segurança

O primeiro benefício potencial do diarismo de sonho é que ele pode levar a um avanço criativo. A sua mente subconsciente sonhadora é, por natureza, mais inventiva. Os seus sonhos saltam no tempo, dão saltos na lógica, aceitam contradições e por vezes não fazem qualquer sentido para a nossa mente consciente mais convencional.

"Sonhar permite que todos e cada um de nós fiquemos em silêncio e insanos em segurança todas as noites das nossas vidas" – eis como como William Dement, fundador do Centro de Pesquisa do Sono da Universidade de Stanford, afirmou uma vez.

Há inúmeras anedotas de pessoas criativas e inovadoras que encontraram inspiração em sonhos e pesadelos. James Cameron conjurou a famosa visão de um robô "Exterminador" a rastejar atrás de uma mulher, num sonho que desencadeou um enorme filão de filmes. E.B. White inventou a personagem de Stuart Little num sonho. Tal como Mary Shelley o seu monstro em "Frankenstein". O cientista informático Larry Page teve um sonho de descarregar toda a Internet e catalogar apenas os links, antes de o fazer mesmo com a empresa que ajudou a fundar, a Google.

Paul McCartney teve a inspiração de escrever "Let It Be" depois de a sua mãe lhe ter dito essa frase num sonho. A melodia de "Yesterday" também lhe chegou num sonho. "Sou um grande crente em sonhos", disse McCartney numa entrevista à New York Times Magazine. "Sou um grande recordador de sonhos".

A Origem

Em séculos passados, as pessoas acreditavam que os sonhos eram mensagens dos mortos que continham pistas sobre o que os vivos deveriam fazer. Os faraós egípcios acreditavam que os deuses nos enviavam mensagens nos nossos sonhos; chamavam-lhes omina, a origem da palavra omen. E as grandes fés de hoje contêm nos seus textos sagrados histórias em que os sonhos são enigmas importantes, cujo significado deve ser trabalhado.

Uma teoria mais atual sobre a razão por que sonhamos é que isso ajuda a ordenar, organizar e processar todos os estímulos da nossa vida acordada, como quem limpa teias de aranha. Mas por vezes pode fazer-se seda a partir das teias, quando a resposta a um problema que não consegue resolver na sua vida acordada é trabalhada no seu sonho mais criativo.

As soluções de sonho têm a vantagem de funcionar "sem os limites do tempo, lógica, espaço ou outras regras do mundo real", escreveu o Dr. Allan Peterkin num diário de sonhos guiado publicado pela National Geographic. Peterkin é professor de psiquiatria e medicina familiar na Universidade de Toronto.

Existem também exemplos históricos de resolução de problemas nos sonhos. Elias Howe desenhou a agulha da máquina de costura moderna a partir de um sonho que teve sobre canibais a acenarem-lhe com lanças, segundo a New England Historical Society. Jack Nicklaus sonhou com um novo punho de golfe que melhorava o seu jogo. Albert Einstein relacionou até as raízes da sua teoria da relatividade com um sonho que teve quando era adolescente sobre viajar à velocidade da luz.

Sigmund Freud, que escreveu a primeira pesquisa académica sobre a interpretação de sonhos, pensou que estes revelavam principalmente segredos e momentos embaraçosos do nosso passado. Mas o seu rival Carl Jung pensava que os sonhos se entroncavam em arquétipos universais e continham pistas da nossa vida subconsciente para nos ajudar a encontrar felicidade e respostas para os problemas.

Outra teoria é que os sonhos agem como um ensaio geral para a vida real, uma forma de testar alternativas em segurança. Esta parece ser uma explicação provável para os pesadelos. Os sonhos assustadores têm origem na amígdala do cérebro, onde residem emoções negativas intensas como a raiva e o medo, explicou Peterkin. São úteis, segundo os investigadores, porque podem ajudar a treinar o seu cérebro para se preparar para desafios e medos na sua vida acordada.

A propósito, a palavra “nightmare” [pesadelo em inglês] vem de uma imagem que soa como um pesadelo em si: a velha palavra inglesa para espíritos femininos malignos (maeres) que se acredita que se sentam sobre o seu peito e o sufocam.

“A estrada de realeza”

Os sonhos são janelas para o seu eu mais profundo. Ao olhar para um espelho da realidade rachado e divertido da sua casa, muda a sua perspetiva. E ao escrevê-los e pensando no que significam, percorre "a estrada de realeza", como disse Freud, levando ao conhecimento do inconsciente da sua mente.

"Tentar compreender os seus sonhos pode tornar-se uma parte importante da compreensão de si próprio, das suas relações, e do seu mundo, tanto por dentro como por fora", escreveu Peterkin.

Ellen DeGeneres assumiu-se publicamente depois de ter tido um sonho sobre um pássaro a voar para fora da sua gaiola e a libertar-se. Brad Pitt disse numa entrevista recente à GQ que ao estudar os seus pesadelos de ser perseguido, apanhado e esfaqueado foi capaz de compreender e trabalhar "cicatrizes profundas" desde a infância.

"Nenhum sonho vem apenas para nos dizer o que já sabemos. Convida-nos a ultrapassar o que sabemos", disse Jeremy Taylor, autor e ex-presidente da Associação Internacional para o Estudo dos Sonhos.

"Tenho prestado atenção aos meus sonhos ultimamente", escreveu a realizadora e atriz Sarah Polley nas suas novas memórias, "Run Towards the Danger". "Após 20 anos em psicanálise e psicoterapia, estou habituada a reparar neles. São sinais de fumo do passado, que me chamam a atenção para destroços queimados numa floresta distante da mente, embalados e enterrados sob anos de escombros, ainda a arder. Mas ultimamente comecei também a ver os sonhos como guias, apontando o caminho a seguir".

“A ópera do homem pobre”

Mais um benefício de recontar e registar os seus sonhos é simplesmente o de escapar. E quem não precisa de umas férias da vida de tempos a tempos? Nos seus sonhos pode visitar o passado ou o futuro, ir a qualquer parte do mundo ou fora dele, e voar para lá com ou sem um avião.

Como Kahlil Gibran disse de forma mais poética [tradução livre], "permitam rendermo-nos ao adormecimento e talvez a bela noiva dos sonhos leve as nossas almas a um mundo mais limpo do que este".

A palavra “dream” [sonho em inglês] vem da velha palavra inglesa para "alegria, barulho ou música". E há alegria em gravar a música ou em decifrar o barulho.

"A cama é a ópera do homem pobre", diz um velho ditado italiano. E há todos os dias uma nova atuação. Os sonhos podem ser "um incrível modelo de realidade virtual do mundo", escreveu Peterkin, "atualizado com novo conteúdo fresco várias vezes por noite".

Em alguns dos meus sonhos mais loucos, casei com Nicole Kidman, juntei-me à equipa de surf de Laird Hamilton, venci LL Cool J numa batalha de rap e conduzi o carro de Speed Racer, o Mach 5. Noutros, Sarah Silverman foi a minha terapeuta, Ally Sheedy e eu tivemos um caso enquanto fazíamos um filme dos anos 80 juntos, e eu interpretei Han Solo numa versão de "Hamlet", usando um guião feito de bolachas. Andei no liceu no século XIX, com Hulk Hogan, altura em que assisti ao funeral do General Robert E. Lee. E fui o Batman.

Lembro-me destes sonhos e de centenas de outros porque os tenho escrito desde o liceu. É o simples ato de registar sonhos que os impede de se evaporarem à luz do dia.

“Total Recall”: recordação total

Dos muitos filmes com temas de sonhos, os meus dois preferidos são "Inception" [“A Origem”] de Christopher Nolan e o filme menos conhecido de 1991 de Wim Wenders, "Until the End of the World" [“Até ao Fim do Mundo”], com William Hurt, Sam Neill e Max von Sydow. Como subtrama em "Until…", os personagens principais encontram uma forma de gravar em vídeo os seus sonhos e subsequentemente tornam-se narcisisticamente viciados em vê-los (ao ponto da loucura).

"Estás a olhar agora para a alma humana, cantando a si própria. Ao seu próprio Deus", diz a personagem de von Sydow. Por mais divertido que isso pareça, a tecnologia atual não nos fez avançar ao ponto de gravar em DVD os nossos sonhos (ainda). A coisa mais próxima disponível é escrevê-los.

Há pouco que seja preciso para começar. Encontre uma aplicação de diário de sonhos ou escolha um caderno para guardar ao lado da cama. E da próxima vez que se lembrar de um sonho, mesmo um nebuloso ou de que só se lembre de metade, escreva-o. Mesmo que seja aborrecido e não pareça valer a pena lembrar-se, escreva-o. Quanto mais tiver o hábito de os gravar, melhor será a sua recordação.

Também deixo um pedaço de papel de fora, para o caso de querer rabiscar algumas notas de palavras e elementos-chave a meio da noite. Mesmo um só detalhe pode trazer de volta a memória de um sonho inteiro. Contar a alguém o seu sonho logo após acordar também pode ajudar a guardá-lo até anotá-lo.

Os meus diários de sonhos evoluíram ao longo dos anos para passarem a incluir títulos para eles, temas de referência, pessoas e locais, bem como para registar quantos eram "bons", "maus" ou "neutros/intermédios". Faço isso para procurar tendências, mas não ponha a fasquia demasiado alta para si próprio, especialmente quando está a começar.

Ocasionalmente, também escrevo uma nota no final do sonho, se sentir que tenho alguma perceção do seu significado. Posso reconhecer instantaneamente que um sonho sobre estar perdido numa cidade é realmente sobre perder um ficheiro de trabalho, por exemplo.

Os dicionários de sonhos compilam mitologia, psicologia e simbolismo cultural, e podem ser interessantes para pesquisar temas recorrentes, mesmo que haja pouco que seja científico neles, exceto de uma forma coletiva junguiana, inconsciente.

Basta lembrar-se sempre de interpretar um sonho através da sua experiência pessoal. Por exemplo, um dicionário de sonhos pode sugerir que um cão num sonho significa lealdade. Mas se tiver medo de cães, é mais provável que represente algo mais de que tenha medo. Ou se a sua mãe tiver cinco cães, o cão do seu sonho pode estar a representá-la.

Como disse o grande especialista em mitos Joseph Campbell, "os mitos são sonhos públicos, os sonhos são mitos privados".

 

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